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O pastor do baixo clero

Eu acho que vocês ainda não entenderam direito o tamanho do problema em que a gente se meteu. Ou entenderam, mas estão se fazendo de mortos, como se tivessem encontrado um urso (li em algum lugar que o melhor a fazer ao encontrar um urso é se fingir de morto). Ou são hipsters da política, não se impressionando com nada e fingindo que não ligam para a eleição de Eduardo Cunha, o novo presidente da Câmara dos Deputados. Pois deveriam: a ascensão de Cunha é um pequeno passo para o baixo clero, mas um gigantesco passo em direção à incerteza.

Não me entendam mal, eu gosto como qualquer um de ver um bom arranca-rabo – e todo mundo sabe que Cunha à frente da Câmara com Dilma na Presidência é garantia de arranca-rabo. O problema é que a economia não anda com muita margem de manobra, a instabilidade institucional está elevada e qualquer rabo arrancado errado pode só piorar a situação. Ok, chega desta metáfora. A vitória do peemedebista foi uma derrota para o governo, sim, mas não estou aqui pra defender o governo, tem um monte de blogueiros por aí pagos para isso. Foda-se o governo! (o que, aliás, era provavelmente o slogan informal de campanha do deputado) Estou mais preocupado é com o resto do país mesmo. Dois anos de Eduardo Cunha à frente da Câmara, terceiro homem na linha sucessória, têm potencial para tornar qualquer retomada muito mais perigosa e delicada.

Eduardo Cunha

Inspira uma confiança, né? É a foto do Twitter dele.

Eduardo Cunha carrega (metaforicamente) “O Príncipe” debaixo de um dos braços. É considerado por quem entende do assunto um gênio da articulação política. Chamá-lo de Frank Underwood, o inescrupuloso senador de “House of Cards”, como fez a Istoé, é uma sacanagem: Underwood pelo menos é ficcional. Cunha é o que é porque entendeu como poucos (talvez por influência do primeiro professor, PC Farias) a força do baixo clero, o grupo de deputados que ninguém nunca ouviu falar, que anda pelas sombras do Congresso e que têm sua força no número. Gente que chama o ministro da Casa Civil de “Freddy Mercury” (ok, eu ri). Ele sabe que o que esse povo quer é dinheiro. É por isso que transformou em sua principal bandeira o Orçamento impositivo. Que intermediou contatos com doadores. Que comprou brigas com o governo. Eduardo Cunha é uma mãe para esse povo.

E como mãe, ele dá carinho e biscoitos, mas manda arrumar o quarto. Ou, como dizia o miliciano de Tropa de Elite 2, “quem quer rir tem que fazer rir”. Cunha exige fidelidade, e balança seu portfólio de aliados na cara de quem quiser. Faz valer sua vontade colocando os aliados para votarem em peso na bandeira que ele escolher. Foi o que garantiu as traições que lhe deram o mandato. Foi o que lhe permitiu assumir a liderança da bancada do maior partido do país, peitar a presidente algumas vezes e não ter de ouvir um “meu querido” sequer. Eduardo Cunha é um Severino Cavalcanti mais esperto, e eu não sei como as pessoas não percebem o quanto isso é perigoso. Pesquisem Severino Cavalcanti no Google, novinhos.

Pra comandar o clero, é preciso de um homem de fé, alguém carregue a Bíblia embaixo do braço (o outro, no caso). Evangélico há alguns anos, Cunha faz valer a vontade da categoria, uma bancada maior do que a de qualquer partido ou estado. Dane-se a separação entre igreja e Estado, isso é coisa de ativistas afeminados! Como o resto da bancada, Cunha faz o possível para usar a força da administração pública a favor do que suas convicções religiosas mandam. Já eleito, anunciou que não quer nem pensar em discutir questões como aborto e legalização da maconha, por exemplo. Deve ser parte do esforço de combate à “república gay” que o deputado acredita existir.

Não estou questionando a fé do candidato, mas Cunha certamente percebeu que ser evangélico é bom para os negócios. Dá votos, traz aliados. A frente evangélica tem alguns campeões de votos, gente que sai do anonimato para a casa dos milhares de votos – e que vota de bom grado com Cunha em assuntos como anistia de multas dos planos de saúde se ele garantir uma vaguinha na Comissão de Constituição e Justiça para barrar qualquer coisa que envolva direitos dos homossexuais. É o colchão de emergência de Cunha se o baixo clero ficar confuso (acontece muito). Sim, o cara é bom (pra si mesmo).

Ah, e ainda há quem ache que a autodeclarada “independência” de Cunha em relação ao Executivo é vantajosa para a democracia. Estes eu parabenizo pela inocência. Ele já mostrou mais de uma vez que sua autonomia vai até onde seus interesses pessoais chegam (dá um Google em “Eduardo Cunha furnas” aí, mas sem as aspas pra não zoar o algoritmo de busca). Independência condicional não é independência, é mecanismo de negociação. É sobre isso que se trata: Cunha será independente se ganhar mais com isso do que com a a adesão, e irá aderir se valer a pena. E sem trair em momento algum o próprio discurso: fique à vontade para procurar uma declaração clara de rompimento com o governo.

Essa permanente negociação não será o bom debate da democracia. Não há ideologia envolvida aqui, só realpolitik irônica. Aprovar as medidas de austeridade vai exigir liberação de emendas. Aumentar a eficiência vai implicar em cargos comissionados para amigos de amigos que não necessariamente entendam do assunto (oi, Eduardo Braga, tudo bem?) Sim, ideias toscas que vierem do Executivo terão uma vida mais difícil, mas as boas e necessárias também. O balcão de negócio permanente será ampliado. Renovação da DRU? Duas secretarias, alguns milhões em emendas talvez. Recriar a CPMF? Vamos reavaliar o Refis pros bróders empresários. Pedido de impeachment? É, esse aqui a gente vai ter que jantar no Piantella pra conversar com calma.

Tudo isso, é claro, enquanto processa jornalistas – 66 vezes até agora, e contando. Parece bom pra vocês?

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: Presidente boca suja

Meu, sifu.

Duas palavrinhas que ecoam desde ontem. Bastou o presidente da República soltá-las que a multidão veio abaixo. Uma expressão ofensiva, um verdadeiro insulto. Como se não bastasse, no mesmo discurso ele também se atreveu a falar em coisas como “diarréia braba”. Que absurdo é esse de nosso governante usar esse tipo de vocabulário?

Esse, meus caros, é o linguajar do povo, que as grandes massas nordestinas, pobres e burras entendem. É o tipo de palavra que pedreiro usa na rotina da obra, que circula pelos camelódromos das grandes capitais. Uma linguagem que não condiz com os padrões mínimos exigidos de léxico para o líder de um país tão importante como o Brasil. Expressões que só um ignorante demagógico e populista latino-americano de uma república de bananas utilizaria.

Particularmente, considero o parágrafo acima (obviamente fictício e em desacordo com as opiniões deste que vos fala) mais agressivo aos meus ouvidos do que as singelas expressões de Lula. O episódio para mim é a mais pura definição da expressão “tempestade em copo d’água”. Não me chateio em ver meu presidente se arriscar em um discurso com esse tipo de coisa. Ele é homem, brasileiro, sempre falou palavrões e sempre vai falar. Por que a surpresa?

Todos temos idiossincrasias de que homem público tem que ser sério. Não só íntegro, não só honesto, mas sério. Sisudo. Homem público usa terno preto, com gravata cinza, e não sorri jamais. Ele leva tudo a sério, com a circunspecção necessária ao exercício da função. E isso não é só para nossos políticos. Também pensamos que padres têm de ser sérios, professores têm de ser sérios. Quem ri demonstra uma fraqueza de caráter que não condiz com o cargo.

Rir não faz mal. Rir não mata. Gente normal ri, gente normal entende piada. Lula sempre é criticado por suas metáforas futebolísticas, pelas simplificações exageradas, pelo bom humor e otimismo exarcebados. No episódio em questão, ele tratava da crise como um paciente que visita um médico amigo, o qual poderia tanto optar por dar a ele uma esperança como por enterrar de vez pretensões de cura.

De fato, se o brasileiro médio perder a crença de que a situação pode melhorar e diminuir demais o consumo, a coisa fica feia. Lula não está errado em sua metáfora. Pode ter exagerado, chegado ao “baixo calão” de que tanto falaram integrantes da oposição, mas não ultrapassou o bom senso.

A impressão que dá é de que, diante de uma popularidade que continua crescendo a despeito da crise econômica, os adversários recorrem às críticas e reclamações de sempre. Não funciona. Lula sabe fazer algo que seus antecessores não souberam, e que estranhamento sempre é visto como populismo: ele sabe conversar com as pessoas.

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