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Por que Felipe Neto está errado

Toda vez que surgia um problema no trabalho, eu procurava o chefe para avisá-lo. Após o meu diagnóstico da situação, a resposta era sempre a mesma: “e o que faremos?” Eu ficava indignado com a pergunta (ELE é o chefe, ELE deveria me dizer o que faríamos), mas um dia ele me explicou a lógica. “Você é um integrante da equipe”, ele disse, “e como tal eu precisarei de você em qualquer solução pensada. Se você não for capaz de sugerir algo a se fazer nesse caso, você não pode me ajudar como eu espero”. Em síntese: ou você pensa em uma solução para o problema ou você é mais uma parte dele.

Lembrei disso quando assisti o vídeo abaixo. Para quem não reconhece o protagonista, o nome é Felipe Neto (@felipeneto), vlogueiro famoso de um ano pra cá. O moço caiu nas graças de uma parte do Twitter e se cacifou suficientemente para garantir espaço na TV e algum dinheiro. Nenhuma surpresa: o que ele faz é basicamente pegar assuntos do cotidiano ou personalidades e traçar comentários engraçados/revoltados repletos de palavrões sobre o tema. Ou seja, stand-up comedy para uma câmera. E não chega a ser ruim nisso não.

O tema da vez foi a campanha #PrecoJusto. Aqui você pode ler o manifesto da campanha. Eu poderia analisar trecho por trecho o texto, mas prefiro acreditar que os leitores são capazes de fazer isso sozinhos. Já quanto ao assunto e à abordagem, principalmente no vídeo, faço questão de me manifestar devido à repercussão que obteve na rede.

Todo mundo quer impostos mais baixos? É claro. Ninguém gosta de pagar imposto. É provável que seja esse o motivo do nome – se se chamasse “voluntário” o governo provavelmente iria à bancarrota. Você não vê ninguém defendendo a quantidade de impostos cobrada hoje, ninguém argumentando que a carga tributária nacional é baixa. Mas, convenhamos, xingar muito no twitter não resolveu problemas públicos recentes (quem se lembra do #forasarney?) e não vai resolver agora. Gritaria e petição online por “menos impostos” são uma pseudosolução infantil e simplista. O Ficha Limpa começou assim, é verdade, mas contou com muito mais movimentação real e com objetivos claros e específicos desde o início. Não vi em lugar algum do site sequer uma sugestão de o que as pessoas que apoiam a causa estão defendendo na prática. Só falam em “medidas necessárias para que enxerguem a manifestação” e um possível futuro projeto de lei. Que vai dizer o que? “Ficam cancelados os impostos sobre jogos de videogame importados”? Sério?

Reduzir simplesmente os impostos aplicados sobre produtos importados (proposta deste surreal protesto) como videogames e jogos seria abrir as pernas do país à indústria exterior e um direto enfraquecimento da indústria interna. Você pode não querer comprar nada feito aqui e ficar feliz com o que vem de fora, mas aquela indústria que fecha por não conseguir competir com o produto estrangeiro significa menos empregos, menos arrecadação, menos crescimento. É um círculo vicioso e destrutivo para a economia. Reduzir as barreiras a uma importação maciça sem contrapartida de fortalecimento da competitividade interna é caminho rápido para um suicídio econômico.

Impostos têm um motivo para existir: a sobrevivência do Estado. O Estado também tem um motivo para existir, e seria ousadia minha reduzir toda uma literatura de séculos sobre o assunto em uma frase simplória. Mas todo mundo sabe que são os impostos que permitem o investimento público em áreas como educação, saúde e segurança. São setores precários no Brasil? Certamente. A corrupção e os desvios têm sua parte de culpa nisso? Sem dúvida. Então podemos pagar menos impostos, já que não serão mesmo investidos? Nem de perto.

(Foto: Arquivo - Câmara dos Deputados)

Você sabe o que os parlamentares que você elegeu pensam da reforma tributária?

O que prejudica a aplicação dos nossos impostos, tanto quanto os desvios que devem ser combatidos, são os problemas estruturais. Nossa legislação tributária consegue ser ao mesmo tempo redundante e falha, nossa fiscalização para evitar a sonegação só começou a melhorar recentemente, setores importantes são bitributados, entre outros problemas. Mesmo assim, a famosa reforma tributária nunca engrenou por um misto de miopia dos governos estaduais, preguiça do governo federal e desinteresse do Legislativo. Isso sim merecia uma revolta e protestos, mas quem quer se arriscar em um assunto complexo como esse quando você pode simplesmente maldizer os políticos e babar pelos cantos?

A mensagem, depois de tanto economês: não se coloque no papel de uma criança mimada que pede algo aos pais e, diante da impossibilidade, esperneia e grita. Seja o adulto que, diante de uma negativa, pensa e argumenta. Gritar pelo motivo errado não só é inútil como prejudicial, porque desperdiça força que poderia ser aplicada à causa certa. Quer menos impostos em seus produtos? Vote em quem defenda e lute por uma reforma tributária, acompanhe o trabalho de seu representante, faça campanhas de esclarecimento. Exija que os impostos hoje cobrados sejam devidamente empregados, principalmente na educação – gente educada é gente informada que sabe contra o que gritar e por isso tem muito mais força. Faça isso mesmo que você não possa (ou não queira) sair da frente do computador – o Brasil progrediu muito nos recursos virtuais de transparência governamental. Monitore. Denuncie.

Acredite: só isso já faria que aos poucos todos os impostos (não só os de produtos supérfluos como jogos e videogames) caiam e, mesmo que não diminuam muito, possam ser pagos por todas as camadas da sociedade com mais tranquilidade. E isso, meus amigos, é ser parte da solução.

Atualização de 03/05: àqueles que leram o artigo dele sobre as críticas ao manifesto no Papo de Homem, minha análise está aqui.

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