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Noite sem estrelas

Não votarei domingo, assim como não votei dia 5. Não transferi meu título e trabalho no dia da eleição, de modo que resta justificar ou voto em trânsito. Esqueci de fazer o cadastro do voto em trânsito. O que, como alguns vêm me dizer, me tiraria o direito de cobrar o eleito. Discordo: é o que me dá o direito de cobrar quem quer que seja o eleito, sem que eu tenha fingir cegueira para os problemas do meu candidato caso seja ele o escolhido.

Se fosse votar, no entanto, não votaria baseado na questão da corrupção. Ela não é partidária, mas estrutural e endêmica. O partido A não é mais ou menos corrupto do que o partido B: todos eles tiveram, têm e terão adeptos dispostos a aproveitar brechas da legislação, acesso ao poder e a sensação de impunidade para cometer crimes. A postura do partido em relação a seus corruptos também não é definitiva: se o partido A defende seus corruptos, o partido B também. Intensidade de defesa não é ética, é marketing. Ninguém quer “cortar na própria carne”, ninguém vai agir “doa a quem doer”. Acreditar nisso é ingenuidade ou paixão partidária, e se você se enquadra em uma das duas situações, este texto não é para você.

Tampouco votaria baseado em promessas de combater a corrupção ou usar o dinheiro que hoje vai para a corrupção para fazer isto ou aquilo. Corrupção não é rubrica de orçamento, para a qual você deixa de destinar recursos e encaminha para a Saúde e a Educação. E a nossa recuperação de recursos perdidos para corrupção é historicamente baixa. É o tipo de coisa que ou você previne ou meio que já era. E quem combate isso é estrutura de Estado, não de governo. Polícia Federal, Ministério Público. Estruturas do governo, não deste ou daquele governante. Engavetadores da República e legislações que causem rachas na Polícia Federal são excrescências que estão naturalmente desaparecendo pelo amadurecimento natural das instituições. Presidente pode fazer isto acontecer mais rápido ou mais devagar, mas não pode interromper este processo.

Urna Eletrônica

A luz de uma noite sem estrelas.

Não votaria baseado em promessas que não serão cumpridas, em acordos partidários criticados na campanha e defendidos no governo. Não votaria de acordo com nada do que é dito durante as campanhas, na verdade, porque candidato não é governante, assim como turismo não é imigração. Propagandas eleitorais deveriam vir com “imagens meramente ilustrativas” no canto da tela, para nos lembrar que, na realpolitik, o bagulho é mais embaixo. Não votaria baseado em programas de governo, em entrevistas convocadas, em debates feitos de monólogos mal disfarçados e, definitivamente, não votaria baseado no que um tem a dizer sobre a vida pessoal do outro. Não votaria baseado nem mesmo em governos anteriores dos partidos, ou no que os candidatos falam sobre estes governos, confiando em memórias afetivas (ou na falta delas).

O que determinaria meu voto – e eu acredito humildemente ser um bom caminho – é uma pergunta simples: “dos candidatos disponíveis, qual tem o maior potencial de fazer o maior bem possível ao maior número de pessoas?” E é aqui que a porca torce o rabo, porque é aqui que as ideologias afloram.

Você pode acreditar que políticas de distribuição de renda diretas devem ser priorizadas, enquanto investimentos para melhorias de longo prazo são executadas. Que o Estado deve ser direcionador de investimentos, interferindo de forma mais veemente na economia, e não somente na regulação, porque o mercado e os empresários têm prioridades que não necessariamente batem com as da maioria das pessoas. E seu voto se basear nisso.

Ou você pode acreditar que a melhor forma de melhorar a vida da maior parte da população é crescimento econômico consistente, e que isso só pode ser obtido por meio de um Estado eficiente, mas que prefira a regulação. Que, sem a interferência baseada em valores políticos não necessariamente republicanos, o mercado gera mais riqueza, e que isso afeta a economia como um todo de maneira positiva. Que economia crescendo significa, sim, mais lucro para os mais ricos, mas ao mesmo tempo significa mais emprego, mais renda e melhores salários como um todo. E que o mercado gerencia tudo de forma melhor, a um custo aceitável, permitindo que mesmo os mais pobres usufruam de serviços de qualidade. E isso pode ser a lógica do seu voto.

Pode até ser um híbrido. Você pode acreditar que a iniciativa privada efetivamente gerencia melhor serviços do que o poder público, mas que, sem uma regulação próxima do mercado, a população que não consegue pagar pelos serviços é prejudicada demais. Que, sem o adequado equilíbrio entre interesse público no bem estar social e a lógica de lucro do mercado, ou a população mais pobre continuará às margens do bem estar criado ou o mercado reagirá para minimizar as próprias perdas, causando impacto negativo na população (de novo, com a parcela pobre mais prejudicada). Você pode acreditar que o segredo é equacionar justiça e igualdade com liberdade, e que se esse equilíbrio fosse fácil e existisse consenso sobre a melhor forma de atingí-lo, eleição era resolvida que nem votação do Big Brother, em algumas horas de votação passional (e não é?).

Independente do que você acredite, lembre-se que não há regra, não importa o que te digam. Que não tem fórmula certa para nada disso, e que o outro lado – que pode ser o estranho na Internet, o vizinho, o colega de trabalho, um primo e até sua mãe – não é necessariamente composto por genocidas satanistas sanguinolentos. Que política é debate, e que a radicalização mata o debate. Que extremar as próprias ideias diante de ideias extremas não resolve o problema, só o amplia. E que Martin Luther King Jr, que viveu em uma época de crenças, adesões e atitudes muito mais extremas do que as que vivemos hoje, deixou uma lição extremamente valiosa sobre a violência, simbólica ou não (em tradução livre, da minha lavra):

“A maior fraqueza da violência é que ela é uma espiral descendente, ampliando o que ela mais busca destruir.
Ao invés de reduzir o mal, ela o multiplica.
Por meio da violência, você pode acabar com o mentiroso, mas não pode acabar com a mentira, nem recriar a verdade.
Por meio da violência, você pode matar quem odeia, mas não matar o ódio.
Na verdade, violência apenas aumenta o ódio. E assim segue.
Responder a violência com violência multiplica a violência, aumentando a escuridão profunda em uma noite já sem estrelas.
Escuridão não pode acabar com a escuridão, apenas a luz pode fazer isso.
Ódio não pode acabar com o ódio, apenas o amor pode fazer isso.”

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Delenda Marina!

Normalmente não voto por causa do trabalho, que me impede de estar na minha terra na eleição (e me recuso a mudar meu voto para Brasília. Aqui sou só eu, é pouca gente demais para meu voto interferir. Em Goiás, meu voto pode ajudar a dar uma condição melhor para minha família, e é o que importa), mas este ano não foi nenhum sofrimento. Isto porque sigo uma regra muito própria, de voto por convicção no primeiro turno, voto útil no segundo. E este ano não tinha um candidato sequer, em qualquer dos cinco cargos disponíveis, que tivesse me feito achar que eu deveria atuar ativamente pela eleição

Tomaz Silva/Agência Brasil)

Tomaz Silva/Agência Brasil)

Já pro segundo turno, já tinha me decidido. Acreditava que teríamos Dilma e Marina, e estava disposto a votar na Marina, apesar de todas as minhas ressalvas a ela – e acreditem, não eram poucas. Por que? Porque o petismo que conheci quando garoto, que defendi na adolescência e no começo da juventude, desapareceu. As bandeiras progressistas foram abandonadas, as alianças espúrias elogiadas, e a política econômica virou algo lovecraftiano, que tornaria uma mente insana só de tentar entender para explicar.

Mas até aí eu aguentava, até aí eu defendia pontos dos 12 anos de governo. Só que a campanha jogou a pá de cal. O partido que me fez ouvir muito terrorismo quando garoto se entregou ao terrorismo de campanha. O partido que passou medo na Regina Duarte só faltou contratá-la para dizer que ela tinha medo da Marina. Foi como se o PT tivesse sido tomado pelo espírito de Catão, o Velho. “Delenda Marina!”. Marina deve ser destruída. Era a última frase, implícita ou não, em todo discurso petista. Se consideram “do jogo” ou “coisa de campanha”, como insistem alguns amigos, me é indiferente. A mim imediatamente lembrou uma frase do Ayres Britto no julgamento do caso Arruda: “Há quem chegue às maiores altura, só para cometer as maiores baixezas”. Delenda Marina! Atacar um quadro histórico do partido desta forma, alguém que teve de deixar o partido por perder espaço ao defender as bandeiras clássicas da legenda, da forma como se atacou… Minha tolerância acabou.

Mas aí… veio o Aécio. E o PSDB. E toda a memória do período entre 1995 e 2002: tudo pelo que minha família passou, as dificuldades de uma família de classe média baixa no interior do país, numa daquelas grandes cidades pequenas. As medidas fundamentais para recuperar a economia e combater a inflação – e que bagunçaram completamente nossas finanças pessoais. Depois, tudo a que o partido se opôs no governo seguinte enquanto não percebia que estava indo contra a população – e que passou a apoiar quando viu que dava voto. E tudo que eu vi e ouvi dos tucanos desde que comecei a trabalhar com política. E aí as coisa começaram a se confundir: eu vejo tucanos como petistas, eu vejo petistas como tucanos. Tão diferentes, tão iguais.

Não sei em quem votar no segundo turno. Nada que eu faça vai ajudar a combater o mal maior, porque eu não consigo mais dizer se o mal maior realmente é o que eu penso. É como se eu estivesse com a arma na mão em um daqueles filmes em que um gêmeo bom e um gêmeo mal se engalfinham até eu não saber quem é quem. E eu tenho minhas dúvidas de que perguntas resolvam, porque as respostas serão sempre destinadas a me fazer atirar no outro. Meu voto útil se tornou inútil na minha mão antes mesmo de tocar as teclas da urna eletrônica. Aos berros de “Delenda Marina”, o PT destruiu não só a ex-companheira. Destruiu meu resto de crença em algumas bandeiras do partido, minha esperança de que a política estivesse evoluindo no país, e um pouco da minha fé na humanidade. Parabéns a todos os envolvidos.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: Quatro Islândias

A Islândia conseguiu a independência há pouco mais de um século. Se tornou uma república há cerca de sessenta anos. Foi, até o século XX, um dos países mais pobres da Europa Ocidental. Tem até hoje uma economia baseada fortemente na exportação da pesca, mas cresceu muito com o turismo e, mais recentemente, com indústrias tecnológicas e atuação no mercado financeiro. Talvez, por isso, tenha sido tão afetada pela crise mundial de 2008. Antes disso, no entanto, alcancou o quarto lugar em PIB per capita do mundo, e o primeiro de desenvolvimento humano.

O sistema é parlamentar, com primeiro-ministro e presidente. Multi-partidarismo e tudo. A atual primeira-ministra, mais um avanço, é mulher. O país discute o ingresso na União Europeia, o que não deve demorar. A Islândia tem uma certa tradição liberal em termos sociais: desde 1996 é permitida uma união regular de casais do mesmo sexo. Em 2006, foi adquirido o direito de adoção.

Nem todas as estradas islandesas são asfaltadas, o que não chega a ser um problema. O trânsito é particularmente tranquilo. A energia é 70% renovável, e a Islândia espera chegar à auto-suficiência energética em 2050, a despeito da pequena quantidade de recursos mineirais. Os indicadores sociais impressionam: 1% de analfabetismo, um índice de desigualdade pífio e uma expectativa de vida de 81 anos. Um sucesso.

Os islandeses têm orgulho de sua cultura e de seu país. Entre os nórdicos, são os que mais prezam a auto-suficiência e a independência, inclusive cultural. Herdaram muita coisa da mitologia viking e literatura escandinava, inclusive com as famosas sagas. A maior parte da população é luterana, mas alguns acreditam até hoje em elfos (não os do Tolken nem os de Harry Potter, infiel, os originais). Infelizmente, o único elemento de relevância internacional na música é a Björk. Com tudo isso, a Islândia foi recentemente classificada como o quarto país mais feliz do mundo.

Um número de pessoas maior do que a população de quatro Islândias saiu de casa no domingo, na garoa paulista, se dirigiu até a seção eleitoral, digitou 2222 na urna eletrônica e confirmou. Quatro Islândias. Um milhão e trezentas mil pessoas que optaram por reclamar da política brasileira votando de forma irresponsável. Um milhão e trezentas mil pessoas que ao invés de xingar muito no Twitter, resolveram manifestar sua revolta “contra tudo que está aí” afastando um pouco mais o país de uma nação desenvolvida, alfabetizada e igualitária. Quatro Islândias que conseguiram, com quatro dígitos, deixar o Brasil um pouco mais infeliz.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: Radicalismos

Corajosa e ousada a atitude do Estado de S. Paulo em publicar um editorial apoiando a candidatura de José Serra. O que não quer dizer que tenha sido correta. A uma semana das eleições, o jornal parece ter capitulado à provocação do presidente Lula de apresentar a opção por este ou aquele candidato. Pode se dar mal.

Que ninguém se iluda quanto à parcialidade dos veículos de comunicação, principalmente impressos. Rádio e TV, por serem concessões públicas, ainda estão mais restritos por lei a certos posicionamentos políticos. Jornais não. Talvez por isso sintam-se mais à vontade para manifestar opiniões contra o governo. E é bom que isso aconteça, pois garante a fiscalização e a vigilância adequadas a um país que se creia democrático.

O problema está na falta de espelho. O Estadão, bem como a maioria dos grandes veículos de comunicação, tem talvez a mesma dificuldade do presidente Lula em aceitar críticas. Mais – cada um vê as motivações por trás da oposição de maneiras distorcidas. Para o presidente, qualquer denúncia é resultado de mais uma conspiração das elites que torcem contra (parêntese: que elite torce contra o Lula hoje? Quem não se deu bem com o governo dele?). Para a imprensa, é um passo a mais do PT em levar o país ao chavismo.

São teorias ridículas para uma situação idem. Um jornalista venezuelano que pise aqui hoje riria de nossas manchetes e manifestações. Não consigo pensar em uma forma maior de expressão de liberdade do que a possibilidade de um dos maiores jornais do país (com 135 anos de tradição, como auto-declarado) publicar editorial a uma semana do pleito apoiando expressamente o candidato da oposição e atacando fortemente o governo. Não vivemos sob a égide de Kim Jong-Il ou algo que o valha, a despeito de alguns esforços em fazer parecer.

Os dois lados se dedicam à criação de inimigos invisíveis que precisam ser sempre combatidos. Um exemplo é o Conselho Federal de Jornalismo, malfadada ideia do início do mandato petista, como se fosse um perigo em permanente risco de ressurreição. Não é. Não gosto do PMDB, mas reconheço que é o partido com mais força no país e tem quadros com divergências ideológicas graves com o PT para permitir que algo assim fosse colocado em prática. Em síntese, mas não só por esse motivo: o PT, mesmo que fosse por inteiro desejoso de uma ditadura fascista de esquerda (o que não é), não conseguiria avançar demais sobre as liberdades individuais, a despeito de todo o carisma do presidente Lula e a força da bancada no Congresso.

Os radicalismos de ambos os lados, no entanto, se fazem presentes. Sindicatos, nichos petistas ad aeternum, se juntam a blogueiros ditos independentes e pedem o exagero da aplicação no Brasil de algo semelhante à Ley de Medios argentina. Do outro, intelectuais de direita ou ressentidos se agrupam para afastar uma espécie de domínio do mal, e a mídia adota lados de uma eleição polarizada. Manifestações como essas, pseudo-defensoras de qualquer tipo de liberdade, não são novidade em situações extremas, como bem demonstrou a famosa Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, que precedeu o golpe de 1964. Que apareçam em situações de estabilidade política e econômica e com instituições fortalecidas, no entanto, é mais raro. E preocupante.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: O pesadelo de César

O imperador César, como ensina todo livro de História do Ensino Fundamental, foi morto pelo filho adotivo Brutus, que o traiu convencido por senadores romanos. Foi onde surgiu a mal-fadada e recorrente expressão “Até tu, Brutus?”, que aparece sempre que alguém se considera enganado por alguém em que confiava.

A julgar pelo noticiário, Brutus se daria bem no Congresso brasileiro. Alguma coisa está errada quando todo mundo aguarda uma traição, ou várias. Quando é esperado que  um político não cumpra uma promessa, não faça aquilo pelo que deu sua palavra. Quando prevemos que o homem público para quem votamos irá mentir. E tudo soa natural, até eventualmente desejável.

É nessa situação em que se encontram as eleições do Congresso. Um assunto de micropolítica que não interessa a muita gente além dos próprios parlamentares e jornalistas, mas deveria. Com um orçamento superior a muitas capitais, o Congresso é praticamente uma cidade. Só que além das próprias leis e finanças, seus habitantes também cuidam das do resto do país. Coisa séria.

Talvez por isso a minha revolta. As eleições serão decididas por homens que falam uma coisa e fazem outra, mentem para atingir os próprios interesses (na maioria das vezes puramente fisiológicos) e elegem outros que também estão muito pouco preocupados com o que quer o país. São os nossos representantes, que trabalharam duro (mais do que o normal, diga-se de passagem) nos últimos dias para convencer seus colegas a trairem os partidos, trairem a opinião pública e votarem em nome do corporativismo.

As eleições na Câmara e no Senado não são apenas importantes por definirem o terceiro da linha sucessória nacional, o que fica ainda mais sério se considerarmos o estado de saúde do vice-presidente José Alencar. Também não são apenas porque os presidentes das duas casas decidem o que é e o que não é votado pelo nosso Legislativo. São relevantes, sim, porque mostram em um microcosmo o que conta de verdade nas nossas escolhas eleitorais. Que, a julgar pelas esperadas puladas de cerca no Congresso, andam deixando a desejar.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: A vitória da McCainfobia

Segurei um pouco esse último post porque estava esperando o resultado das eleições americanas. Sei que todas as projeções indicavam vitória fácil de Barack Obama, mas quando se trata da cabeça de americanos, nada é garantido. Eis oito anos de Bush que não me deixam mentir.

Não acho que seja uma vitória completa e simples de Obama e do grudento slogan “Sim, nós podemos”. Ele tem seus méritos? Tem, claro. Mas também tem tantos problemas que só outros motivos poderiam levar a uma vitória tão completa como foi. Obama é extremamente jovem para um presidente americano, não tem experiênca no Executivo, entende pouco de política externa. Só isso normalmente seria suficiente para derrubar qualquer candidatura, ainda mais em um país como os Estados Unidos. Isso porque nem falei da questão dele ser negro em um país onde milícias interioranas ainda cometem crimes de ódio racial de vez em quando. Já ouvi muitas previsões de que o novo presidente deve ter o mesmo futuro de Martin Luther King e John Kennedy.

Obama ganhou apesar de seus problemas. Mais do que a criação de uma Obamania, o que se criou foi uma McCainfobia. O marketing do candidato democrata fez um bom serviço em colocar o velho republicano como a continuidade do governo Bush, que tantas bobagens fez. Usou, a seu modo, a tática do medo, tão óbvia também na candidatura adversária. Se McCain discursava tentando colocar os americanos temerosos sobre o pouco conhecimento do passado de Obama e suas ligações com pessoas… “esquisitas”, o democrata aterrorizava os eleitores com a possibilidade de mais quatro anos de um governo conservador, adepto de guerras e gastos bizarros.

Os americanos acreditaram que Obama será capaz de resolver a crise que devastou a economia do país, recuperar a imagem dos EUA no exterior, entre outras coisas. Mas mais do que isso, acreditaram na mensagem da mudança, do novo. Obama tem a tarefa, o dever de ser diferente, de fazer o que prometeu, e tem todas as condições para isso. Resta saber se aguentará a pressão. E se viverá para isso.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: Segundo turno

Acabou. Finalmente, diga-se de passagem. Depois de alguns meses de vida parada em Brasília por causa das eleições, finalmente voltaremos às discussões importantes. É claro que estou sendo sarcástico, pelo menos em parte. Com o fim do pleito, o Congresso de fato volta finalmente a funcionar, mas a passinhos de jabuti até o final do ano. É sempre assim.

Não fiquei nem um pouco surpreso com os resultados. Há muito se dizia da força municipal do PMDB, que não elege um presidente mas tem força suficiente para lotar o Congresso e lotear o Executivo. As eleições provaram isso, e mais: mostraram que novamente o apoio do partido terá peso de ouro nas próximas eleições presidenciais.

Falando em 2010, a eleição de Márcio Lacerda em Belo Horizonte mostrou que Aécio não está morto, e que nem está tão fraco. Se relativizarmos com José Serra, Aécio trabalhou com um eleitorado menor, mas elegeu alguém mais “poste” do que Kassab. Provou que tem mais capacidade de transferir votos do que Lula, que não conseguiu sequer dar um percentual decente a Marta Suplicy e só ganhou mesmo com Luiz Marinho em seu antigo reduto sindical. Com isso, o neto de Tancredo se fortalece para presidente, e deixo aqui minha aposta: muda-se para o PMDB e faz cabeça de chave com Dilma Roussef. A candidatura dos sonhos de Lula, em minha opinião.

Por outro lado, a única real surpresa para mim foi a vitória de Eduardo Paes no Rio. Imaginei que a onda pró-Gabeira que se formou em curtíssimo tempo seria suficiente, principalmente levando-se em conta o grande apoio da imprensa, que acusava Paes de instável e inescrupuloso, enquanto colocava Gabeira como o paladino da moralidade, a última esperança da política fluminense. Não discordo que a história do candidato verde permite essa construção de seu personagem, mas convenhamos: Gabeira não tinha propostas concretas. Ser um deputado com uma caneta na mão e uma idéia na cabeça, vá lá, mas um prefeito é muito mais um administrador, com a mão na massa, do que um pensador. E Paes, com todos os problemas que carrega, ainda está mais próximo desse perfil.

Por fim, aproveito para me explicar sobre o final de semana. Estava de plantão, e trabalhei feito um cachorro acompanhando exatamente as eleições. Pergunte-me quaquer dado, percentual ou proposta e eu estarei plenamente habilitado a dizer… amanhã. Por hora, segundo turno só na cama. E tenho dito.

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