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Noite sem estrelas

Não votarei domingo, assim como não votei dia 5. Não transferi meu título e trabalho no dia da eleição, de modo que resta justificar ou voto em trânsito. Esqueci de fazer o cadastro do voto em trânsito. O que, como alguns vêm me dizer, me tiraria o direito de cobrar o eleito. Discordo: é o que me dá o direito de cobrar quem quer que seja o eleito, sem que eu tenha fingir cegueira para os problemas do meu candidato caso seja ele o escolhido.

Se fosse votar, no entanto, não votaria baseado na questão da corrupção. Ela não é partidária, mas estrutural e endêmica. O partido A não é mais ou menos corrupto do que o partido B: todos eles tiveram, têm e terão adeptos dispostos a aproveitar brechas da legislação, acesso ao poder e a sensação de impunidade para cometer crimes. A postura do partido em relação a seus corruptos também não é definitiva: se o partido A defende seus corruptos, o partido B também. Intensidade de defesa não é ética, é marketing. Ninguém quer “cortar na própria carne”, ninguém vai agir “doa a quem doer”. Acreditar nisso é ingenuidade ou paixão partidária, e se você se enquadra em uma das duas situações, este texto não é para você.

Tampouco votaria baseado em promessas de combater a corrupção ou usar o dinheiro que hoje vai para a corrupção para fazer isto ou aquilo. Corrupção não é rubrica de orçamento, para a qual você deixa de destinar recursos e encaminha para a Saúde e a Educação. E a nossa recuperação de recursos perdidos para corrupção é historicamente baixa. É o tipo de coisa que ou você previne ou meio que já era. E quem combate isso é estrutura de Estado, não de governo. Polícia Federal, Ministério Público. Estruturas do governo, não deste ou daquele governante. Engavetadores da República e legislações que causem rachas na Polícia Federal são excrescências que estão naturalmente desaparecendo pelo amadurecimento natural das instituições. Presidente pode fazer isto acontecer mais rápido ou mais devagar, mas não pode interromper este processo.

Urna Eletrônica

A luz de uma noite sem estrelas.

Não votaria baseado em promessas que não serão cumpridas, em acordos partidários criticados na campanha e defendidos no governo. Não votaria de acordo com nada do que é dito durante as campanhas, na verdade, porque candidato não é governante, assim como turismo não é imigração. Propagandas eleitorais deveriam vir com “imagens meramente ilustrativas” no canto da tela, para nos lembrar que, na realpolitik, o bagulho é mais embaixo. Não votaria baseado em programas de governo, em entrevistas convocadas, em debates feitos de monólogos mal disfarçados e, definitivamente, não votaria baseado no que um tem a dizer sobre a vida pessoal do outro. Não votaria baseado nem mesmo em governos anteriores dos partidos, ou no que os candidatos falam sobre estes governos, confiando em memórias afetivas (ou na falta delas).

O que determinaria meu voto – e eu acredito humildemente ser um bom caminho – é uma pergunta simples: “dos candidatos disponíveis, qual tem o maior potencial de fazer o maior bem possível ao maior número de pessoas?” E é aqui que a porca torce o rabo, porque é aqui que as ideologias afloram.

Você pode acreditar que políticas de distribuição de renda diretas devem ser priorizadas, enquanto investimentos para melhorias de longo prazo são executadas. Que o Estado deve ser direcionador de investimentos, interferindo de forma mais veemente na economia, e não somente na regulação, porque o mercado e os empresários têm prioridades que não necessariamente batem com as da maioria das pessoas. E seu voto se basear nisso.

Ou você pode acreditar que a melhor forma de melhorar a vida da maior parte da população é crescimento econômico consistente, e que isso só pode ser obtido por meio de um Estado eficiente, mas que prefira a regulação. Que, sem a interferência baseada em valores políticos não necessariamente republicanos, o mercado gera mais riqueza, e que isso afeta a economia como um todo de maneira positiva. Que economia crescendo significa, sim, mais lucro para os mais ricos, mas ao mesmo tempo significa mais emprego, mais renda e melhores salários como um todo. E que o mercado gerencia tudo de forma melhor, a um custo aceitável, permitindo que mesmo os mais pobres usufruam de serviços de qualidade. E isso pode ser a lógica do seu voto.

Pode até ser um híbrido. Você pode acreditar que a iniciativa privada efetivamente gerencia melhor serviços do que o poder público, mas que, sem uma regulação próxima do mercado, a população que não consegue pagar pelos serviços é prejudicada demais. Que, sem o adequado equilíbrio entre interesse público no bem estar social e a lógica de lucro do mercado, ou a população mais pobre continuará às margens do bem estar criado ou o mercado reagirá para minimizar as próprias perdas, causando impacto negativo na população (de novo, com a parcela pobre mais prejudicada). Você pode acreditar que o segredo é equacionar justiça e igualdade com liberdade, e que se esse equilíbrio fosse fácil e existisse consenso sobre a melhor forma de atingí-lo, eleição era resolvida que nem votação do Big Brother, em algumas horas de votação passional (e não é?).

Independente do que você acredite, lembre-se que não há regra, não importa o que te digam. Que não tem fórmula certa para nada disso, e que o outro lado – que pode ser o estranho na Internet, o vizinho, o colega de trabalho, um primo e até sua mãe – não é necessariamente composto por genocidas satanistas sanguinolentos. Que política é debate, e que a radicalização mata o debate. Que extremar as próprias ideias diante de ideias extremas não resolve o problema, só o amplia. E que Martin Luther King Jr, que viveu em uma época de crenças, adesões e atitudes muito mais extremas do que as que vivemos hoje, deixou uma lição extremamente valiosa sobre a violência, simbólica ou não (em tradução livre, da minha lavra):

“A maior fraqueza da violência é que ela é uma espiral descendente, ampliando o que ela mais busca destruir.
Ao invés de reduzir o mal, ela o multiplica.
Por meio da violência, você pode acabar com o mentiroso, mas não pode acabar com a mentira, nem recriar a verdade.
Por meio da violência, você pode matar quem odeia, mas não matar o ódio.
Na verdade, violência apenas aumenta o ódio. E assim segue.
Responder a violência com violência multiplica a violência, aumentando a escuridão profunda em uma noite já sem estrelas.
Escuridão não pode acabar com a escuridão, apenas a luz pode fazer isso.
Ódio não pode acabar com o ódio, apenas o amor pode fazer isso.”

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Delenda Marina!

Normalmente não voto por causa do trabalho, que me impede de estar na minha terra na eleição (e me recuso a mudar meu voto para Brasília. Aqui sou só eu, é pouca gente demais para meu voto interferir. Em Goiás, meu voto pode ajudar a dar uma condição melhor para minha família, e é o que importa), mas este ano não foi nenhum sofrimento. Isto porque sigo uma regra muito própria, de voto por convicção no primeiro turno, voto útil no segundo. E este ano não tinha um candidato sequer, em qualquer dos cinco cargos disponíveis, que tivesse me feito achar que eu deveria atuar ativamente pela eleição

Tomaz Silva/Agência Brasil)

Tomaz Silva/Agência Brasil)

Já pro segundo turno, já tinha me decidido. Acreditava que teríamos Dilma e Marina, e estava disposto a votar na Marina, apesar de todas as minhas ressalvas a ela – e acreditem, não eram poucas. Por que? Porque o petismo que conheci quando garoto, que defendi na adolescência e no começo da juventude, desapareceu. As bandeiras progressistas foram abandonadas, as alianças espúrias elogiadas, e a política econômica virou algo lovecraftiano, que tornaria uma mente insana só de tentar entender para explicar.

Mas até aí eu aguentava, até aí eu defendia pontos dos 12 anos de governo. Só que a campanha jogou a pá de cal. O partido que me fez ouvir muito terrorismo quando garoto se entregou ao terrorismo de campanha. O partido que passou medo na Regina Duarte só faltou contratá-la para dizer que ela tinha medo da Marina. Foi como se o PT tivesse sido tomado pelo espírito de Catão, o Velho. “Delenda Marina!”. Marina deve ser destruída. Era a última frase, implícita ou não, em todo discurso petista. Se consideram “do jogo” ou “coisa de campanha”, como insistem alguns amigos, me é indiferente. A mim imediatamente lembrou uma frase do Ayres Britto no julgamento do caso Arruda: “Há quem chegue às maiores altura, só para cometer as maiores baixezas”. Delenda Marina! Atacar um quadro histórico do partido desta forma, alguém que teve de deixar o partido por perder espaço ao defender as bandeiras clássicas da legenda, da forma como se atacou… Minha tolerância acabou.

Mas aí… veio o Aécio. E o PSDB. E toda a memória do período entre 1995 e 2002: tudo pelo que minha família passou, as dificuldades de uma família de classe média baixa no interior do país, numa daquelas grandes cidades pequenas. As medidas fundamentais para recuperar a economia e combater a inflação – e que bagunçaram completamente nossas finanças pessoais. Depois, tudo a que o partido se opôs no governo seguinte enquanto não percebia que estava indo contra a população – e que passou a apoiar quando viu que dava voto. E tudo que eu vi e ouvi dos tucanos desde que comecei a trabalhar com política. E aí as coisa começaram a se confundir: eu vejo tucanos como petistas, eu vejo petistas como tucanos. Tão diferentes, tão iguais.

Não sei em quem votar no segundo turno. Nada que eu faça vai ajudar a combater o mal maior, porque eu não consigo mais dizer se o mal maior realmente é o que eu penso. É como se eu estivesse com a arma na mão em um daqueles filmes em que um gêmeo bom e um gêmeo mal se engalfinham até eu não saber quem é quem. E eu tenho minhas dúvidas de que perguntas resolvam, porque as respostas serão sempre destinadas a me fazer atirar no outro. Meu voto útil se tornou inútil na minha mão antes mesmo de tocar as teclas da urna eletrônica. Aos berros de “Delenda Marina”, o PT destruiu não só a ex-companheira. Destruiu meu resto de crença em algumas bandeiras do partido, minha esperança de que a política estivesse evoluindo no país, e um pouco da minha fé na humanidade. Parabéns a todos os envolvidos.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: A busca pelo “Eu disse”

Brasileiro odeia muita coisa. Odiamos argentinos, por exemplo. Principalmente o Maradona. Odiamos certos times de futebol. Odiamos trânsito, odiamos bancos – as filas de banco! – odiamos moradores de rua que pedem coisas na mesa do bar. Podemos até mentir sobre isso e dizer que nos compadecemos, mas a verdade é que preferimos transformar a sensação de constragimento em ódio. Odiamos tudo isso mas, acima de tudo, odiamos estar errados.

Talvez essa última não seja uma coisa restrita aos brasileiros. Talvez seja uma característica da humanidade. Gostamos tanto da sensação de estarmos certos que alçamos o erro à categoria dos argentinos – o que não deixa de fazer algum sentido. E chegamos ao cúmulo eventual de torcermos pelo erro apenas para estarmos certos. Porque o oposto exato ao ódio de estar errado é a sensação de falar “Eu disse”. Também vale para “Eu avisei” e “Eu sabia”.

É um sentimento mesquinho, e todo mundo sabe disso. Mas a sensação de superioridade garantida por essa simples expressão normalmente compensa – nos míseros segundos que dura – todo o peso na consciência obtido com a mesquinhez. Danem-se as consequências do erro alheio! Você sabia que isso ia acontecer, você às vezes até avisou, você… é o cara. E quem não aceita os conselhos do cara tem mais é que se dar mal. Não interessa se o errado é um parente, ou que tudo que ele precise no momento seja ser consolado pela teimosia e burrice de não aceitado sua orientação quando devia. Ele precisa ouvir que você já sabia o que ia acontecer.

Há cerca de uma semana (era para ter publicado esse texto no dia seguinte, mas estava ocupado salvando criancinhas de um orfanato em chamas no Azerbaijão), o país foi divido quase ao meio entre pessoas que esperam estar certas e pessoas que esperam o momento para dizer “Eu disse”. Passamos por uma longa campanha eleitoral, que dividiu o país entre essas duas categorias. Tudo bem, talvez tenhamos mais algumas possibilidades – gente que sempre vai falar “Eu disse”, gente que não está nem aí. Mas, grosso modo, grande parte do país está representada por um dos dois grupos. E isso é um erro.

É um erro porque o momento da emoção acabou às vinte horas e quatro minutos do dia 31 de outubro. A partir do momento em que foi declarado um vencedor (vencedora, no caso) na eleição presidencial, a campanha acabou. Não há mais espaço para as críticas vazias, os ataques sabidamente falsos, a divulgação de boatos. Escolhida a comandante do país pelos próximos quatro anos, é hora de deixar o ódio de lado e partir para o trabalho. Não estou falando de adesismo ou virada de casaca. Estou falando de uma seriedade construtiva.

É hora de seguir a racionalidade e fiscalizar. Esse trabalho é de todos, não só da imprensa ou da oposição constituída. Votar não é entregar o pepino de carregar o país nas costas pelos próximos quatro anos. É escolher um funcionário a seu serviço. E, como diz uma expressão famosa, é o olho do dono que engorda o boi. Quer que a presidenta e o Congresso façam um bom trabalho? Fiscalize. Acompanhe. Vigie. Nem que seja para, em caso de fracasso, a despeito de todos os esforços e dos prejuízos para o país, você possa dizer sorridente e com razão: “Eu disse”. Talvez até fazer uma breve dança da vitória.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: Porque voto nulo

Estarei trabalhando no dia 31 de outubro. E por isso não poderei exercer o meu direito cidadão de a cada quatro anos eleger alguém completamente despreparado para governar meu país. O trabalho é uma ótima desculpa para não votar, mas, acreditem, não faria diferença. Eu pretendia anular meu voto para presidente de qualquer forma, e explico porque abaixo. Se o caro (e raro) leitor não tem interesse em política ou na minha opinião sobre o assunto, por favor, seja meu convidado a escolher outro texto deste blog que não comece com “Marcelinho, o Opinioso, comenta”. São grandes as chances de ele ser uma tentativa de divertí-lo com temas do cotidiano.

A candidata do PT, Dilma Rousseff, é notoriamente despreparada para o cargo. A despeito de toda sua fama de boa gestora, criada à custa de muita propaganda, a falta de tato político e carisma no trato com aliados são seus pontos mais fracos. Ninguém duvide que Lula levou os oito anos de mandato (ou pelo menos os últimos quatro) na gaita graças a sua extraordinária habilidade em trabalhar com interesses e conflitos. Só assim para administrar uma massa tão heterogênea de aliados, como ele fez, e Dilma não tem essa capacidade. Isso a deixaria refém ou de subordinados que fizessem essa função ou dos “aliados”, e isso não é aceitável para o cargo mais importante do país.

José Serra não fica atrás. Também tem fama de bom gestor, mas essa fama é baseada principalmente na opção por uma menor atuação do Estado na economia. A privatização das estradas paulistas é o melhor exemplo disso. Não vamos demonizar as privatizações, pelo contrário – se estou escrevendo esse texto de um computador pessoal na madrugada, é graças a ela. O problema é a execução e fiscalização de todo esse processo, feita de forma descuidada e ao sabor dos interesses políticos. Foi assim na época, continua sendo assim agora. As agências reguladoras são não só aparelhadas politicamente (como sempre foram), como tem uma estrutura insuficiente, legislação defasada e incompleta e uma falsa autonomia. Isso ocorreu na criação e não foi alterado pelo atual governo. Empurrar ao mercado atribuições do Estado de gerenciar um país sem a devida fiscalização e impessoalidade é irresponsabilidade e negligência. Mas voltando ao candidato… Serra também não sabe conduzir aliados, tem a conhecida fama de centralista e provavelmente trataria a economia com punho de ferro, o que definitivamente não funciona em um país heterogêneo e tão dependente de uma interação mais forte com o governo como o nosso.

Desconstruimos assim os argumentos usados pelos candidatos, pelo que entendo. Dilma alega as realizações do governo Lula como exemplo de sua capacidade de sucedê-lo, mas praticamente todas as realizações dos últimos anos decorrem da habilidade política do presidente, seja na articulação, seja no uso publicitário dos sucessos. Não tendo a candidata o mesmo talento, concluo que lhe seria impossível sucesso semelhante. Já José Serra alega sua qualidade como gestor para angariar votos, mas tanto em seu período como ministro como nas passagens por cargos no Executivo, confiou sua atuação à entregar ao mercado sem o devido acompanhamento. Foi o que provocou o caos inicial pós privatizações (crise da telefonia, racionamento elétrico, etc.). Sem o trabalho do mercado, suas realizações são pífias e,  meu ver, insuficientes para garantir que fizesse um bom mandato.

Se as características que aponto dos dois candidatos são insuficientes como justificativa, sigo para o sistema político como um todo. A corrupção não é, a despeito do que apontam as propagandas eleitorais pasteurizadas, monopólio de nenhum candidato. Desde a redemocratização, os partidos estão sitiados por grupos econômicos e sociais cujos interesses particulares se sobrepõem ao público. Isso ocorre em todos os partidos, principalmente nos fisiologistas que se definem como “de centro”. Esses partidos estão com a atual candidata, mas estiveram no governo anterior e estarão com quem quer que se elega. Isso é possível graças a um modelo de “compra legalizada” de apoio político, baseado nas emendas parlamentares, utilizadas para garantir a imagem de trabalho junto ao eleitorado e mais votos para a próxima eleição. Nossos políticos (a generalização é válida sim, lamentavelmente) buscam o poder como forma de obter mais poder, e só. O formato não é novo, é conhecido de todos, e não se alterará porque isso não é interessante a ninguém que o aproveite, os únicos com a capacidade para tal.

Todo essa estrutura garante que nenhum presidente priorize a educação quando eleito, posto que este é um investimento de longo prazo, com resultados de parca visibilidade eleitoral. Com a educação desprestigiada, a compreensão da importância da boa escolha e fiscalização dos governantes segue frágil. Preferimos o “ônus” de perder um (ou dois) domingo(s) a cada quatro anos para nos livrarmos da incômoda tarefa de pensar o país, e não o fim do mês. Como se eles não se intercalassem, não interagissem. E seguimos sem uma consciência política de que o governo é eleito para nos representar, não para nos tutorar ou para pensar em nosso lugar.

Talvez precisemos de uma crise de grandes proporções, com muito choro e ranger de dentes, para percebermos esse conjunto de fatores e mudarmos. Talvez nem isso resolva. É uma visão pessimista, admito, e torço para estar errado. Mas é também um diagnóstico que creio real da conjuntura, e motivo pelo qual abdico do meu direito de votar nessa eleição. Não exerço meu papel de cidadão, é verdade, nem faço nada para mudar o quadro que apontei acima. E escolho esse caminho porque é exatamente o que, na atual situação, me é possível fazer: nada.

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Desagravo

Pedi esse espaço ao blogueiro para um desabafo. Não sou de gritar, de reclamar, nada disso. Normalmente prefiro o reclame gestual, as expressões corporais de desagrado. Mas foi demais. Nunca tive minha imagem tão agredida, nunca fui tão criticada, nunca fiquei tanto tempo apanhando de lá para cá. Pegaram minha história, amassaram e jogaram no lixo.

Não sou nova, pelo contrário. Entre as entidades místicas atemporais (somos muitas) ainda em atuação (nem tantas), estou na lista das mais antigas. Nasci na China, mas não tardei a viajar o mundo. E como senhora experiente e viajada, exigo o respeito que me foi negado nos últimos dias pelo Brasil, esse país que tanto amo. Posso ter nascido na Ásia, mas meu coração, minha alma, meu jeito de ser são completamente tupiniquins. E por isso os últimos dias me entristeceram sobremaneira.

Entendam – sempre fui politizada. Nasci para contrariar, para contestar, para combater. Você está chateado com o status quo? Eu posso ajudá-lo a protestar. Quer descontrair das opressões diárias? Eis-me aqui, a seu dispor. Mas politizada não é partidária – alto lá! Das entidades da minha época, eu sou a que mais valoriza a democracia. Não faço distinções entre ricos e pobres, negros e brancos, vermelhos e azuis. Se há um garoto travesso e entediado ou incomodado, ali eu estou, independente de quem ele seja.

Por isso estou revoltada. Passei a última semana inteira sendo bombardeada na mídia. Virei motivo de piada em redes sociais – até criaram um perfil falso para mim no Twitter, vejam vocês! Fui tachada de “anti-democrática”, “facista”, “exemplo de canalhice”. O presidente me acusou até de estar envolvida em uma farsa! Isso sem falar nos momentos em que me atribuíram a capacidade de provocar qualquer forma de dano físico. Paspalhice, minha única capacidade é alegrar o coração dos arruaceiros e fanfarrões e ferir a alma dos amargos e excessivamente sérios.

Foram tantos mal-entendidos que me senti obrigada a vir aqui e me explicar, mesmo sem ter qualquer culpa. E serei transparente: minha ficha é limpa como uma folha branca. Não tenho nem nunca tive qualquer relação com qualquer agressão. Minha companheira Fita Crepe sim, vive enrolada nessas situações. É ela a agressiva, grudenta, carente de atenção e capaz de qualquer coisa para aparecer na mídia. Por isso peço que descolem minha imagem dela, por favor. Somos diferentes como a Pedra e o Balão D’água, coincidentemente companheiros de longa data de nós duas duas.

Estou chateada e entristecida, mas não se enganem: não serei embrulhada. Onde existir um medíocre arrogante, eu estarei. Onde houver vaidosos iludidos, eu aparecerei. Porque eu sou o símbolo eterno da bagunça, da arruaça, da contestação, da crítica, do protesto.

Eu sou a Bola de Papel.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: Radicalismos

Corajosa e ousada a atitude do Estado de S. Paulo em publicar um editorial apoiando a candidatura de José Serra. O que não quer dizer que tenha sido correta. A uma semana das eleições, o jornal parece ter capitulado à provocação do presidente Lula de apresentar a opção por este ou aquele candidato. Pode se dar mal.

Que ninguém se iluda quanto à parcialidade dos veículos de comunicação, principalmente impressos. Rádio e TV, por serem concessões públicas, ainda estão mais restritos por lei a certos posicionamentos políticos. Jornais não. Talvez por isso sintam-se mais à vontade para manifestar opiniões contra o governo. E é bom que isso aconteça, pois garante a fiscalização e a vigilância adequadas a um país que se creia democrático.

O problema está na falta de espelho. O Estadão, bem como a maioria dos grandes veículos de comunicação, tem talvez a mesma dificuldade do presidente Lula em aceitar críticas. Mais – cada um vê as motivações por trás da oposição de maneiras distorcidas. Para o presidente, qualquer denúncia é resultado de mais uma conspiração das elites que torcem contra (parêntese: que elite torce contra o Lula hoje? Quem não se deu bem com o governo dele?). Para a imprensa, é um passo a mais do PT em levar o país ao chavismo.

São teorias ridículas para uma situação idem. Um jornalista venezuelano que pise aqui hoje riria de nossas manchetes e manifestações. Não consigo pensar em uma forma maior de expressão de liberdade do que a possibilidade de um dos maiores jornais do país (com 135 anos de tradição, como auto-declarado) publicar editorial a uma semana do pleito apoiando expressamente o candidato da oposição e atacando fortemente o governo. Não vivemos sob a égide de Kim Jong-Il ou algo que o valha, a despeito de alguns esforços em fazer parecer.

Os dois lados se dedicam à criação de inimigos invisíveis que precisam ser sempre combatidos. Um exemplo é o Conselho Federal de Jornalismo, malfadada ideia do início do mandato petista, como se fosse um perigo em permanente risco de ressurreição. Não é. Não gosto do PMDB, mas reconheço que é o partido com mais força no país e tem quadros com divergências ideológicas graves com o PT para permitir que algo assim fosse colocado em prática. Em síntese, mas não só por esse motivo: o PT, mesmo que fosse por inteiro desejoso de uma ditadura fascista de esquerda (o que não é), não conseguiria avançar demais sobre as liberdades individuais, a despeito de todo o carisma do presidente Lula e a força da bancada no Congresso.

Os radicalismos de ambos os lados, no entanto, se fazem presentes. Sindicatos, nichos petistas ad aeternum, se juntam a blogueiros ditos independentes e pedem o exagero da aplicação no Brasil de algo semelhante à Ley de Medios argentina. Do outro, intelectuais de direita ou ressentidos se agrupam para afastar uma espécie de domínio do mal, e a mídia adota lados de uma eleição polarizada. Manifestações como essas, pseudo-defensoras de qualquer tipo de liberdade, não são novidade em situações extremas, como bem demonstrou a famosa Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, que precedeu o golpe de 1964. Que apareçam em situações de estabilidade política e econômica e com instituições fortalecidas, no entanto, é mais raro. E preocupante.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: Bigodes

José Sarney passou por uma pequena operação para retirar um cisto benigno do lábio superior. Brigou, fez o que pode, para que não raspassem o bigode durante o pré-cirúrgico. Provavelmente atrapalhou um pouco os médicos, mas conseguiu atingir o objetivo. Na volta ao trabalho, comemorou a manutenção do dito cujo (o bigode, não o cisto).

Esse bigode não é só a marca pessoal do ex-presidente da República e atual chefe do Senado. Virou um símbolo do que há de problemático na política nacional. Parece década (ou século) passada, mas era 2009 quando Sarney resistiu bravamente a uma das piores crises pelas quais o Senado já passou. Ficou pendurado no cargo, mas com o apoio dos comparsas colegas, bem como do presidente Lula, sobreviveu e agora continua todo pimpão no mandato e no cargo.

No auge dessa crise, surgiu o blog Tirem o Bigode (http://www.tiremobigode.blogspot.com), um irreverente protesto na Internet. A proposta era simples – quem quisesse aderir, mandava uma foto mostrando um cultivado bigode. Todos só aparariam o adereço quando Sarney saísse. Como não saiu, o blog caiu em descrédito e sucumbiu em meados de setembro do ano passado.

É tudo muito simbólico. O bigodudo se manteve, mostrando a força do esquema, da união pelo interesse próprio, do fisiologismo e da busca pela eternização do poder. O povo protesta irreverente, mas desanima diante da ausência de resultados práticos e da parca publicidade das iniciativas. Às vésperas das eleições, as mesmas figuras (mensaleiros, anões, fazendeiros, donos de castelos) dão as caras e as cartas nos bastidores, garantindo que a renovação passe longe do Congresso Nacional. E a gente discute a vida sexual do Tiger Woods no Twitter.

Sarney disse que “fez o que pode para salvar o bigode”. Sempre fazem, senador. Sempre fazem.

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