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Marcelinho, o Opinioso, comenta: Era tudo mentira?

Tenho sérias dúvidas sobre como a maioria dos brasileiros chega em casa. Ou como lembram que ônibus pegar para ir ao trabalho. Ou mesmo o nome do cônjuge e dos filhos. Porque nosso povo não tem memória, e mais: tem déficit de atenção.

O presidente do Senado, José Sarney, tem mais acusações nas costas do que eu tenho de anos de vida. Coisa leve, de pedido de emprego público para namorado de neta, a coisa mais pesada, como mentiras deslavadas sobre apartamentos, auxílios-moradias e outras cositas más. Mesmo assim, depois de mais ou menos uns cinco meses de pressão pesada da imprensa e da opinião pública, ele continua no cargo. E não há motivo para se espantar com isso.

A imprensa, uma das responsáveis por fazer essa pressão e investigar, vive de onda. Esqueceu os escândalos da casa para se preocupar com a porcaria dos nomes dos presidentes das comissões especiais da Câmara que vão discutir os projetos do pré-sal. Como se isso (os nomes)  fosse importante ou decisivo para o país. Nossa mídia não quer se dar ao trabalho de continuar em um assunto impopular, enquanto o enterro do Michael Jackson sei lá quanto tempo após sua morte atrai uma mega audiência.

No Congresso, vale a regra do meu pirão primeiro. O PT vendeu a alma ao diabo, sob o comando de Lula, para não deixarem tirar o Sarney. O PMDB ridicularizou o Senado, o Conselho de Ética, o Congresso e a classe política (um pouco mais do que já era) para continuar liderando. E o resultado foi um recado para Lula de que nada está garantido, e vão querer mais para, quem sabe, embarcar na candidatura de Dilma. Ou seja, podemos esperar mais revogações do irrevogável no PT até 2010.

Fora isso, nossas manifestações populares de revolta ficam limitadas a movimentação na internet, onde convenientemente todo mundo fica sentado em casa, reclamando para uma tela. De vez em quando, saem às ruas para gritar uma meia dúzia de pessoas, geralmente envolvidas com partidos ou com interesses políticos futuros (como cabeças de agremiações estudantis). E fica por isso mesmo.

O pior é que a nossa tendência é se incluir nos acordos políticos que dão fim a essas crises. Não canso de reclamar e lembrar: principal aliado de Sarney, Renan Calheiros foi acusado de ter usado dinheiro de empreiteiras para pagar a pensão de uma filha de fora do casamento. Foi considerado culpado pelo Conselho de Ética, mas absolvido pelos colegas em plenário. Como parte do acordo, renunciou ao cargo de presidente. Mas o processo não era para tirá-lo da presidência, era para cassar o mandato! Foi quebra de decoro parlamentar! Se os senadores, corporativistas como sempre, acharam uma solução de meio-termo, nós não temos que aceitar. Porque a impressão que resta é que foi tudo mentira, perseguição da imprensa ou algo do gênero.

Os senadores sempre falam que essas crises não podem durar pelo bem da instituição. O que não pode durar, pelo bem da instituição, é mandato de gente safada. E não é com grandes acordos, esquecidos pela imprensa e pela população, que esses péssimos exemplos deixaram de mamar nas tetas do dinheiro público.

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Terrorismo

Situação hipotética: sequestraram o presidente da República. Em pleno domingo, logo após o jogo do Timão.

Na segunda-feira, o vice-presidente assume o cargo e convoca uma coletiva. Ele se empolga criticando os juros e esquece de contar sobre o sequestro. Convoca outra coletiva para falar que a Polícia Federal já está no caso, decidindo se vão chamar a busca de Operação Mindinho ou Operação Pescaria (já que eles têm que encontrar um tipo de lula). A oposição critica, diz que isso deve ser coisa da Abin, e cogita entrar no TSE para questionar campanha fora de hora para Dilma. A bolsa de valores cai.

Na terça, a busca começa a emperrar. O PMDB quer cargos no comando da investigação, mas esbarra no orgulho do PT. A PF vaza informações sobre um possível cativeiro, e quando chegam lá, os sequestradores fugiram com o presidente. A oposição começa a juntar assinaturas para criar a CPI do Sequestro. Gilmar Mendes comenta o caso, e diz que é muito perigoso para a democracia colocar nomes em operações da Polícia Federal. Por algum motivo acham pertinente consultar FHC, que acusa Zé Dirceu de envolvimento. O ex-ministro devolve a denúncia. A bolsa de valores sobe.

Na quarta, chega o pedido de resgate dos sequestradores, com um dedo mínimo como prova (obviamente falso). Eles querem a redução do IPI para o setor de armas de fogo e narcotráfico. Com medo de perder mercado, o lobby das bebidas e cigarros pressiona, e oposição e base aliada avisam que são contra. Finalmente é criada a CPI do Sequestro. A bolsa de valores cai, e analistas do mercado criticam os sequestradores.

Quinta-feira, o governo anuncia que vai editar uma medida provisória para pagar o resgate, mas o DEM avisa que vai questionar no Supremo porque não considera o assunto nem urgente nem relevante. O baixo clero na Câmara diz que até concorda com a MP, mas quer que venha com proposta de criação de novos cargos de terceiro escalão. O PMDB condiciona o apoio à manutenção de apadrinhados na Infraero. O PT convoca uma plenária para discutir o assunto, e concluem que devem lançar mesmo Antônio Palloci para o governo de São Paulo. A bolsa de valores sobe.

Na sexta, sai o texto da MP. Bombardeado. Miriam Leitão diz que o governo mais uma vez faz bobagem, porque a redução do IPI só beneficia alguns setores e vai provocar um desequilíbrio nas contas públicas. Defende que se desonere também, por exemplo, a linha de armas brancas. A CNI fala que deviam aproveitar para reduzir novamente a taxa de juros. Na Câmara, alguém lembra do passado guerrilheiro de Fernando Gabeira e ele parte para cima. A oposição fala em quebra de decoro parlamentar, porque ele usava uma tanguinha imoral na hora da briga. A CPI do Sequestro emperra na definição de quem vai ser o relator. Gilmar Mendes sai à mídia para comentar mais uma vez o sequestro, fala que ele mostra um Estado policialesco e ninguém discorda, por algum motivo. A bolsa de valores cai.

No sábado, a bolsa não cai, porque o mercado está fechado, mas as perspectivas não são boas. O presidente em exercício José Alencar se licencia para uma viagem de última hora. Michel Temer assume o cargo e cria o Ministério do PMDB (mais um) por medida provisória, em edição extra do Diário Oficial. A Polícia Federal vaza que Lula está em algum lugar do estado de São Paulo, mas é só o que eles sabem. Saem as primeiras capas de revistas semanais: a Veja diz que tem dedo do PT na história e que a PF fez escutas ilegais, Carta Capital fala que a captura foi a mando de Daniel Dantas e Istoé solta uma capa interessantíssima sobre um robô-professora criado no Japão.

No domingo ninguém faz nada, porque tem jogo do Mengão. Mas no começo da noite o presidente da República é abandonado perto da granja da Granja do Torto. Nos bastidores, parlamentares comemoram que, por uma semana, os escândalos do Senado e da Câmara foram esquecidos. A Polícia Federal ainda procura os sequestradores, que suspeita serem especuladores da Bolsa. Mas, observando os efeitos práticos da semana, ninguém duvida que possam ser terroristas.

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Celebridades (ou Múltipla Escolha)

Pergunta rápida: quem é J. C. Zoghbi?

a) economista esloveno, autor do clássico “A crise da economia de parentes”

b) psicólogo tcheco, especialista em relações paternais nas quais os filhos nunca deixam de depender dos pais

c) alemão que entrou para o Guiness com o recorde de viagens de avião pagas por outras pessoas

d) pesquisador russo responsável pelo estudo dos genes que induzem os seres humanos a atitudes desonestas

e) ex-diretor do Senado suspeito de irregularidades como nepotismo, uso de apartamentos funcionais e voar com passagens áereas da cota de deputados

f) personificação do estereótipo do funcionário público, que usa o famoso jeitinho brasileiro para se dar bem às custas do dinheiro público

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Joãozinho

Não tem figura mais endiabrada do que o Joãozinho. O garoto é o mal encarnado, a personificação da traquinagem. Para quem acredita no panteão nórdico, Joãozinho seria um avatar de Loki. Ou um leprechaun humano para os escoceses. Tanto faz. O que interessa é saber que Joãozinho apronta muito, sempre, com todo mundo. Já sacaneou padres, professores (e principalmente professoras), pai, mãe, carteiros. Não é à toa que o garoto protagoniza todo tipo de piada.

As vizinhas fofoqueiras de Joãozinho têm certeza de que existem dois futuros possíveis para o garoto: cadeia ou cemitério. E isso apesar dele não morar nem no morro e nem na rua. O pequeno João vive com seus pais, tem uma cama quentinha, e só tem que tolerar os boatos maldosos sobre a vida sexual/financeira de sua mãe. Mas, ignorando todas as perspectivas, o garoto sonha, e insiste em seu projeto de vida.

Joãozinho quer ser político. Todos os dias, depois de passar dois ou três trotes na polícia e roubar balas da velha padaria da rua, ele assiste deslumbrado ao noticiário sobre o Congresso. O menino fica impressionado com a habilidade dos deputados de fazer cara de paisagem diante da maioria das denúncias. Ele sabe, da experiência de vidraças quebradas, que dar uma de desentendido quando se é culpado é coisa de profissional. Por isso seu encantamento com deputados e senadores que só faltam falar “O que? Passagem aérea? Que passagem?”.

Joãozinho tem vocação para aquilo, e ele sabe. Por hora, ainda treina sua lábia, convencendo a mãe de que suas notas ruins resultam de perseguição da professora. Também se dedica a perder o que resta de bom senso, para poder responder às acusações mais pesadas com “Pode até ser imoral, mas não é ilegal, é?” ou “O regimento é omisso, portanto posso fazer”. O garoto, por mais terrível que seja, ainda tem nesgas de caráter, provavelmente herdados do pai.

Joãozinho só está com medo da última etapa do processo de transformação político. Ele não se sente suficientemente preparado para a proeza física de perder os braços e, mesmo assim, dar de ombros pro resto do mundo.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: Harakiri

Recentemente o plenário da Câmara dos Deputados passou por um momento de catarse. Os deputados simplesmente não aguentaram mais tanta pressão da opinião pública, tanta cobrança por punições de escândalos vexaminosos. Um a um, subiram à nobre tribuna do plenário Ulysses Guimarães e protestaram, contra tudo e contra todos, mas principalmente contra a imprensa. Para ser justo, teria de endossar palavra por palavra dita aquele dia. Infelizmente minha dignidade me impede de tal ato, mas me permito uma correção às críticas diárias: o Congresso não está parado.

A organização não-governamental Transparência Brasil fez um relatório minuncioso do nosso poder legislativo. O estudo inclui não só Câmara e Senado, mas diversas assembléias legislativas e câmaras de vereadores. O resultado é triste: um grande percentual das iniciativas de parlamentares tem pouco ou nenhum impacto para a população. Não são projetos de lei relacionados a melhorias na educação, ou emendas à constituição que permitam uma tributação mais justa, e sim pedidos de homenagens e sessões solenes. O que muitas vezes forma um círculo vicioso e improdutivo: homenagens levam a sessões solenes, homenageados em uma casa legislativa acabam sendo homenageados em outra… Fora os parlamentares que trocam gentilezas e homenagens recíprocas.

Outro absurdo são as datas especiais. Todos sabemos que o brasileiro é um povo festivo, mas não há motivo para exagero. Se todos os projetos de dias especiais fossem aprovados, teríamos mais de duas comemorações por dia. O que justifica onze projetos espalhados pelo país para a criação do Dia do Taxista? Dezenas de tentativas de se criar um dia em homenagem a times de futebol ou suas torcidas. Chegamos, inclusive, à aberração de termos quatro projetos que querem a criação do Dia do Samurai. Nada contra os valorosos guerreiros japoneses, mas não vejo motivo para um dia dedicado a eles no calendário… brasileiro.

O fato é que o nosso Congresso não ajuda. Mesmo. Nossos parlamentares tem a habilidade de ter uma lista imensa de benefícios, e pelo menos um escândalo para cada. Se tem uma cota de passagens aéreas, paga passeios para a família, namorada famosa e celebridades amigas. Se tem acesso a telefone celular grátis, entregam para a filha levar para Cancun e gastar um carro popular em ligações.

Pensando bem, talvez criar o Dia do Samurai fosse útil ao país. Seria a oportunidade de ensinar ao povo o valor de lutar pelo que é correto, independente do adversário. E uma inspiração para os nossos parlamentares, que poderiam aprender muito sobre o suícidio pela honra.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: O pesadelo de César

O imperador César, como ensina todo livro de História do Ensino Fundamental, foi morto pelo filho adotivo Brutus, que o traiu convencido por senadores romanos. Foi onde surgiu a mal-fadada e recorrente expressão “Até tu, Brutus?”, que aparece sempre que alguém se considera enganado por alguém em que confiava.

A julgar pelo noticiário, Brutus se daria bem no Congresso brasileiro. Alguma coisa está errada quando todo mundo aguarda uma traição, ou várias. Quando é esperado que  um político não cumpra uma promessa, não faça aquilo pelo que deu sua palavra. Quando prevemos que o homem público para quem votamos irá mentir. E tudo soa natural, até eventualmente desejável.

É nessa situação em que se encontram as eleições do Congresso. Um assunto de micropolítica que não interessa a muita gente além dos próprios parlamentares e jornalistas, mas deveria. Com um orçamento superior a muitas capitais, o Congresso é praticamente uma cidade. Só que além das próprias leis e finanças, seus habitantes também cuidam das do resto do país. Coisa séria.

Talvez por isso a minha revolta. As eleições serão decididas por homens que falam uma coisa e fazem outra, mentem para atingir os próprios interesses (na maioria das vezes puramente fisiológicos) e elegem outros que também estão muito pouco preocupados com o que quer o país. São os nossos representantes, que trabalharam duro (mais do que o normal, diga-se de passagem) nos últimos dias para convencer seus colegas a trairem os partidos, trairem a opinião pública e votarem em nome do corporativismo.

As eleições na Câmara e no Senado não são apenas importantes por definirem o terceiro da linha sucessória nacional, o que fica ainda mais sério se considerarmos o estado de saúde do vice-presidente José Alencar. Também não são apenas porque os presidentes das duas casas decidem o que é e o que não é votado pelo nosso Legislativo. São relevantes, sim, porque mostram em um microcosmo o que conta de verdade nas nossas escolhas eleitorais. Que, a julgar pelas esperadas puladas de cerca no Congresso, andam deixando a desejar.

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