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“Push” é “empurre”

Tem 15 dias que eu estou morando em Nova Iorque (assim mesmo, Nova Iorque, tenho preguiça de ficar misturando grafias em outros idiomas no meio das frases, if you know what I mean). É coisa temporária, até maio, porque por alguma dessas coincidências do Universo eu ganhei uma bolsa de estudos para um período por aqui estudando economia internacional (não entendo nada do assunto, mas estou aprendendo aos poucos). Enfim, tive mais sorte que proatividade (como 90% das vezes em que me dei bem na vida) e tô aqui.

É esquisito como a gente imagina que vá ser. Esse negócio de estar o tempo inteiro cercado de gente falando um idioma que não é o seu dá um nó na cabeça da gente. Estou falando, é claro, dos chineses que estão invadindo aos poucos os Estados Unidos. O Trump está preocupado com os refugiados do Oriente Médio porque não deve andar pelas calçadas da cidade, mas eu juro que tem dias em que ouço mais mandarim do que inglês. Não estou criticando, só estou constatando o fato de que, como o Veríssimo previu, vai ter um dia chineses em que o pessoal chineses do país do chineses dragão vai chineses ocupar chineses até as chineses frases chineses…

Mas como eu ia dizendo, é tudo muito esquisito, é tudo muito diferente. O que mais resume a experiência pra mim são as instruções nas portas. No prédio em que estou morando (graças ao câmbio, estou pagando por um quarto na casa de uma senhora muito simpática o que eu pagaria para morar numa mansão em Brasília), são 3 portas até chegar ao elevador. As duas primeiras são abertas puxando. A última, empurrando – e é aí que eu me enrosco. Porque “empurre”, em inglês, é “push”. Nas três primeiras vezes que passei por ali, enfiei a cara no vidro (numa delas, a vergonha foi pública porque tinha um vizinho – chinês, obviamente – por perto, e o maldito não pareceu minimamnte interessado em segurar o riso. A essa altura, já deve ter espalhado pelo prédio inteiro). Agora, toda vez que chego à porta me vem o mesmo pensamento, permanente: “push é empurre”.

Estar aqui é meio que isso, só que o tempo inteiro, com tudo. Não é só o idioma que é diferente, é tudo. Os costumes. O humor. A etiqueta. A hora de atravessar a rua, o jeito de atravessar a rua, a rua, o R. De repente, eu saí de um Universo em que tudo ou quase tudo era automático pra mim, quase mecânico, para uma situação em que o mais banal pode demandar um segundo, cinco, dez ou até mais de reflexão. Devo me despedir de alguém que acabei de conhecer com um abraço? (Resposta: não, o mais provável é que você tente, a pessoa não entenda ou não concorde e um momento constrangedor surja) Devo fazer uma pergunta na aula? Como pedir o prato? Como eu explico que não entendi o que o vendedor está oferecendo após a quarta vez em que ele repete sem parecer surdo ou recém-saído de um coma?

Eu presumo que esta sensação passe – o que explicaria os brasileiros que, morando aqui há menos de um ano, aparentemente têm uma dificuldade em não incluir “dear” nas frases. Mas não deixa de ser interessante como um exercício antropológico (ou seria psicológico?) notar o quanto dependemos do nosso piloto automático – e o quanto ele é um produto do meio em que estamos. O idioma é a barreira mais óbvia – as minhas piadas, que já são ruins em português, estão consideravelmente piores na versão traduzida – mas todo o resto colabora.

É claro que tem um lado positivo, ou pelo menos pretensamente positivo. Se você reflete sobre o que está fazendo, falando e abraçando, as chances de um vacilo distraído são menores. Racionalizar todo e qualquer comportamento pode parecer algo que te torna mais frio e lento, mas permite avaliar melhor as situações – e muitas vezes isso vai te tirar de belas enrascadas. Sem falar que, pelo menos por um curto espaço de tempo, você ganha a vantagem de poder mandar um “la pregunta?” (ou a versão em inglês disso) e ganhar tempo para pensar. Acredite, pode salvar seu dia e sua reputação – a menos que tenha um maldito chinês perto da porta quando você enfiar a cara no vidro.

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Eu, 80% do tempo.

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Arquivado em Crônicas do Opinioso