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Da arte de se explicar sem se explicar (ou Porque o #preçojusto não pode ser defendido)

“Em política, toda vez que é preciso explicar, não é bom.” (GUIMARÃES, Ulysses)

Não conheci Ulysses Guimarães. Ele desapareceu nas águas fluminenses quando eu ainda era um moleque, assistindo meus desenhos e perturbando meus pais. Mas conheci sua obra. Ulysses é uma das poucas unanimidades atuais entre políticos, jornalistas da área e gente velha em geral que viveu a década de 80 no Brasil. Hoje provavelmente morreria de desgosto ao ver o que seu MDB virou, é verdade, mas fez muito pelo país e pela democracia enquanto viveu. Tanto que virou nome do plenário do Congresso Nacional, local definitivo das decisões políticas do país. Foi por isso que escolhi uma de suas muitas frases para iniciar este texto. Ulysses sabia das coisas da política, principalmente da política real, do dia a dia. E, acreditem, ele estava certo ao dizer que ter que se explicar nunca é bom.

Passei os últimos dias debatendo aqui, neste mesmo espaço, algo que acredito errado: o manifesto #preçojusto e este vídeo, que encabeça a campanha. Não vou mais repetir os mesmos argumentos – já o fiz em dois posts e comentários em ambos, peço que os busquem no blog. Disponho-me agora a discutir o artigo que Felipe Neto escreveu defendendo seu vídeo e seu movimento no bacana Papo de Homem. O mesmo site, dias antes, havia feito algo semelhante ao que fiz, questionando em um artigo as ideias-chave por trás do vídeo e do manifesto. Por isso, nada mais democrático e justo do que oferecer o espaço. Eu faria o mesmo se meu modesto espaço tivesse o mesmo alcance ou interesse da outra parte. Isto posto, aproveito a oportunidade para dar prosseguimento (a pedidos) ao debate. E o farei separando o artigo por partes. Peço desculpas antecipadas, pois será longo.

Não sei se algum famoso já teve o mesmo raciocínio, mas acredito que nada facilita mais a manipulação de pessoas do que meias-verdades. Uma mentira absoluta é eventualmente descoberta e leva por terra tudo que conquistou. Uma verdade pode ser dura demais para a consciência. Já as meias-verdades são a chave para manter o apoio de um grupo, mas sem que eles cheguem efetivamente ao que interessa. E a mim me parece que esse manifesto é repleto de meias-verdades, assim como este artigo que o explica. Avanço a seguir.

Desde que foi lançado, o manifesto recebeu todo tipo de resposta possível, desde o amor desmedido e cegueira de pessoas que preferem acreditar em tudo ao invés de pesquisar e formar sua própria opinião, até o ódio igualmente descabido de quem se coloca sempre como “do contra” dentro da web e foi buscar dos mais sórdidos argumentos para tentar derrubar o manifesto. Tanto um extremo quanto o outro são igualmente rasos, mas fomentam um dos objetivos principais do #PreçoJusto, o debate.

Permito-me o plágio: nada disso faz sentido. É verdade que existem muitos fãs cegos que o defenderam com unhas e dentes, mas vi pouquíssimos “do contra” que tenha buscado argumentos sórdidos para tentar derrubar o manifesto. Os poucos que vi dispostos a contrariar a sério a mente de manada o fizeram com raciocínios sólidos, ainda que pudessem eventualmente restar inválidos. Mais: mesmo que essa situação existisse, não entendo como dois grupos tão rasos poderiam fomentar um debate qualificado sobre assunto sério como impostos. Afinal, é notórios que fãs e haters (como se acostumou a tratar o segundo grupo na Internet) se destacam justamente pela falta de raciocínio e agressão gratuita, sem qualquer preocupação com o assunto real. Que debate seria alimentado por tais pessoas?

Quando um manifesto é lançado, muito mais que simplesmente gritar a rebeldia, seu propósito principal é fazer com que o tema vire assunto. Pra mim, a maior alegria é ver uma massa consideravelmente grande de pessoas pesquisando, argumentando e debatendo o tema, uns atacando, outros defendendo, mas acima de tudo se informando. Somente assim inicia-se uma revolta: com informação e uma pitada de incentivo. O #PreçoJusto veio justamente pra isso, fazer com que milhares de pessoas se informem e, quem sabe, consigam enxergar o absurdo que encontramos dentro do cenário tributário brasileiro: a hiper-mega-extrema-absurda taxação desmedida de produtos importados no Brasil.

Em um aspecto eu não poderia concordar mais: o tema dos impostos é importante e complexo, e precisa ser discutido com toda a seriedade que lhe for permitida. Isso inclui, acima de tudo, se informar. E essa é a única concessão de mérito que faço ao vídeo do rapaz: o debate. Quanto à essa visão quase messiânica de fazer as pessoas enxergarem o exagero na taxação dos impostos de produtos importados… Não conheço nenhuma pessoa que tenha a intenção de adquirir esses produtos que não compreenda a lógica por trás do preço. É quase ofensivo pensar que as pessoas desconheçam a tal ponto a lógica de mercado. A população pode não ter consciência do raciocínio por trás dos impostos, é verdade, mas sabe de sua existência e de seu impacto. Usar dessa última ignorância como atalho para uma consequência prática poderia ser considerado, a meu ver, até má-fé, mas não farei nenhum juízo definitivo nesse sentido, pois não é meu papel.

Muitas teorias foram criadas acerca da criação do manifesto, desde o interesse por audiência (o que, se me permitem, “não faz sentido” pois ela já existe), passando pelo desejo egoísta de comprar um videogame (por favor…) e chegando até o cúmulo de tudo ser na verdade uma ação viral para propagar o jornal Brasil 247, então acho que cabe utilizar deste espaço para desmentir algumas bobagens. De cara deixo claro que não, não se trata de um viral.

Decidi criar o manifesto há cerca de 2 meses, quando, buscando temas entre o público do Não Faz Sentido, percebi que muitos reclamavam da questão dos preços de produtos eletrônicos no Brasil. Pesquisei bastante sobre a questão dos impostos e, ao observar exatamente onde iria atacar com minha crítica, fui atrás de pessoas engajadas e de alto conhecimento no assunto. Por isso, uni-me ao jornal Brasil 247, mais precisamente ao seu editor-chefe, Leonardo Attuch, ninguém menos que o ex-editor chefe da Isto É Dinheiro, um jornalista especializado em economia com profundo conhecimento, que não só auxiliou na elaboração do texto do Não Faz Sentido como mobilizou toda uma infra-estrutura para suportar o manifesto. Acreditem, mais de 330 mil assinaturas em 3 dias não é pra qualquer infra.

Não discuto os motivos que levaram à produção do vídeo e à adesão ao manifesto, porque não interessam à discussão. Poderia tê-lo feito a soldo que não me incomodaria se restasse um bom resultado. Discuto o produto em si. E parece-me que o autor pecou em seu caminho. Será que ele não percebeu, durante toda a pesquisa, as inconsistências econômicas em sua defesa exclusiva da redução dos impostos de importação? Não recebeu nenhum aconselhamento de seu respeitável mentor (nenhuma ironia aplicada) sobre preocupar-se com pelo menos citar a importância de uma reforma tributária completa? Não cogitou, nem por um segundo, avançar a discussão além do protesto simples e inócuo?

Aproveito para questionar mais uma vez, dada que a oportunidade da explicação foi perdida nesse sentido. O que essas milhares de assinaturas (já eram mais de 410 mil à época da produção deste texto) estão apoiando com seus CPFs? Que destino terão? Considera-se a possibilidade de liberar seu acesso ao público antes de ser oficializado, como o fazem até mesmo as malfadadas agências governamentais, ou a opção será pela absoluta falta de transparência? Volto ao manifesto, aliás, para o que parece ser uma resposta a minhas perguntas.

Plenário Ulysses Guimarães

Tudo vem parar aqui - e por isso seu voto é mais importante do que assinar uma petição online qualquer.

Em nenhum momento anunciei o #PreçoJusto como um projeto de lei, pois não o é. O manifesto é nada mais que… Um manifesto, cuja concepção da palavra é exatamente “uma declaração pública de princípios e intenções, que objetiva alertar um problema ou fazer a denúncia pública de um problema que está ocorrendo”. Nosso objetivo? Avisar a Brasília: o povo está puto com isso.

Conseguimos? Bem, ao que parece, estamos próximos. Os passos seguintes não dizem respeito a mim, pois o máximo que posso fazer é mostrar o problema, unir as reclamações e apresentar ao nosso Executivo e Legislativo – como pretendo, em breve, entregar a nossa Presidente. A partir daí, está nas mãos dos que nos representam e, se tudo der certo, conseguiremos uma representação ativa para abraçar a campanha (contatos nos bastidores já meio que garantem que iremos consegui-la… e forte).

Sabe o que manifesta uma opinião pública como nada mais faz? O voto. Ele é a ferramenta definitiva de manifestação popular, porque é a que tem efeito prático previsto em lei. Nada diz mais aos políticos que o povo está puto com algo do que eleger pessoas que concordem com essa opinião e relegar os contrários ao limbo. Essa é a força da democracia, sempre foi, sempre será. De resto, se isso é apenas um manifesto, para que servem as assinaturas? Para demonstrar apoio? Apoio a que? A uma redução de impostos? Sabe quantas manifestações já foram feitas e ainda serão pela redução de impostos – e veja bem, gerais, não apenas os de importação? Acredite, meu caro, nenhum político nesse país desconhece a irritação popular em relação a este tema. Não é a ignorância que leva nossos representantes à inércia, mas a falta de vontade. E a única ameaça a essa falta de vontade respeitada pelos nossos políticos é a do voto.

Imaginemos por um instante, no entanto, que essa carta de intenções atinja seu objetivo, e o protagonista do vídeo consiga entregá-la à Presidente. O que o leva a acreditar que isso seja levado à frente? Salvo engano, não faltam críticas a nossos políticos (muitas válidas) em todo o vídeo. Acreditam, esse um milhão de assinaturas virtuais, que mudarão a cabeça de eleitos por milhões reais? Alimentam, de fato, essa falsa esperança? De resto, faço pilhéria da atenção dada às informações “de bastidores”: o apoio (muitas vezes transformado em lobby) de grupos fortes da sociedade à causa tributária é provavelmente uma das coisas mais conhecidas e públicas da nossa política.

“Ora, mas tanta gente passando fome e você só quer saber de comprar seu videogame.”

Seguindo esse preceito, nós não podemos reclamar de rigorosamente nada no mundo enquanto há gente passando fome. Lembre-se disso quando reclamar que seu bairro está sem luz, ou sua rua está esburacada. Ora, tem gente passando fome, você não pode reclamar. Isso é uma grande bobagem.

Eu não sou o Bono Vox, meu público é exatamente consumidor de produtos de mídia e eletrônicos importados, o que eu fiz foi puramente atrelar um tema que gera insatisfação em massa no povo brasileiro e cruzar isso com o público alvo do Não Faz Sentido para ter força o suficiente para brigar por algo em Brasília… E, conforme já frisei no vídeo, esse é somente o primeiro passo: se o manifesto der certo (e tudo indica que já vai dar certo), o objetivo é ir além.

Não me peçam para, em meu primeiro manifesto, já querer resolver todas as mazelas que desgraçam o mundo. Eu não sou Jesus, nem Buda… E normalmente quem utiliza desse discurso superficial está sentado há anos em sua cadeira sem fazer rigorosamente nada.

Escola Pública

O dinheiro para a isenção fiscal vem dos cofres públicos, assim como o do investimento em educação.

É uma lógica tão tortuosa que tenho dificuldade em avançar. Já defendi em meu último post a questão do trade-off e porque existem, sim, prioridades. Concordo que seria uma grande besteira tentar rsolver todos os problemas da sociedade de forma linear, como numa fila indiana de prioridades. As questões sociais existem de forma paralela (principalmente na economia) e atrelada, de forma que isso seria impossível. Mas prioridades existem – e não vejo como uma questão de importação de eletrônicos para lazer possa ser considerada mais fundamental do que elementos como saúde, educação e segurança, só para ficar nas clichês. Parece-me, portanto, que houve na verdade uma convergência de interesses: o protagonista buscava a adesão fácil e o público buscava uma causa egoísta com que se identificasse. A preocupação social, no entanto, ficou de fora da equação.

Ainda sinto falta da transparência na informação sobre o “ir além”. E não vi ninguém pedindo que o protagonista resolva todos os problemas do mundo. Apenas acredito que, caso queira realmente ajudar, que ajude com as prioridades primeiro. Qualquer outra opção prejudica o trabalho sério.

Ao Raphael Gaudio e a todos que escrevem textos defendendo que os produtos importados necessitem de taxação para não prejudicar a indústria nacional, deixo três pontos:

1. Praticamente não há indústria nacional nos segmentos apontados.

2. Concordo que deve haver a taxação, mas numa medida justa, como no máximo 30%, não chegando aos 250% como vemos no Brasil.

3. Por mais besteiras que possa ter feito, se Collor tivesse seguido o pensamento de vocês, teríamos até hoje no Brasil somente eletrodomésticos de quinta categoria, brinquedos de arame e plástico fajutos e “carroças” no lugar de carros nas ruas. Foi justamente sua política de “abrir as pernas para os produtos importados” que fez com que o povo brasileiro saísse das péssimas condições dos produtos nacionais e revolucionasse a própria indústria brasileira, que foi obrigada a se adaptar ao alto grau de qualidade dos gringos.

O #PreçoJusto está aí, volto a frisar, para mostrar somente uma coisa aos nossos representantes em Brasília: estamos insatisfeitos com os altíssimos impostos cobrados em mídias e eletrônicos importados. Se você está feliz e acha justo pagar 200% a mais por um produto, ótimo, mas se você, como eu, fica indignado com esse estupro, já sabe onde assinar: www.precojustoja.com.br.

Enumero, para fins de facilidade, os argumentos opostos.

Capa de Veja - Março de 90 (Fonte-Arquivo Veja)

É esse o homem responsável pela industrialização do Brasil?

  1. Reduzir os impostos de importação trará essas indústrias para o país, gerando empregos e crescimento e barateando a longo prazo os produtos ? Ou permitirá tão somente que essas empresas ampliem seus lucros e movimentema economia de seus países, trazendo apenas uma falsa ilusão de prosperidade ao nosso? Qual é mais vantajoso?
  2. Se os impostos não afetam ninguém aqui dentro, porque os 30% são justos? Por que não a redução ao zero? Ou o argumento acima foi abandonado?
  3. A abertura econômica do governo Collor foi uma maneira de tentar evitar, num ação desesperada e mal-planejada de curto prazo, os fracassos repetidos dos planos econômicos que conseguiram rapidamente chegar ao confisco da poupança, aprofundamento da recessão econômica, extinção de postos de trabalho e hiperinflação. O resultado nada mais foi do que uma enxurrada de produtos importados para quem podia pagar – e deterioração das condições de vida do resto. A volta da industrialização foi na verdade obtida com muita dificuldade ao longo dos governos seguintes, que trabalharam pela estabilidade econômica.

Por fim, lamento a falsa dicotomia criada no final e vou pela terceira opção, do trabalho sério e silencioso pela conscientização, educação e informação. Eu não estou feliz com o imposto que pago nos produtos eletrônicos que eventualmente eu queira comprar, fico indignado, mas não assinarei meu nome em nenhum manifesto de objetivo vago e origem obscura. Afinal, como já dizia o próprio Ulysses, “em política, até raiva é combinada”.

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