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A Revolta do Post-It

Demorou, mas veio. Mais um texto que começou com intenção de ser feito para stand-up, mas ficou pela metade. Achei que tinha mais cara do blog, sabe? Estrutura muito semelhante à de um texto que publiquei, salvo engano, ano passado, sobre um hipotético sequestro do Lula. Chama “Terrorismo”, e acho que vale a pena procurar no blog. Talvez (eu disse talvez) eu o atualize em outro momento. Por ora, fiquem com “A Revolta do Post-It”.

A Revolta do Post-It

Eu li uma notícia absolutamente irrelevante, mas me fez pensar em algumas coisas que eu queria dividir com vocês. O Palocci… Vocês lembram do Palocci, né? Aquele que sacaneou o caseiro. Então, ele agora é ministro da Casa Civil. E aí ele assumiu o cargo agora e resolveu transferir da Casa Civil para o Ministério da Justiça o comando do Arquivo Público Nacional. Foda-se, né? Tenho nada com isso, uso o Google, pode passar pra quem quiser. Só que rolou uma treta, os arquivistas do país todo não gostaram. Teve um que deu entrevista, disse que o maior risco é que o arquivo volte a ser um mero depósito de documentos. Duplo foda-se, sempre achei que um arquivo fosse exatamente isso. Mas eu sou leigo, os caras que mexem com isso estão putos, estão fazendo um abaixo-assinado, na época da notícia tinham 1500 assinaturas, o que eu imagino seja a população de arquivistas do Brasil.

Eu vou confessar minha preocupação, e eu estou aqui para dividí-la com vocês. Porque eu acho que o governo vai fazer igual a gente, ou seja, vai mandar um combo de foda-se para esse assunto. E isso pode ser terrível. Vamos lembrar o que é um arquivista: é um cara que estuda uns quatro anos na faculdade para aprender basicamente a guardar coisas. O trabalho dele é saber onde está tudo guardado. Agora vamos ao pior cenário possível: o governo não atende aos pedidos dos arquivistas. Eles viram motivo de piada nacional. Começa a revolta, que entra para os livros de história como “Revolta do Post-It”.

No primeiro dia, todos os processos contra políticos no Supremo Tribunal Federal são desarquivados e vazados num site. Estilo Wikileaks, mas uma página seca, sem firulas e sem foto daquele loiro com cara de “me come”. É tanta coisa que entope completamente os ventiladores do país inteiro. O Congresso entra em desespero. Eles tentam conter o estrago, mas já está tudo virando Trending Topics no Twitter, disputando de perto com nomes de BBBs e “NósAmamosJustinBeiber”. Surgem fotos da vice-primeira-dama praticamente pelada (fucking yeah!). Em protesto contra a atuação do Executivo no caso, oposição e base “aliada” aprovam o Bolsa-Tio, um acréscimo à verba indenizatória direcionado à sustentação das “sobrinhas” dos parlamentares. A bolsa (de valores) cai.

No segundo dia, desarquivam as notas fiscais de todos os parlamentares. Aparece de tudo: hotel, motel, bordel (vulgo puteiro). Mais: aparecem as atas das reuniões no Congresso. Caos! As suspeitas são confirmadas: Maluf tem sim conta na Suíça, o Suplicy está mesmo gagá, o Lula cortou o próprio dedinho para se aposentar, Sarney pinta o bigode, metade do Congresso curte algum tipo de droga (alguns até ouvem axé em casa). Por algum motivo, nenhum documento assinado por Tiririca aparece no meio. A bolsa sobe.

No terceiro dia, a Polícia Federal começa a investigar os vazamentos, mas é desacreditada quando os jornais recebem um arquivo que mostra que os nomes das operações da PF eram todos criados por um programa de computador. Começa a adesão de anarquistas cibernéticos aos arquivistas (“só de zua”), reunidos em um evento maligno e misógino nomeado “Campus Party”. Vírus são criados e disseminados na rede com o único propósito de trocar todos os nomes das pastas dos computadores. O ato gera caos na administração pública, já que ninguém mais consegue acessar o Free Cell. A bolsa para de funcionar após cair 30% porque todos as siglas que nomeiam as empresas de Eike Batista são trocadas por palavrões abreviados.

No quarto dia os ministros do STF se reúnem para discutir o pedido de prisão de todos os envolvidos, mas batem boca após a revelação de folhas salariais de capangas no Mato Grosso e fica por isso mesmo. Com o fim do repasse de recursos públicos, Une e Ubes (essa você não deve saber o que é, mas nunca vai te fazer falta essa informação) convocam estagiários de todo o país na adesão à causa. Post-its são trocados de computador, etiquetas de gavetas de armários e arquivos físicos são invertidas. Sem folha de ponto para marcar hora extra, funcionários do Congresso entram de greve e ninguém nota.

No quinto dia, o governo resolve decretar estado de sítio. Um fracasso. As Forças Armadas não aderem devido a um acordo com os rebeldes, que garantiram que os arquivos da ditadura permanecerão fechados para sempre. Igrejas, ameaçadas com recentemente desarquivados evangelhos apócrifos, fingem que não estão nem aqui. Jornais radicalizam: alguns apoiam a contratação por times nacionais de jogadores brasileiros velhos e gordos por salários milionários, outros condenam. Alguns ainda divulgam páginas de rodapé sobre a revolta, com medo da ameaça de divulgação das verbas de publicidade.

No sexto dia acaba o movimento e tudo volta aos caos normal. Porque revolta no sábado não dá, né, gente?

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Arquivado em Crônicas do Opinioso, Idéias para Stand Up