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Troféu Tristan Tzara: Pela redenção de um pimpolho

Sabe quando você ouve uma música durante muito tempo e, de repente, do nada, entende a letra de uma forma completamente diferente? Pois aconteceu comigo recentemente. E de uma música engraçadinha, da qual sempre me orgulhei de saber a letra, essa obra de composição se transformou em algo completamente diferente. Um elogio ao sadismo, uma gozação com a deficiência alheia. Pense bem.

“Pimpolho é um cara bem legal

Pena que não pode ver mulher”

Pimpolho, nos ensina o pai-dos-eleitores-do-tiririca, significa “rebento”, “criança pequena”, “criança robusta”. Sabemos, portanto, que o cantor conhece uma criança bem legal. Ele nos diz, no entanto, que essa criança não pode ver mulher. Se fosse um adulto, poderíamos concluir ser um tarado, uma pessoa incapaz de ver uma mulher e – essa parte subentendida e apresentada no complemento da estrofe – se controlar. Mas é uma criança, e não temos motivo para sexualizá-la. Só podemos concluir, portanto, que o pimpolho não pode ver mulher por um motivo muito simples: ele é cego. É claro que sua deficiência visual o impediria de ver tudo, e não apenas mulheres, mas, hei! Eufemismos servem para isso. Sigamos.

“Na dança ele já pede pra abaixar

Já pede pra abaixar

Ela quer parar, ele não quer”

Reforça-se aqui nossa compreensão da deficiência da criança, ou pimpolho. Novamente – se fosse um adulto, o interesse em pedir a uma mulher para abaixar poderia ter conotação sexual. Já no caso de uma criança com deficiência visual, é simples entender o motivo. Para os cegos, o contato tátil é importante, quiçá fundamental para a interação com o mundo. No caso de uma dança, então, nem se fala. E imagina-se que por ser uma criança, ou pimpolho, ele seja baixinho, por isso é necessário que elase  abaixe. Já os motivos para essa postura constrangedora da moça em não atender um pedido tão simples são desconhecidos.

“Ela tá dançando e o pimpolho tá de olho

Cuidado com a cabeça do pimpolho”

Foi essa parte que me deu o clique, e me fez mudar completamente de visão. Que pessoa cruel é essa que nos apresenta as dificuldades de uma pequena criança cega que só quer dançar para em seguida fazer piadinhas? Quem fala que um cego “está de olho” em algo? É equivalente a perguntar a alguém com movimentos limitados se ele anda “correndo atrás” do que ele deseja! Ou a um surdo se ele “ouviu as novidades”! E ainda há espaço para zombar do garotinho que não pode perceber movimentos bruscos em direção a sua cabeça. Não é à toa que o pobre ofendido se revolta na parte seguinte da música.

“Eu sou o pimpolho, sou o rei da mulherada

Beijo todas sem parar

E vê se para de me olhar

Abaixa logo devagar

Porque meu fôlego tá acabando

Não consigo mais falar

Vai caindo, vai caindo

Agora pode levantar!”

O que temos aqui? Uma criança com notória baixa auto-estima, em um esforço de compensação por seus problemas (“sou o rei da mulherada”), que tenta transformar os esbarrões decorrentes de sua condição em algo positivo (“beijo todas sem parar”) e se irrita com a sádica compaixão alheia (“vê se para de me olhar”). Como se não bastasse, ele ainda apresenta sintomas de doenças respiratórias, provavelmente asma (“meu fôlego tá acabando, não consigo mais falar”). É esse pobre garoto que vocês transformaram em alvo de uma música tão cruel assim, Leandro Lehart e Art Popular? É ESSE GAROTO? Vocês me enojam.

Troféu Tristan Tzara é uma categoria desse site que premia as piores letras de música da história. Os motivos são variados  e arbitrários, mas o mais comum é o conteúdo absurdo ou ausência do mesmo. Você pode sugerir músicas que mereçam o prêmio nos comentários.

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Troféu Tristan Tzara de Composição – Um Uh! (ou um Blergh!, talvez)

Muito tempo depois retomo o Troféu Tristan Tzara de Composição. Mas não vou comentar música nenhuma dessa vez, e sim fazer um mea culpa. Porque recentemente eu concedi a José Ramalho o título hors concours da categoria, mas me precipitei. Existe um compositor brasileiro com uma quantidade muito maior de bizarrices compostas. Também é definido como poeta mor, porque em terras tupiniquins qualquer um que sabe o significado de “metáfora” é artista. Se souber usar então… é gênio! O que dá espaço para muitos picaretas, como é sabido. Isto posto, deixo para que vocês próprios tomem suas conclusões a letra profunda de “Um Oh! e um Ah!”, do trapo humano Tom Zé.

“Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh
Oh, Ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh

Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragat… oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh

Oh, Ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh

Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun….. oh!”

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Troféu Tristan Tzara de Composição: Sinos, tiros e Ayrton Senna

Quem acompanha esse espaço sabe que não sou preconceituoso com letras de música. Sério! Se eu as considero ridículas e sem sentido, só o faço depois de uma cuidadosa análise. E se tem análise, não é pré-conceito, é conceito formado mesmo, oras. Mas isso também não significa que eu só goste de músicas profundas e de compositores com apurado tino literário. Pelo contrário. Tem muita música que não tem o menor objetivo de fazer pensar, e nem por isso é menos bacana. Outras não fazem mesmo nenhum sentido, não têm intenção nenhuma de passar uma mensagem e estão ali só para dar ritmo à pegação. Em síntese, axés em geral. Como “Lirirrixa”, do Babado Novo.

“Lirirrixa
Timbaleia
Badala, badala, badala,
Rucutum, tan tan, tan”

Se isso fosse boxe, era nocaute no primeiro round. A música já começa nessa beleza de refrão, sem nem mesmo fazer uma pequena apresentação do que viria. Tudo bem, no show a tal Cláudia Leitte (vocalista da banda no surgimento dessa coisa) mandava um “Acho que vou te convidar, hein?”, que não diz muita coisa. Convidar para que? Uma agradável tortura? Segundo minhas pequisas, “lirirrixa” não significa absolutamente nada, assim como “timbaleia”, apesar de o Google registrar algumas vezes como um apelido carinhoso para o ex-marido da Britney Spears. De resto, quem badala é sino, “rucutum” parece ser uma onomatopéia, mas não estou certo de quê e “Tan tan tan” é a musiquinha do Ayrton Senna. Ou seja… ????

“Vem
Entre nesse passo que é bom
Pra balançar
Pra requebrar
Jogue a mão pra cima
Solta o corpo
O que que dá?
Ei!
Jogue para o lado de bundinha..
Stop it!
Dê uma reboladinha”

Não é axé se, em algum momento, o vocalista não te pedir para pular, rebolar, balançar, beijar na boca e/ou pedir água. Se por um sortilégio do destino eu caio nesse show, eu peço é penico uma hora dessas. Mas vamos analisar juntos a sugestão: o ritmo seria bom para você balançar e requebrar, levantando a mão e soltando o corpo, jogando para o lado de bundinha e dando uma reboladinha. Já tentou fazer isso tudo de uma vez? Nem tente. A menos que você seja contorcionista ou aquele Fly, que dançava com outros quatro malucos no programa da Xuxa e agora me faz sentir vergonha alheia no programa do Luciano Huck. E para que esse “stop it”, meu Deus?

“Reboladinha, reboladinha
Reboladinha, reboladinha, reboladinha”

É, tem isso. É a hora que todo mundo dá várias reboladinhas.Vou falar o que?

“Venha balançar
Essa é a sensação
Agitaê, hei! Agitaê, hei!
Ouça o tun, tun, tun
Que vem do coração
Badala, badala, badala,
Rucutum, tan, tan, tan”

Faço uma mea culpa: mais cedo eu falei dos pedidos dos vocalistas, e esqueci que ele também podem pedir para você bancar o iogurte e “se agitar”. Fora isso, axé tem a vantagem de ser curto e só ficar depois repetindo a mesma letra à exaustão. De modo que essa é a última estrofe, o que já não era sem tempo. Tem um tun tun tun do coração, que ninguém consegue ouvir no show por causa da barulheira, e volta a história do sino, a onomatopéia de nada (mas que parece com os barulhos de tiro do “Rap das Armas) e a musiquinha do Ayrton Senna. A fórmula 1, aliás, combina muito bem com a música: nos dois, o objetivo aparentemente é sair do nada e chegar a lugar nenhum, pelo simples prazer de… agitar!

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Troféu Tristan Tzara de Composição: Das relações entre bardos e fadas

Diz um amigo meu que o Brasil padece de uma grave mal: faltam poetas ao país. Discordo. Acho que poetas eram importantes até, no máximo, no começo desse século, quando a tuberculose ainda era uma forma romântica de morrer. Hoje, a doença só mata gente pobre e/ou burra, portanto não há motivo para lirismo.

O único problema que vejo realmente na nossa pequena quantidade de bardos é o excesso de pseudo-poetas. Eles estão por aí aos montes, rimando por dinheiro em mesas de bares, inventando sarais que não passam de desculpa par orgias homoeróticas. Ou fazendo músicas non-sense, como “Bandolins”, do eterno chato Oswaldo Montenegro.

“Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos bandolins…”

Se tem uma coisa que eu não suporto é mania de inversão. Sabe o hino nacional, quando o começo da frase na verdade está lá pela quarta ou quinta linha? É isso aqui. Esse “como” era para demonstrar uma comparação, mas não tem nada para comparar. Isso sem falar no uso esdrúxulo de um bandolim, instrumento muito bonito e medieval que poderia tranquilamente ficar naquela época. Só falsos poetas ainda admiram bandolins, principalmente para tocar valsas.

“E como não?
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim…”

Até parece que ele me ouviu questionar a comparação bizarra e mandou o “e como não?”. Só que continua a inversão, e até agora nada do começo da frase. Fora a história de ir dividindo a frase entre as estrofes da música. É estratégia: o objetivo é te obrigar a aguentar toda essa bobagem até o final se quiser fazer algum sentido.

“Seu colo como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim
Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins…”

Momento “vamos fazer uma imagem mental”. Tá lá a moça, apertando o colo (seios, ou peitos, em linguagem “poética”) por aí e rodopiando ao som de bandolins. Para variar, tem aquele ranço de rebeldia que sempre toma melodias da tal “MPB”: se ela roda de forma sensual é porque está enfrentando o mundo, dançando de maneira imprópria. Mas é agora que chegam as informações que mostram o real motivo para sua atuação.

“Como fosse um lar
Seu corpo a valsa triste
Iluminava e a noite
Caminhava assim
E como um par
O vento e a madrugada
Iluminavam a fada
Do meu botequim…”

Só as duas últimas frases dessa estrofe fazem sentido, e explicam praticamente o texto inteiro. O que é, o que é? Aperta o colo, dança de maneira imprópria e pode ser chamada de fada de botequim. Ganha uma pole dance quem respondeu que é messalina, cortesã, biscate, garota de programa. Em síntese, prostituta. Também conhecida nos últimos dias como “mãe de deputado’.

“Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim
Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos bandolins…”

Eu poderia forçar a barra e ver no “valsando como valsa uma criança” uma certa apologia à prostituição infantil, mas não é necessário. A mim basta perceber a sutil ironia de “se julgando amada” ao falar do ofício mais velho do mundo, e perceber que o velho Oswaldo não passa de um pseudo-poeta de buteco que continua escrevendo em troca de dinheiro. Ou “serviços”.

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Troféu Tristan Tzara de Composição: O horror, o horror

Quem me conhece sabe da minha birra com os anos 60 no Brasil. Sim, tivemos o problema da ditadura (e não vou entrar em mais detalhes porque esse assunto sempre dá problema), mas não é a minha maior fonte de irritação. O maior problema daquela década, na verdade, foi o impacto no desenvolvimento da cultura do país.

Se nos Estados Unidos, o movimento hippie surgia em justíssima oposição às guerras em que os ianques haviam se metido, por aqui nossos ripongas preferiam se reunir em desorganizados e barulhentos festivais. Ali surgiram aberrações musicais, pseudo-heróis da cultura popular brasileira e uma tal de Tropicália, que se dizia inovadora mas não fazia nada mais do que trazer de volta as idéias do modernismo brasileiro.

Um desses “monstros sagrados” surgido do maldito teatro Record foi o homem dos caracóis, o baiano mais baiano da história, Caetano Veloso. Envolvido com outros indivíduos de estirpe semelhante, como Gilberto Gil e sua irmã Maria Bethania, ele foi o responsável por um dos hinos daquela época que, se ouvirmos hoje, soa no mínimo esquisito. Nem queira saber no máximo. Com vocês, “Alegria, alegria”.

“Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou…”

Vá lá, auge do movimento hippie. Até imagino aqueles caracóis enrolados em alguma faixinha multicolorida, esvoaçantes enquanto ele caminha por alguma praia baiana sob o sol de verão. Se tomarmos o lenço como uma metáfora para vestes, veremos que a sensação total de liberdade só surgiu para o jovem Caetano quando ele resolveu caminhar nu por aí, balançando ao vento.  Vai, filho, vai. Pra bem longe.

“O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou…”

Se tem uma coisa onipresente em músicas de festival é a mania de enfiar assuntos relacionados à ditadura – e sim, eu não aguento mais ouvir falar da genialidade de Chico Buarque por causa da metáfora de “Cálice”. Daí a enumeração de crimes, espaçonaves (???) e guerrilhas. Imaginemos, portanto, o jovem e nu Caetano vagando por Ilhéus enquanto o sol se transformava em um quadro de Dalí no céu. E mesmo assim ele vai.

“Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot…”

E o sol continua se dividindo. Caras de presidentes, naquela época, sempre tinham bigode, charuto e um quepe, daí o protesto. Dentes e pernas é divagação fetichista. Bandeiras, bombas e Brigitte Bardot foi só para fazer gracinha pela aliteração (que grande poeta!). Sem desprezo ao jovem e nu andarilho de caracóis nos cabelos, se aparece a Brigitte Bardot na praia, naquela época, eu parava de ir. Mas ele vai:

“O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou…”

É aqui que surge a explicação para eu ter falado que o nudista vagava por uma praia baiana: lá o sol sempre enche as pessoas de alegria e preguiça. Sem preconceito algum. Se eu morasse na Bahia, nem beberia água para não ter de levantar e ir ao banheiro. O que não combina com alguém que se dispõe a andar por aí. Nu. No sol de quase dezembro.

“Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não…”

Essa coisa de cores e amores é muito, muito hippie. Assim como a noção de que liberdade é andar nu por aí, ao vento. Mas nada é mais tonto do que a idéia de ir simplesmente porque não há um motivo contrário. Isso me lembra uma velha definição sobre a diferença entre inteligência e sabedoria: uma pessoa inteligente sabe como fazer algo, mas é sabedoria é que diz o porquê de fazer. Não é só porque eu posso chutar cachorros por aí que vou fazer isso. Por que andar nu seria diferente?

“Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou…”

Gente burra e/ou pobre não casa? Preconceito puro e simples.

“Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou…”

Aí ofendeu. Eu tomo uma coca-cola, mas nem por isso deixo de pensar em casamento. E fica parecendo que quem quer casar só bebe guaraná. Ou Fanta, sei lá. Se for fanta (e uva), faz sentido buscar consolo em uma canção qualquer.

“Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil…”

Se você está nu, não faz sentido carregar um livro. E um fuzil, só e você estiver no “Predador” ou em algum filme de Chuck Norris. Só não aceito essa história de sem fome – para sair correndo por aí, nu, sob o sol escaldante, algo ele fumou. E aí vem larica. Sem telefone tudo bem, não havia celular naquela época. E mesmo se tivesse, ele ia colocar aonde?

“Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou…”

Que sol, rapaz? Ele se dividiu em um monte de porcarias e na Brigitte Bardot. Já a parte da moça casamenteira não saber que ele já quis cantar na televisão faz sentido. Não existiam muitos homens (na concepção biológica da coisa) que quisessem estar na televisão naquela época. Ou que achassem qualquer tipo de sol bonito.

“Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou…”

Como sabemos, ele não leva lenço ou documento porque está nu. E estando nu, não há nada nos bolsos porque não há bolso (a despeito do que diria o Ultraje a Rigor). E não dá para ser completamente livre carregando algo nas mãos. Pelo menos na concepção do nudista baiano.

“Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…”

Bem, eu diria que não porque… não. Porque não há motivo. Porque não há vantagem. Porque é inútil. Porque o mundo não é uma praia da Bahia, as pessoas precisam enfrentar a ditadura. E de uma forma séria, não sentados imaginando um mundo melhor ao som de uma baladinha qualquer. Lugar de sonho é na padaria.

Uma última coisa: ter a imagem de Caetano Veloso correndo nu em uma praia baiana, com as semi-longas madeixas esvoaçantes sem nada nas mãos pensando na Brigitte Bardot está bem longe de “alegria, alegria”. Está mais para Apocalypse Now: o horror, o horror.

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Troféu Tristan Tzara de Composição: O Zé, o pó e o Jafar

Tem gente que eu preferia nem trazer a esse espaço. Por vários motivos. Alguns, eu prefiro presumir que são iluminados demais, muito além da inteligência terrena em que fui criado. É o caso, por exemplo, da Elba Ramalho, que já afirmou ter tido contato com criaturas extra-terrenas. Lamentavelmente não eram daqueles ETs que gostam de abduzir humanos e levá-los para seus planetas. Sabe como é, não se fazem mais alienígenas como antigamente.

Em outros casos eu preferia não trazer alguns compositores devido às suas extremas habilidades dadaístas de composição. Pense o prezado leitor no Oscar: seriam aqueles astros que estão sempre sendo lembrados pelo talento, mas nunca foram completados. Acabam recebendo (normalmente após a morte) um prêmio honorário, em homenagem ao conjunto da obra.

É o nosso caso de hoje. Ele ainda não morreu, mas pela sua extensa composição non-sense merece um espaço para sempre em nossos corações adoradores da falta de lógica. Com vocês, José Ramalho Neto, o Zé Ramalho,  e sua ultra-famosa “Chão de Giz”.

“Eu desço dessa solidão
Espalho coisas sobre
Um chão de giz
Há meros devaneios tolos
A me torturar
Fotografias recortadas
Em jornais de folhas
Amiúde!
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes…”

A música começa com a constante solidão. É o tipo de coisa que me motiva a tentar manter meus amigos sempre por perto. Solidão enlouquece. Solidão mata. Solidão faz a gente compor insanidades. E ganhar dinheiro com isso. Deve ser por isso que ele desceu da solidão e espalhou coisas sobre um chão de giz. O que ele não conta é que  o tal giz não é exatamente giz. Está mais para “giz”. Ou “talco”. Ou qualquer nome que disfarçe bem o pó branco mais famoso até o surgimento do antraz. Sim, estamos falando da madrasta cocaína, que dominou os loucos anos 80. Quando se é solitário, é ela que te faz descer. E subir. E descer. Até o chão.

A bem da verdade, não é seguro deixar alguém louco de pó carregar um tesoura. Principalmente se ele estiver paranóico, vendo torturadores até em fotografias de jornais. Também não é legal deixar com um pano de guardar confetes, o que quer que seja isso.

“Disparo balas de canhão
É inútil, pois existe
Um grão-vizir
Há tantas violetas velhas
Sem um colibri
Queria usar quem sabe
Uma camisa de força
Ou de vênus
Mas não vou gozar de nós
Apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom…”

Não sei como funciona um grão-vizir, mas me espanta que eles sejam suficientes para desprezar balas de canhão. Talvez se forem como o Jafar, o vizir mal do Aladin. Aí tudo bem, porque tem magia e tudo mais. Mas de resto, essa estrofe inteira não chega nem perto de fazer sentido. Nem perto! É como se não tivesse existido em momento alguma a intenção de interligar as frases. Eu não sabia que colibris queriam violetas velhas (fetiche bizarro número um), não estou preocupado no interesse dele de usar uma camisa de vênus (apesar de compreender o interesse do dito cujo por uma camisa de força) e muito menos na adoração a cigarros (fetiche bizarro número dois). Fora o momento avareza: ninguém condena alguém que se nega a gastar batom com outra pessoa, mas nunca para no primeiro cigarro.

“Agora pego um caminhão
Na lona vou a nocaute outra vez
Pra sempre fui acorrentado
No seu calcanhar
Meus vinte anos de “boy”
That’s over, baby!
Freud explica…”

Não, não explica. Nada explica. Nem Freud, que provavelmente entenderia a perversão com cigarros. De qualquer forma, pensemos brevemente na cronologia dessa estrofe. Nosso herói, doidão de pó, resolve pegar aquela carona bacana. Sabemos que ele está paranóico, o que provavelmente explica a briga na boléia e o nocaute na lona da caçamba. Ele é acorrentado, e aí “that’s over, baby” para os anos de “boy”. No inglês cru, boy é garoto, menino, homem em última escala. Ele foi acorrentado por um caminhoneiro chucro, e depois acabaram seus anos de homem. É, talvez Freud, o psiquiatra super-sexuado, explique o praticamente óbvio.

“Não vou me sujar
Fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom
Quanto ao pano dos confetes
Já passou meu carnaval
E isso explica porque o sexo
É assunto popular…”

É a volta do muquirana. Que não quer envolver nem o pano dos confetes agora. Também é o momento de uma das frases mais sem sentido da música (o que não é pouca coisa). Porque normalmente quando usamos a expressão “e isso explica”, presume-se que todo o conteúdo anterior formará uma razão lógica para o que se segue. Não é o que acontece. Um conjunto de afirmações ilógicas de um velho hippie não explicam porque o sexo é um assunto popular.

Sexo está na boca (e nas mãos) do povo porque é bom, porque o brasileiro é pervertido, porque Freud explica, algo nesse sentido. Nada parecido com tudo o que diz alguém que podia ter seguido a parente de mesmo sobrenome rumo às estrelas.

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Troféu Tristan Tzara de Composição: Da arte de distorcer

Eles são barbudos. Eles são esquisitos. Eles acham que são poetas. Eles mal conseguiram manter uma bandinha mixuruca de pé. Ainda assim, o ex-grupo do “pedófilo” levou milhares de fãs “excêntricos” ao delírio com proezas musicais equivalentes a um tiro no ouvido. Sim, meus caros leitores, eu estou falando (e mal) de Los Hermanos. Ou melhor, como bem definiu uma galera do orkut, “Loser Manos”.

A banda até começou bem, emplacando “Anna Julia”, aquele hit meloso que incendiou corações. Eles, que se clama independentes, sucumbiram à regra mais básica do mainstream brasileiro: música com nome de mulher faz sucesso. Já tivemos “Camila, Camila” (Nenhum de Nós), a desinência “Mila” (Netinho), “Carla” (LS Jack), “Janaína” (Biquní Cavadão), “Renata” (Latino), “Sandra Rosa Madalena” (Sidney Magal) e, eu acho, “Inaraí”, do Katinguelê, mas essa última não tenho certeza se era nome de mulher. Já o Los Hermanos, sozinho, emplacou duas além do único sucesso decente da banda: “Aline” e “Lisbela”. Um belo protesto contra o mainstream opressor.

É por esse tipo de comportamento que, de certa forma, até entendo a lógica por trás de “O Vencedor”, música tema de nossa seção dessa vez. Comecemos.

“Olha lá quem vem do lado oposto
E vem sem gosto de viver
Olha lá que os bravos são escravos
Sãos e salvos de sofrer”

Faz sentido? Talvez dividindo. A única coisa que me lembra “o lado oposto” é aquela piada do porquê a galinha atravessar a rua. Se eu fosse uma galinha, também viria do lado oposto sem gosto de viver. Ainda mais depois de ouvir tantas vezes a piadinha. Já a segunda parte não significa absolutamente nada, nem dividindo, nem com boa vontade. Se os bravos são escravos, eles estão exatamente na situação oposta a sãos e salvos de sofrer.

“Olha lá quem acha que perder
É ser menor na vida
Olha lá quem sempre quer vitória
E perde a glória de chorar”

Que glória há em chorar? Não vou nem defender aquela coisa de pai antigo, que briga com o filho chorão. Só não vejo sentido em gostar da derrota e valorizar. “Não ganhamos o campeonato, ficamos só com a medalha de prata, mas está ótimo, é isso mesmo que a gente queria. Ganhar não estava nos planos. Você tem um lenço de papel aí?” Esse tipo de gente me chamaria de competitivo. Eu prefiro que classifiquem meu gosto pela vitória de bom senso.

“Eu que já não quero mais ser um vencedor,
Levo a vida devagar pra não faltar amor”

Como é mesmo o nome de disso? Conveniência? Essa música podia se chamar “A Raposa e as Uvas”. Coisa de criança mesmo, quando depois da derrota, ainda com o bico armado, declaramos “Eu não queria ganhar mesmo”. Nada como uma derrota para deixar todo mundo menos ambicioso. E isso não tem nada a ver com o amor. Não na nossa sociedade contemporânea, de celebridades instantâneas, que conseguem amor facilmente após o sucesso de suas músicas com nomes de mulher.

“Olha você e diz que não
Vive a esconder o coração.”

Não, eu não vivo a esconder o coração. Podemos seguir adiante?

“Não faz isso, amigo
Já se sabe que você
Só procura abrigo
Mas não deixa ninguém ver
Por que será?”

Por que alguém procura abrigo? Por que está em perigo, normalmente. Se estou em perigo, faz sentido eu querer me esconder, certo? E o “Não faz isso” leva a crer que em algum momento antes eles falaram de algo. Que eles não falaram. Se alguém pega a música nessa parte, não vai entender lhufas. Não que ter lido desde o começo torne as coisas muito diferentes.

“Eu que já não sou assim
Muito de ganhar
Junto às mãos ao meu redor
Faço o melhor que sou capaz
Só pra viver em paz”

Lá vem o conveniente de novo. “Sabe como é, eu não sou muito de ganhar. Não é tão legal quanto parece. Snif”. E esse negócio de juntar as mãos ao redor, fazer o melhor que se é capaz para viver em paz… Não sei não, mas soa a simpatia indígena barata. Um círculo de proteção mágica contra homens brancos ou algo do gênero. Ou bobagem hippie, como seria de se esperar dos barbudos mais perdedores e adoradores da derrota na história recente da música brasileira.

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