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São Paulo, dia 2

Segundo dia na capital paulista e nada de garoa. Salvo uma ameaça leve de chuva no dia anterior, São Paulo estava com cara de Rio. Quer dizer, exceto talvez pela falta de praia, pessoas de roupa de banho na rua e turistas gringos com cara de medo para qualquer brasileiro que se aproxima. O que me permitiu seguir com a estratégia de andar para todos os lados. Antes, um café da manhã meio caro, mas saborosíssimo na padaria da esquina. Cosmopolitismo é isso: comi em São Paulo o que provavelmente foi o melhor pão de queijo (invenção mineira) da minha vida, servido por um garçom alagoano.

Primeira tarefa foi comprar o tal bilhete único, uma invenção maravilhosa. Para quem não conhece, o dito cujo permite fazer algum grau de integração de ônibus e metrôs pela cidade, barateando e até tornando gratuitas algumas das viagens, ao que parece. Era uma forma de economizar, e isso nunca deve ser desprezado nas férias. Bilhete comprado, segui para o Anhangabaú.

Novamente, um dia todo a pé. Passei pelo Theatro Municipal (muito bonito, mas não quis parar em frente devido à quantidade de pessoas mal-encaradas me mal-encarando) e segui para a Galeria do Rock. Que mais parece a galeria do rap: o primeiro andar é composto basicamente de lojas de skate, bermudões, bonés e tatuagens. Só no segundo andar é que fui encontrar as lojas de itens relacionados ao rock, e lamentei não ter dinheiro. Comprei apenas um chapéu que queria comprar há muito tempo e estava pela metade do preço que havia encontrado em Brasília. Guarde esta informação.

O próximo destino era o Mosteiro São Bento, e toquei para lá. Primeira frustração do passeio: passei pelo Viaduto do Chá e ninguém se ofereceu para vendê-lo a mim. Compraria de bom grado, a especulação imobiliária em São Paulo é famosa. Sem ofertas, parei um pouco para observar o vale e toquei para o mosteiro. Que, bem, é uma igreja. Não tem muito segredo nem muita agitação. O prédio é bonito, é verdade, e a atmosfera soturna impressiona. Mas, fora isso, só chamam atenção os detalhes em ouro, como o que segurava uma placa pedindo a ajuda dos fiéis a uma campanha de solidariedade a desabrigados.

De lá, segui para a Bovespa, onde não cheguei a entrar. Gostei mais de uma porta – não sei se da bolsa ou do prédio vizinho – que representa muito bem o mercado financeiro: pesado, agigantado e com dinheiro grande circulando. Dali, segui pela 25 de março (aquilo deve ser um inferno aos finais de semana) até o Mercado Municipal, que aniversariava no dia seguinte, junto com a capital paulista. E, bem, um mercado é um mercado é um mercado. O local é basicamente uma mistura de barracas de feira com lanchonetes. E, se o lugar não é para ser visto, a gente faz o que se espera lá: come. Assim, procurei uma lanchonete com cara razoável e pedi o famoso sanduíche de mortadela do local. O preço assusta, mas é totalmente justificável – a parada é grande, o processo é lento e o bagulho é sério. Tanto que tive de deixá-lo antes de terminá-lo, sob o risco de não conseguir andar de volta até minha casa.

Sob um sol desagradável, segui para a região da Estação da Luz. Logo no caminho já é possível ver a diferença da região em relação ao resto do centro da capital. Os prédios são tão antigos quanto, mas a maioria está completamente vandalizada. Alguns inclusive dariam um belo cenário para um filme de apocalipse zumbi. A estação, por outro lado, é muito bonita e está inteirinha. Aproveitei para visitar tanto a Pinacoteca quanto o Museu da Língua Portuguesa, que valeram tranquilamente os R$ 3 que paguei de entrada em cada um. Não sei até quando fica disponível, mas recomendo a exposição sobre Oswald de Andrade do museu, excelente para quem gosta do trabalho do modernista. Já na Pinacoteca, mais legal do que o acervo artístico me pareceu a arquitetura do local – e este sou eu demonstrando minha ignorância artística padrão.

Visita diurna concluída, segui para outro dos famosos pontos altos da vida paulistana: a noite da cidade. Acompanhei um amigo a um evento em um pub próximo ao Anhangabaú, um local discreto chamado Alberta. São 3 andares, ficando a pista no subsolo, e que corresponderam à expectativa. Como imaginado, a DJ tocava indie rock – eu chamo de indie quando só conheço uma música para cada cinco que tocam e olhe lá). Entre os atrativos do local, cervejas caras, mas interessantes, e mulheres interessantes, mas com trajes caros. Legal, mas não muito animador.

Deixei o local por volta das 3 da manhã nada bêbado – se embriagar em São Paulo parece ser meio caro. Por sorte, do outro lado da rua estava a lanchonete Estadão, que funciona 24 horas e serve um famoso sanduíche de pernil, muito gostoso por sinal. E assim terminou meu segundo dia na capital paulistana.

Não perca: no terceiro dia, Marcelo vai ao estádio!

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São Paulo, dia 1

Não sou do tipo que tem um troço no coração quando cruzo a Ipiranga com a avenida São João. Bem, na verdade não sei, talvez eu seja, ainda não passei pela esquina. Mas nunca entendi a paixão de muitos paulistanos pela cidade – assim como não entendia a dos cariocas pelo Rio de Janeiro. E se fui visitar a Cidade Maravilhosa para tentar compreender um fenômeno, nada mais justo que viesse a São Paulo realizar experiência semelhante com o outro. Assim, eis-me perdido na terra da garoa.

E nada poderia ser um cartão postal maior da cidade do que pousar em Congonhas. Aquele aeroporto é uma ode à luta da humanidade contra todos os limites imagináveis – inclusive o instinto de sobrevivência. Congonhas é do tipo que reacende crenças de todo tipo nas pessoas. Os religiosos se apegam à sua fé nos céus, os humanistas se apegam à ciência, mas ninguém aterrisa no centro de São Paulo 100% confiante de que estará vivo nos minutos seguintes. É assustador.

Infelizmente, minha fé nos humanos – que me fez voar razoavelmente bem até aqui – não durou 10 minutos após o pouso bem sucedido. Logo na saída do aeroporto, um “amigão” me leva até um táxi e pergunta para onde vou. Analisa o endereço e diz que podemos ir de taxímetro ou posso pagar o fixo, de 40 reais. Estranho – não parece tão longe. Ele alerta para um possível trânsito, que pode fazer minha viagem superar os 40 reais. Me arrisco, por sorte: a viagem não passa dos 25. Não é à toa que dizem na minha terra que “dinheiro de trouxa é matula de malandro” – dessa vez, um passou fome.

O jeito é evitar o táxi, o que não chega a ser um problema. Não estou exatamente no centro da cidade, mas o que não falta nesta cidade é ônibus e metrô. A viagem é longa mas, que diabos, tempo é coisa relativa nas férias. Por isso, aceito a sugestão de um amigo paulistano e abro a viagem com um passeio pela Avenida Paulista.

Que não me embasbaca. É uma visão deveras impressionante, é verdade, e justifica o passeio, mas não senti nenhum tremor, não ecoou na cabeça nenhum “Meu Deus, mas que cidade linda, no Ano Novo eu começo a trabalhar” (parêntese: também não senti isso por Brasília, pelo contrário. Estou fugindo de trabalho no Ano Novo. Fecha parêntese), nada parecido. Tanto que pouco depois me sentei em um café de esquina, onde aproveitei para almoçar (já eram quase 6 da tarde a essa altura) e observar o movimento.

O que confirmou tudo que já haviam me dito. A maioria das pessoas passa apressada para lá e para cá, quase sempre com fones de ouvido, imersas em seus pensamentos. O número de estrangeiros também impressiona quem não está acostumado a vê-los por aí: em meia hora de caminhada, ouvi pelo menos três ou quatro idiomas diferentes. E sim, é enorme a quantidade de “alternativos” andando para todos os lados, com todo tipo de penteado, visual e roupas que você imaginar.

Protesto por Pinheirinho na Paulista

Ignorem a baixa qualidade, tirei com o telefone. Aliás, eu e mais umas 40 pessoas. Tinha mais gente tirando foto do que gente protestando, na verdade.

Mas a Paulista não seria a Paulista sem um protesto, certo? Pois teve. Motivado pela operação da polícia em Pinheirinho, uma invasão em São José dos Campos. Procure na web por detalhes. Não era muita gente, mas foi legal para entender visualmente o impacto de qualquer manifestação no trânsito já caótico da cidade.

Aproveitei para visitar o vão do Masp, onde os manifestantes haviam se reunido pouco antes. Não sei não, mas acho que já se criou uma aura de protesto naquele lugar. Fiquei com vontade de reclamar de alguma coisa, mas lembrei que estava de férias e continuei andando.

Por essa hora, me empolguei com a caminhada. E resolvi que iria a pé encontrar um amigo que mora próximo à estação do Anhangabaú. Foi uma senhora caminhada, é verdade, mas pude ver um pouco do que é a famosa Rua Augusta. Ainda não estava cheia, é verdade, mas deu para ver a quantidade de inferninhos, bares e cantos para entretenimento espalhadas pela rua. Aproveitei o embalo e passei pela igreja da Consolação, na Praça Roosevelt. Aparentemente já foi muito bonita, mas algum gênio resolveu usar argamassa sobre os afrescos antigos. Davi, por exemplo, virou um corpo com cabeça de chapisco. Lamentável.

Por fim, conheci uma das partes que queria conhecer de São Paulo – e, admito, um dos principais motivos para minha visita: a gastronomia. Comecei de leve, é verdade, comendo um parmegiana em uma das tais padocas (uma mistura de padaria, bar e balada que virou moda por aqui, aparentemente), o que se revelou uma agradável surpresa. E me deixou mais animado para o resto da viagem.

PS: por sinal, se tudo der certo e eu estiver com sorte, o texto sobre o segundo dia só vem no terceiro, e olhe lá. Espero não ter tempo para isso amanhã.

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Os benefícios do mal-humor

A maioria dos meus amigos, quando vê as músicas que ouço, me considera a definição do ecletismo. Concordo, provo e juro que não forço: segue abaixo uma lista de 10 músicas retiradas do shuffle na minha lista do Winamp, só de exemplo.

  • The Clash – I Fought the Law
  • Counting Crows – Mr. Jones
  • BanYa – Beethoven Virus
  • Art Popular – Pimpolho
  • Zé Ramalho – Entre a Serpente e a Estrela
  • Black Sabbath – Paranoid
  • AC/DC – T.N.T
  • Rap Brasil – Rap do Centenário
  • Aviões do Forró – Somos Loucos
  • Rammstein – Du Hast

Sim, eu provavelmente ouço coisas que você considera de péssimo gosto e de péssima qualidade. SPOILER: todo mundo é assim, em alguma área da vida. Você talvez só goste de música boa, mas lê Paulo Coelho e auto-ajuda ou acha que a saga Jogos Mortais é cinema. Olhe no espelho antes de me julgar.

O problema de ser assim é que eu acabo conhecendo muito pouco das bandas que ouço, em geral. Não tenho nenhum problema em ouvir cinco, três ou mesmo uma única música de uma banda e ignorar todo o resto da sua discografia. É o que faço, por exemplo, com Plebe Rude, Kansas, Harry Belafonte e Ini Kamoze. Só que isso me coloca numa situação delicada quando alguém me pergunta “Do que você gosta em música?”. Como dizer que gosto de alguma banda da qual só ouça uma música? Por isso, minhas respostas giram normalmente em torno dos poucos nomes que têm mais de 10 músicas em minha lista: Nat King Cole, Rammstein, Johhny Cash, Gogol Bordello, AC/DC, Queen, The Beatles, Ultraje a Rigor e, principalmente, Matanza.

Matanza

Formação atual do Matanza. O cara simpático da esquerda é o Jimmy, vocalista.

O que nos leva ao assunto original deste post. Conheci Matanza em 2003, quando a banda carioca tinha acabado de lançar o álbum Música para Beber e Brigar (2003), recheado com clássicos como “Pé na Porta, Soco na Cara”, “Matarei”, “Bom é Quando Faz Mal” e minha preferida, “Maldito Hippie Sujo”. Nessa época, os caras já tinham uns 7 anos de carreira, eram conhecidos no mundo do rock alternativo e batalhavam com Santa Madre Cassino (2001), aberto logo de cara com “Ela Roubou Meu Caminhão”, hino country-hardcore da dor de cotovelo pelo que realmente importa.

Para quem não conhece, explico o que era o Matanza daquela época: pense em uma banda de metal – guitarras pesadas, bateria acelerada. Difícil achar uma música da banda com mais de 3 minutos. Acrescente a isso elementos típicos do country, como bandolim e letras com temática de faroeste. Isso era o primeiro disco. No segundo, menos faroeste americano e mais a nossa versão de faroeste, com a vida de caminhoneiro, brigas de bar, vagabundas de estrada e mal-humor. Daí em diante o segundo elemento foi se fortalecendo, e o primeiro ficando pra trás, com uma paradinha em To Hell with Johnny Cash (2005), homenagem especial ao Men In Black mais motherfucker da música do interior americano.

Odiosa Natureza Humana

Poster do lançamento do CD, feito em março. A capa normalmente tem uma gostosa "faroestiana" desenhada.

O resultado foi A Arte do Insulto (2006), álbum que ajudou a catapultar definitivamente a carreira de Jimmy (vocal), Maurício Nogueira (guitarra), China (Baixo), Jonas (bateria). Donida, criador da banda e ex-guitarrista, está hoje só na composição. Para ter uma ideia do que é A Arte do Insulto: “Clube dos Canalhas”, “Eu Não Gosto de Ninguém”, “Meio Psicopata”, “Ressaca Sem Fim” e “Whisky para um Condenado”. Dois anos depois, a banda seria convidada a fazer o MTV Apresenta Matanza.

Toda essa firula para falar do último CD dos caras, que caiu na minha mão por esses dias. Odiosa Natureza Humana é a consolidação do caminho cada vez mais hardcore e menos countrycore como no começo. De resquício do antigo Matanza, só uma leve referência temática ao faroeste em “Carvão, Enxofre e Salitre” e “Amigo Nenhum”. De resto, sobra sociopatia em “Remédios Demais” e “Conforme Disseram as Vozes”, misantropia na faixa que nomeia o álbum e “Escárnio” e mal-humor em “A Menor Paciência”, “Tudo Errado” e “Saco Cheio e Mal-Humor”. Um prato cheio para uma catarse auditiva de 37 minutos. Recomendo fortemente.

Nota: 9 (sinto falta do country original, mas a banda continua sensacional)

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: A revolta das duas horas

Enfrentei a fila, os playboys com suas namoradas e os preços abusivos dos cinemas de Brasília para ver Tropa de Elite 2. Acho que a única coisa que faltou foi o Capitão Nascimento em pessoa na porta, falando “Não vai entrar ninguém!”, e não duvidaria se acontecesse.

Para quem ainda não viu, nem leu a sinopse nas críticas jornalescas, sintetizo: alguns anos depois do primeiro filme, Capitão Nascimento, que não conseguiu um substituto para a função, virou comandante do Bope. Numa “mancada” de Matias, agora capitão, Nascimento cai para cima, e vai parar na Secretaria de Segurança Pública. E só aí é que ele vai conhecer os verdadeiros inimigos (daí o subtítulo do filme, O Inimigo agora é outro).

Tropa 2 é catártico, assim como o primeiro. As reações extremadas da plateia no cinema não deixam dúvida de que o brasileiro médio vê na violência ficcional o escape para a opressão diária. Quando um bandido rebelde é assassinado na cadeia, o público delira. Quando o enfurecido Nascimento espancou um corrupto , o playboy na poltrona de trás chutou minha poltrona, em excitação. Manteve-se a fórmala do primeiro, está tudo ali: a violência explícita, a profusão de palavrões, as pérolas instantâneas , o raciocínio alborghetiano de que bandido bom é bandido morto.

Mas o filme vai além do primeiro, com um roteiro mais profundo. Beira o didatismo às vezes, é verdade, e abusa de alguns clichês, mas se esforça e consegue sair do resultado superficial – a violência e o confronto Estado x marginais – para mostrar o conjunto de elementos da causa – a corrupção e a busca do poder pelo poder. Nascimento percebe, com um quê de ingenuidade ficcional, que existem adversários piores do que os traficantes que controlam o morro. São inimigos mais poderosos porque invisíveis, incorpóreos, fragmentados. Intocáveis.

Mais do que o prazer pelo relaxamento catártico, Tropa 2 gera raiva. Para quem acompanha o noticiário político, que se informa sobre a realidade, que sabe como o sistema funciona, o filme deixa no espectador o gosto amargo da incompetência. De perceber o erro, de ver tudo límpido à frente, mas de sentir incapaz de fazer a diferença. O ficcional Nascimento dá um tapa na cara verdadeiro de cada um que assiste o filme e se lembra, em geral com um quê de arrependimento, do voto dado há poucos dias.

O diretor José Padilha entende essa função, e a trabalha com maestria. Mas ele vê algo que não vejo. Ele espera que o filme gere um debate cívico, que mude algo. Duvido. Durante quase duas horas, o público é ensinado sobre o que está errado, tem sua cara esfregada no sangue inocente que jorra por esses erros, é provocado a corrigir e a brigar. Mas quando acaba o filme, a fúria coletiva acaba, os indivíduos voltam para casa e só o que sobra são as memoráveis frases de efeito.

A ficção funciona bem em nos lembrar que vivemos em um mundo cão. A realidade nos mostra que a regra, na prática, é que cada um que lamba sua caceta.

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