Arquivo da categoria: Idéias para Stand Up

A Revolta do Post-It

Demorou, mas veio. Mais um texto que começou com intenção de ser feito para stand-up, mas ficou pela metade. Achei que tinha mais cara do blog, sabe? Estrutura muito semelhante à de um texto que publiquei, salvo engano, ano passado, sobre um hipotético sequestro do Lula. Chama “Terrorismo”, e acho que vale a pena procurar no blog. Talvez (eu disse talvez) eu o atualize em outro momento. Por ora, fiquem com “A Revolta do Post-It”.

A Revolta do Post-It

Eu li uma notícia absolutamente irrelevante, mas me fez pensar em algumas coisas que eu queria dividir com vocês. O Palocci… Vocês lembram do Palocci, né? Aquele que sacaneou o caseiro. Então, ele agora é ministro da Casa Civil. E aí ele assumiu o cargo agora e resolveu transferir da Casa Civil para o Ministério da Justiça o comando do Arquivo Público Nacional. Foda-se, né? Tenho nada com isso, uso o Google, pode passar pra quem quiser. Só que rolou uma treta, os arquivistas do país todo não gostaram. Teve um que deu entrevista, disse que o maior risco é que o arquivo volte a ser um mero depósito de documentos. Duplo foda-se, sempre achei que um arquivo fosse exatamente isso. Mas eu sou leigo, os caras que mexem com isso estão putos, estão fazendo um abaixo-assinado, na época da notícia tinham 1500 assinaturas, o que eu imagino seja a população de arquivistas do Brasil.

Eu vou confessar minha preocupação, e eu estou aqui para dividí-la com vocês. Porque eu acho que o governo vai fazer igual a gente, ou seja, vai mandar um combo de foda-se para esse assunto. E isso pode ser terrível. Vamos lembrar o que é um arquivista: é um cara que estuda uns quatro anos na faculdade para aprender basicamente a guardar coisas. O trabalho dele é saber onde está tudo guardado. Agora vamos ao pior cenário possível: o governo não atende aos pedidos dos arquivistas. Eles viram motivo de piada nacional. Começa a revolta, que entra para os livros de história como “Revolta do Post-It”.

No primeiro dia, todos os processos contra políticos no Supremo Tribunal Federal são desarquivados e vazados num site. Estilo Wikileaks, mas uma página seca, sem firulas e sem foto daquele loiro com cara de “me come”. É tanta coisa que entope completamente os ventiladores do país inteiro. O Congresso entra em desespero. Eles tentam conter o estrago, mas já está tudo virando Trending Topics no Twitter, disputando de perto com nomes de BBBs e “NósAmamosJustinBeiber”. Surgem fotos da vice-primeira-dama praticamente pelada (fucking yeah!). Em protesto contra a atuação do Executivo no caso, oposição e base “aliada” aprovam o Bolsa-Tio, um acréscimo à verba indenizatória direcionado à sustentação das “sobrinhas” dos parlamentares. A bolsa (de valores) cai.

No segundo dia, desarquivam as notas fiscais de todos os parlamentares. Aparece de tudo: hotel, motel, bordel (vulgo puteiro). Mais: aparecem as atas das reuniões no Congresso. Caos! As suspeitas são confirmadas: Maluf tem sim conta na Suíça, o Suplicy está mesmo gagá, o Lula cortou o próprio dedinho para se aposentar, Sarney pinta o bigode, metade do Congresso curte algum tipo de droga (alguns até ouvem axé em casa). Por algum motivo, nenhum documento assinado por Tiririca aparece no meio. A bolsa sobe.

No terceiro dia, a Polícia Federal começa a investigar os vazamentos, mas é desacreditada quando os jornais recebem um arquivo que mostra que os nomes das operações da PF eram todos criados por um programa de computador. Começa a adesão de anarquistas cibernéticos aos arquivistas (“só de zua”), reunidos em um evento maligno e misógino nomeado “Campus Party”. Vírus são criados e disseminados na rede com o único propósito de trocar todos os nomes das pastas dos computadores. O ato gera caos na administração pública, já que ninguém mais consegue acessar o Free Cell. A bolsa para de funcionar após cair 30% porque todos as siglas que nomeiam as empresas de Eike Batista são trocadas por palavrões abreviados.

No quarto dia os ministros do STF se reúnem para discutir o pedido de prisão de todos os envolvidos, mas batem boca após a revelação de folhas salariais de capangas no Mato Grosso e fica por isso mesmo. Com o fim do repasse de recursos públicos, Une e Ubes (essa você não deve saber o que é, mas nunca vai te fazer falta essa informação) convocam estagiários de todo o país na adesão à causa. Post-its são trocados de computador, etiquetas de gavetas de armários e arquivos físicos são invertidas. Sem folha de ponto para marcar hora extra, funcionários do Congresso entram de greve e ninguém nota.

No quinto dia, o governo resolve decretar estado de sítio. Um fracasso. As Forças Armadas não aderem devido a um acordo com os rebeldes, que garantiram que os arquivos da ditadura permanecerão fechados para sempre. Igrejas, ameaçadas com recentemente desarquivados evangelhos apócrifos, fingem que não estão nem aqui. Jornais radicalizam: alguns apoiam a contratação por times nacionais de jogadores brasileiros velhos e gordos por salários milionários, outros condenam. Alguns ainda divulgam páginas de rodapé sobre a revolta, com medo da ameaça de divulgação das verbas de publicidade.

No sexto dia acaba o movimento e tudo volta aos caos normal. Porque revolta no sábado não dá, né, gente?

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Genes

Não lembro se já falei por aqui em algum momento de George Carlin. É um monstro da comédia norte-americana. Quer dizer, era. Carlin morreu em 2008, por problemas cardíacos. Provavelmente o mais ácido dos comediantes e um dos pioneiros na comédia de crítica social, dedicou uma boa quantidade de suas décadas a apontar o rídiculo dos hábitos e costumes estadunidenses. Ou melhor – os hábitos e costumes humanos. Crítico ferrenho da religião, ficou famoso por atacar a todas, sem restrições, sem deixar de lado assuntos relacionados, como aborto e homossexualismo. Mas falou de tudo, de política a preocupação com o meio ambiente, de segurança nos aeroportos a canibalismo, necrofilia e suicídio. Garantiu um segundo lugar mais do que merecido na lista do respeitado Comedy Central americano há algum tempo, perdendo apenas para o igualmente engraçado Richard Pryor. Para entender um pouco mais de Carlin, deixo um vídeo sobre a obsessão com a proteção do meio ambiente (legendado em português) e outro sobre religião (em inglês, mas é possível achar legendado com algum esforço).

Meu projeto é ser metade do que Carlin foi. Metade da graça, metade da crítica. Não é fácil pegar pesado como ele. Não é fácil chegar em um palco e falar para duas mil pessoas que elas são estúpidas, alienadas e enganadas 24 horas por dia por seus amigos, seu chefe, seu governo e sua igreja. Carlin fazia isso, e as pessoas o pagavam para isso, e riam de seus defeitos. Quero um dia ser assim, ter coragem para falar com a convicção que ele fala das coisas em que acredito. Enquanto não tenho a coragem, eu escrevo. Talvez um dia eu seja capaz, e assim espero. Por isso, deixo um texto que pretendo fazer um dia. Ele ainda traz muitos elementos básicos de stand-up, o que Carlin obviamente ignora. Ele não está preocupado de só ter um piada a cada trinta segundos de texto, porque sabe que ela será boa para compensar os últimos vinte e nove segundos de humilhação. Como eu ainda não tenho essa capacidade…

Genes

Vocês já devem ter notado que comediantes refletem muito. Nós estamos sempre pensando, e mesmo assim nunca entendemos nada. Eu não. Eu entendi. Eu resolvi seguir um caminho diferente, o caminho dos grandes filósofos. E eles tinham algumas perguntas básicas, das quais eu parti. De onde viemos? Pra onde vamos? Qual é o nosso papel na Terra? Por que as mulheres gostam tanto de espremer espinhas e cravos das nossas costas? E eu não sei se consegui responder a todas, mas eu cheguei a uma teoria que eu quero dividir com vocês. A vida, principalmente a vida em sociedade, é uma gigantesca e eterna competição para saber quem tem a maior piroca. É isso. Eu sei que algumas pessoas estão decepcionadas, olhando cabisbaixas, pensando que nunca terão uma chance. Besteira. Quando eu falo da busca pela maior piroca, não estou falando necessariamente da maior piroca física. Pode ser? Pode ser. Mas existem também pirocas, digamos, metafóricas. E elas são maioria.

E basicamente tudo é uma piroca metafórica, nesse sentido. A gente quer ter o melhor emprego pra ter o melhor carro, o melhor carro pra ter a melhor esposa, a melhor esposa para ter os melhores filhos. E pra que a gente quer os melhores filhos? Pra que serve um filho? Eu sei para que serve um emprego, um carro, uma mulher. E um filho? É por isso que a vida é uma competição de quem tem a maior piroca, e não apenas ter a maior piroca. Para saber quem ganhou a competição, você compara. De que adiante ser bem dotado se ninguém souber disso? É para isso que servem os filhos. Filhos são pirocas metafóricas. Ter os melhores filhos é uma forma de esfregar na cara da sociedade que você é o Kid Bengala de sua geração.

E isso acontece por um motivo muito simples: ter filhos é a prova definitiva de arrogância. Filhos são a forma que temos para eternizar nossos genes. Significa que você pensou bem e concluiu: “É, o mundo precisa dos meus genes. A humanidade não vai sobreviver sem minha calvície.” Você não pensa em quantos tios alcoólatras você tem antes de ter um filho. Mas você chama todos eles para o batizado do moleque. Daí você olha pra sua parentada bêbada, gorda, tropeçando pelos cantos… Olha para o seu filho e bate no peito… “MEUS GENES!”Você podia ter optado pelo celibato. Podia comer coroinhas, que não engravidam. Mas você decidiu ter filhos. Ainda bem. A humanidade depende dessa arrogância, depende dessa falta de senso do ridículo. Mas mesmo assim, as pessoas me pedem modéstia. Me pedem humildade! Para que? Por que eu devo ser humilde? Não existe sentido na humildade! Suponhamos, SUPONHAMOS, exercício de simulação, que eu tenha 25 cm. Por que eu preciso fingir que eu tenho 13? “Ah, é porque você não é o maior, o Eike Batista tem 30!” E daí?Eu continuo tendo 25!

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Então é Natal. E o que você fez? Hein?

Como contei recentemente, fiz minha primeira apresentação de stand-up. Foi há cerca de duas semanas. O texto foi sobre esse momento mágico, profundamente simbólico e altamente lucrativo do Natal. Não sou nenhum paladino adversário da data – é uma das poucas oportunidades que tenho para encontrar grande parte da família. Mas tenho minhas restrições, e fui o que trouxe ao texto. O material abaixo foi o que apresentei, e não o que escrevi originalmente. Cortei uma grande parte simplesmente porque estava chata e sem graça. Quem quiser vê-la pode assistir ao vídeo que coloquei no Youtube antes da apresentação, que a inclui mas não tem algumas piadas incluídas de última hora na apresentação, e perceber como ela não funciona. Talvez ficasse legal em uma esquete. De qualquer forma, desejo a todos um Feliz Natal, um Próspero Ano Novo (se pensar bem, você só usa a palavra próspero para essa situação durante o ano inteiro) e todas aquelas frases bonitas de fim de ano. Até 2011.

Então é Natal

Boa Noite a todos. Aliás, boa noite e Feliz Natal… se puderem. Eu falo isso porque eu não gosto de Natal. Nada no Natal. Não gosto. E tem alguns motivos. Eu sei, por exemplo, que é Natal porque tem a caixinha de Natal do meu condomínio. Desde 09 de novembro! Eu fui perguntar porque tão cedo, me explicaram que é porque é uma caixinha complementar, a oficial era só em dezembro mesmo. Ou seja, está criada oficialmente a caixinha 2 de Natal, fiquem à vontade para usar.

O principal motivo para meu ódio do Natal é a Simone. Ela é como se fosse um… Papai Noel do mal, sabe? Os dois só aparecem nessa época do ano, os dois têm um saco simbólico, um saco metafórico. Mas o Papai Noel traz presentes – a Simone traz… sofrimento. Dor… física, entende? Eu odeio a Simone primeiro porque foi por causa dela que eu parei de ir à Americanas. A Americanas era o paraíso das crianças na minha época. Porque não existia nenhuma loja tão fácil quanto a Americanas para roubar Batom. O chocolate. E eu nunca mais fui na Americanas por causa da Simone. Nunca mais… E a Simone, assim como o Papai Noel, ela está te vigiando. E ela te cobra! Ela não te deixa esquecer que então é Natal. E o que você fez? O QUE VOCÊ FEZ? O ano termina. E nasce outra vez. E o que você fez? É muita pressão! O Dunga, se ouvir essa música, surta. O Rubinho também.

E o interessante é que eu gostava do Natal quando era criança. E eu gostava porque, se você parar para pensar, o Natal era a época em que a sua mãe surtava. Ela surtava e ela te mandava fazer o oposto do resto do ano. Pensa bem: ela te levava no shopping. Ela te mandava sentar no colo de um estranho. Você contava detalhes da sua vida para ele. E no final você aceitava doces do estranho. Aí você cresce e começa a usar drogas e a culpa é de quem? Sua? Se você tem filho pequeno, lembre-se: o garoto que aceita bala do Papai Noel vai aceitar bala na rave, vai aceitar doce na boate. Você leva o seu filho para ver o Papai Noel no shopping? VOCÊ FINANCIA O TRÁFICO! É por sua causa que foi preciso o Exército para invadirem os morros do Rio! Tá satisfeito agora? É isso que você fez esse ano? É? E não mente que a Simone está vendo!

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O Rio de Janeiro continua rindo…

Textinho curto, rápido e meia-boca, pensado para ser parte de um texto maior de ocasião. Tanto que está sem conclusão, já que provavelmente seria uma forma de passar ao próximo tópico. Também está adaptado para o blog, e não como seria no palco. O assunto, é claro, é o Rio de Janeiro e o combate ao narcotráfico. O assunto é sério, eu sei, mas isso não quer dizer que devamos tratar o assunto como sacrossanto. Mesmo porque o que querem as pessoas que ateiam fogo pela cidade é isso, criar uma situação de medo e desânimo.

Até onde eu saiba, todas as piadas são originais, mas alguma pode ter rolado no Twitter durante os 4 dias de bombardeio de humor sobre o tema (eu mesmo coloquei algumas lá) e eu ter incorporado sem perceber. Caso alguém note, é favor avisar.

O Rio de Janeiro continua rindo…

Chocante a situação do Rio de Janeiro, né? Triste, muito triste, mas muito esclarecedora também. Eu finalmente entendi porque chamam de crime organizado. Vocês viram os bandidos correndo em linha? Fila indiana e tudo. Devia ter alguém orientando, só pode. Mais um pouco virava coreografia. E o nome dos morros? Ironia pura. A situação é feia, mas o nome do morro normalmente é uma coisa bonita, quase bucólica. Rocinha. Não parece um sitiozinho no interior? Teria até uns bichos, tipo pavão-pavãozinho. Só na rua é que a coisa fica feia. Eu sempre achei que as cores das linhas eram de aviso. Linha amarela, risco de bala perdida. Linha vermelha, VAI TER bala perdida. Eu achava inclusive que a linha vermelha acabava em uma linha preta, com cruzes espalhadas, sei lá.

E a cobertura da imprensa? Eu achei que tinham transformado o Tropa de Elite em reality show. Que talvez não fosse exatamente uma boa ideia. Não ia durar muito com o Wagner Moura dando tapa na cara dos participantes e mandando pedir pra sair. Aliás, falando em Bope, a cobertura foi tão intensa que fez os caras mudarem até o grito de guerra do treinamento. Quem assistiu o primeiro filme do Tropa de Elite lembra como era. Agora é assim: “Homem de preto, o que é que você faz? Eu faço coisas que aparecem nos jornais! Homem de preto, qual é sua missão? Ir em rádio e TV comentar a operação!”.

O interessante é ver as pessoas falando que o problema da polícia do Rio é a corrupção, e que pra combater isso é preciso melhorar o salário dos policiais. Desculpa, eu não acredito nisso. As pessoas realmente acham que o cara que ganha 3 mil reais vai parar de cobrar suborno se ganhar 4 mil? Ele só vai ficar é mais caro. A cervejinha não vai mais ser uma Schin quente, vai ter que pagar pelo menos uma Heineken. Não vai mais rolar o “cafezinho”, vai ser o “capuccinozinho”. Nisso ninguém pensa, né?

Agora, tem que ficar esperto. Porque no Rio, quando não é traficante que manda, é milícia. Para quem não sabe do que se trata, são pessoas que ameaçam os moradores dos lugares, os obrigando a dar dinheiro para evitar “problemas” de todo tipo. O que, curiosamente, é o mesmo modo de funcionamento de algumas igrejas, se você pensar bem. E nos dois casos, o cara da grana nunca é o chefe, sempre tem um grandão por trás.

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La mala educación

Volto aos stand-ups, sucesso de procura do blog. Esse não me agradou nem um pouco. Muito set-up, poucas punchlines, o que normalmente indica um bom tema, mas desenvolvimento inferior. O resultado é um texto enrolado e chato, que pode até funcionar quando lido no blog, mas dificilmente faria rir se interpretado à risca. De qualquer forma, coloco aqui e aceito sugestões ou comentários sobre como melhorá-lo. E só para lembrar aos turistas acidentais: o texto está quase todo escrito como seria falado em um palco. Os trechos entre parênteses são sugestões de gestuais.

Educação

Hoje em dia se fala tanto de educação, né? Como educação é importante e não sei o que. Não estou falando de política para educação, nada disso. Como Enem, né. Desculpa aí, mas pior do que os erros das provas foi a enxurrada de piadinhas com “E nem alguma coisa”. Entupiram meu Twitter com isso. Isso sim é falta de educação. Mas eu falo de educação, aquela coisa que a gente aprende em casa, pelo menos a maioria de nós. E tem umas coisas que não fazem sentido. Eu nunca entendi, por exemplo, por que é que não se pode apontar quando está falando de alguma coisa. Quando a gente é criança, para assustar, falam que a gente não pode, por exemplo, apontar estrelas, que dá verruga no dedo. Quando a gente cresce, falam que se a gente apontar estrelas o pau encolhe. Nunca ouviram isso? Pois falam. E é verdade. Já viu algum astrônomo com uma mulher muito gostosa? Pois é.

E aí a gente fica criando artifício para não apontar. Você tenta usar o pescoço por exemplo. Aí fica aquela coisa ridícula, do (movimento de pescoço) “Aliiiii”, “aliii”. Isso não vale para lutadores de jiu-jitsu e marombados em geral. Tem outras formas. Você está numa festa, por exemplo, conversando com um amigo. Chega uma gostosa. Você não pode apontar, não por questão de educação, mas porque a namorada está ao lado. Aí você usa o código das horas. Todo mundo sabe o que é o código das horas? Você fala “gostosa a duas horas”. Como funciona: é como se você estivesse no centro do relógio (movimenta os braços conforme os ponteiros de um relógio), uma, duas horas, é nessa direção. Só que às vezes não funciona.

– Gostosa a duas horas.
– Duas horas minhas ou duas horas suas?
– Como assim?
– Duas horas minhas ou duas horas suas?
– Duas horas minhas, pô!
– Ah tá.

A gostosa já foi, perdeu. E ainda corre o risco de constranger o amigo que não sabe olhar as horas em relógio que não é digital.

Agora, a regra da educação é controlar os instintos. Controlar tudo que é incontrolável. Não pode bocejar na frente de alguém, não pode arrotar, não pode ter uma ereção. E isso é ridículo, porque não funciona. Todo mundo vê que você está bocejando, porque não é só abrir a boca. O olho encolhe, o queixo desce. Olha só. (boceja e volta a falar ainda bocejando) Disfarçar arroto também é um saco, aquela coisa de arrotar pra dentro. Uma bolha de gás explodindo para dentro de você, isso não pode ser bom, gente. E não custa lembrar que em alguns países, arrotar não é falta de educação, pelo contrário. É um elogio a quem fez a comida, normalmente a mulher do anfitrião. E é uma regra que podíamos aplicar em outras situações. Quando estiver na casa de alguém, você dá um tapa na bunda da anfitriã e faz um joinha para o marido dela. “Parabéns, tá comendo bem!” Mas o pior é tentar disfarçar ereção. Porque você disfarça ereção colocando alguma coisa aqui na frente. Bota uma mão, bota um livro, senta cruzando a perna esquisito, alguma coisa. Coisas que você faria se não estivesse com uma ereção. Então todo mundo nota. E eu não entendo porque não é vergonha estar excitado. A menos que você esteja, sei lá, num velório. E se isso acontecer, também não é motivo para ter vergonha, porque você tem uma doença. Não precisa ter vergonha, precisa se tratar.

Eu falei de arroto, do qual todo mundo tem nojo, e isso me lembrou da tal da etiqueta à mesa. Para quem não sabe, a maioria das regras da tal da etiqueta é francesa. O que é bizarro, porque se os franceses não tomam banho eles não devem lavar a mão antes de comer. E eles colocam todo tipo de bicho nojento na mesa: rã, lesma, essas coisas. E a tal da etiqueta tem umas regras estúpidas. Por exemplo, é falta de educação comer de boca aberta. Já tentou comer de boca aberta? Não funciona. Não é porque é feio, é porque a comida cai toda! Não é educação, é bom senso. E tem umas que são impossíveis. Por exemplo, é feio virar o prato para tomar o restinho da sopa. Ou fazer barulho tomando sopa. Mas a graça da sopa é fazer barulho! É igual não fazer barulho quando se está bebendo com canudo. Só que não dá para beber o finalzinho do refrigerante com canudo sem fazer barulho. Tem crianças na África que dariam a mãe por aquele restinho de refrigerante e eu vou desperdiçar por causa do ouvido da madame? Ah, pelo amor de Deus.

E rola um preconceito na mesa. Por exemplo: existe garfo e faca pra tudo. Garfo pra salada, pra fruto do mar, pra carne, pra peixe, pra caviar, sei lá. Mas pão, você come com a mão. O pobre do pão deve ser vítima de bullying pelas outras comidas. “Ih, lá vem o pão. Pobre é foda, todo mundo passa a mão sem dó.” E pra tudo tem um talher específico. Pão não, você come como se fosse um homem das cavernas. E é um saco isso, porque às vezes quem oferece o jantar é um pão-duro, de onde aliás vem a expressão, e oferece aquele pão que esfarela todo na sua mão, cai no colo as migalhas, é um inferno. Frango também se come com a mão, mas nesse caso eu acho certo. Já tentou tirar aquela carne que fica pregada no osso com um garfo? Espirra pra tudo que é lado, suja a roupa da mulher ao lado, é um inferno. É melhor comer com a mão mesmo, depois limpa no guardanapo, no pano de mesa, na roupa da mulher ao lado. Aliás, guardanapo é outra coisa escrota. Eu nunca sei quando é para deixar na mesa, quando é para colocar no colo, quando é para pendurar no pescoço igual gordo de filme.

E quando você vai a um restaurante “chique” e não sabe o que fazer? Vocês sabiam que existe uma posição para o garfo quando você já acabou e tem outra para quando você está só fazendo uma pausa? São 60º entre o garfo e a faca. Eu quero saber que garçom tarado professor de trigonometria é esse que fica vigiando meu prato e medindo o ângulo do meu garfo só no olho? Se eu deixar meus talheres errados ele vai roubar meu prato antes de eu acabar de comer? Aliás, tem regra até para chamar o garçom. Não pode estalar os dedos, não pode gritar. O que é uma tremenda sacanagem, já que eu decorei aquela música do Skank só para isso. Sabem qual é, aquela tem qu um dicionário de formas de chamar garçom? “Ô comandante, capitão, tio, brother, camarada, chefia, amigão…” Pois é, agora descobri que não posso mais usar nenhuma delas. O que deveria ser a primeira regra de etiqueta a ser aprendida. Já que, do jeito que andam os restaurantes, se você não gritar para conseguir a atenção do garçom, não vai precisar de nenhuma outra regra.

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Sonhos

Demorou, mas chegou. Novo textinho feito com a utópica intenção de ser levado a um palco de stand-up comedy. Como isso não vai acontecer (ou pelo menos não deve acontecer tão cedo), vem para o blog. Esse, aliás, tem dedicatória especial a Denise Dambros, também conhecida como @Deeercy no Twitter. Uma das humoristas de Internet (e sei lá o que mais ela faz) mais criativas que conheci aqui, na rede mundial de computadores – mesmo porque é difícil conhecer humoristas de Internet em outro lugar. Pode ser encontrada no Twitter, em textos semanais (eu acho) no Jacaré Banguela e eventualmente em live bloggings do Kibeloco. Ela teve a disposição de ler e comentar alguns trechos , de modo que aqui vai o texto com as sugestões dela e algumas coisas que acrescentei depois. É curtinho, mas espero que se divirtam.

Sonhos

Eu sofro de insônia. É verdade. Tem uma semana que eu não durmo. Já tentei de tudo:  música relaxante, discurso do Fidel, entrevista do Suplicy. Nada funciona. E eu tenho quase certeza que isso começou com uma entrevista que eu vi sobre sono. Era um médico dizendo que o cérebro aproveita o sono para desligar e depois religar. É como se ele desse um… Restart. É óbvio que eu não dá para dormir mais depois disso. E o medo de ir dormir e acordar, sei lá, todo colorido e desafinado?

Falando em pesadelo, tem uma coisa que eu acho particularmente interessante, que são os sonhos. É fantástico como se consegue colocar tanto creme em uma rosquinha! Não, peraí, sonho errado. Para quem não sabe, e eu não sabia, descobri no Google, os sonhos mais legais acontecem numa fase do sono chamada fase REM. REM é uma sigla, significa em inglês Movimento Rápido dos Olhos. Tem um motivo para isso acontecer durante o sono, sabia? Tente mexer rapidamente os olhos. Ficou meio… colorido, não ficou? Pois é, mas os sonhos acontecem nessa fase do sono. A única exceção é o presidente Lula: os sonhos dele não acontecem na fase REM, acontecem na fase Rum. Com Coca. Foi numa dessas, para quem não sabe, em que ele sonhou que entregaria a faixa presidencial para uma mulher séria, competente e experiente. Aí ele acordou, pensou bem no assunto e falou “Foda-se, eu vou com a Dilma mesmo. Lugar de sonho é na padaria.”

Agora, sonho não é à toa, né? Freud estudou os sonhos. Saca Freud, o velho do charuto? Para ele, os sonhos falam muito sobre a sexualidade da pessoa. Exemplo: você sonhou que estava pelado no meio da escola, com todo mundo olhando. Significa o que? Que você tem desejo pela sua mãe. É mais ou menos por aí. Você sonhou que corria da polícia e se escondia em uma sorveteria. Significa que você tem desejo pela sua mãe. Você sonhou que fazia sexo com travestis em um motel de quinta no Rio. Significa o que? Que você brilha muito no Corinthians. E tem desejo pela sua mãe.

Agora, tem um pessoal que jura que os sonhos podem prever o futuro. E tem sites na Internet que explicam isso. Eu fui pesquisar no Google, coloquei lá “interpretação sonhos”, entrei no primeiro site que apareceu para entender como funciona. Por favor, vai parecer surreal, coisa de sonho (turum tss), mas podem acreditar em mim, é tudo verdade.

Exemplo do que tinha lá nesse site: sonhar com abacate significa que sua vida amorosa vai melhorar. Sério: ahn? Que fetiche doentio é esse, gente? Abacate? Como funciona? É o formato? O buraco que fica quando você tira o caroço? A consistência? Outra, e essa é genial: sonhar com um congresso. Se você estiver assistindo a uma reunião no Congresso, significa que está sendo enganado por alguém. Isso não é sonho, é vida real. Outra coisa que tem no site: sonhar que está se confessando para um padre significa que você tem que tomar cuidado com as pessoas. É óbvio que essa foi uma interpretação criada por um coroinha. Diz lá no site também que sonhar com o Richarlyson de sunga significa que você é homossexual. Brincadeira, não diz isso lá. Isso é só senso comum.

Agora, fora prever o futuro, para que serve interpretar sonho? Pra jogar no bicho. Só para isso. Aliás, lá no site, além do significado geral dos sonhos, ele fala em que bicho jogar, de acordo com o sonho. Só que também não faz sentido. Se você sonha com um urso, você joga no urso. Óbvio. Só que se você sonhar com um Falcão, você joga no Leão. Que porra é essa? Sonha com atacante, joga no goleiro? Eu tenho uma teoria que deve funcionar muito melhor para isso. Exemplo: sonhou com a Geisy Arruda? Joga na vaca. Sonhou com o Dunga? Burro na cabeça. Agora, sonhou com um são-paulino? Joga na borboleta, fera, porque, se você sonha com um são-paulino, o veado é você.

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Mictórios

Aparentemente, muita gente chega ao blog procurando por textos de stand-up. Por isso, segue mais um. Não custa lembrar, o texto foi originalmente escrito para ser falado, com citações de pausas incluídas. Retirei coloquialismos previstos, que seriam incluídos na fala, e palavrões que não fossem fundamentais. Optei, no entanto, por manter gestuais necessários entre parênteses, para facilitar a visualização e imaginar a piada. Este texto eu encaminhei recentemente para avaliação de alguns humoristas e comediantes, mas nunca tive resposta. Pena. Se algum humorista receber este via terceiros, não hesite em entrar em contato.

Não me entendam mal, é algo puramente teórico, sabe, campo das ideias, mas sexo é uma área em que eu tenho um pouco de inveja das mulheres. Não pela função exercida, não é isso. É que, pra mim, sexo para mulher é uma coisa fácil. Muito fácil. Porque homem não está preocupado com o desempenho da mulher. Se ela está ali, está valendo, é melhor do que sozinho. E sempre rola uma coisa meio egoísta do cara, né, de “Foi bom? Ótimo! Não foi? Foda-se!”. Que, aliás, acaba sendo uma continuação muito comum.

Mas outra coisa que eu tenho inveja de mulher é em relação ao banheiro. Porque mulher vai junto ao banheiro, aquela coisa bonita, de amiga, vai falar do que está rolando, e tal. Homem não. E vou te contar, banheiro masculino é um ambiente inóspito. Sério. É uma parada meio savana, onde os fracos não têm vez. Porque no banheiro feminino a mulherada conversa, troca maquiagem, tira dúvida, essas coisas. Quer dizer, presumo eu, não sei. Banheiro masculino, não! Tente puxar papo no banheiro masculino para você ver o que que acontece. Imagine. A mulher é mais solidária até nessas horas. Porque vai lá, passa mal, vai amiga junto, segura o cabelo para não sujar, dá apoio. Homem não. Foi sozinho pro banheiro passando mal, o que é o normal, problema seu. Vai precisar trocar o sapato. Mas com quem?

Agora, homem tem uma coisa, também tem a ver com banheiro, que é se gabar de mijar em pé. Eu nunca entendi o porquê desse orgulho. Não é nenhuma habilidade sobrenatural, sabe, todo homem nasce com essa mesma capacidade. Você não sabe falar holandês, campeão, você só segue um instinto! Não tá fazendo mais que a obrigação e quer medalha! E o pior é que tem gente que não consegue! O cara erra a mira. Quão difícil pode ser acertar o vaso? Me explica! Não é uma mangueira de bombeiro, pelo menos não se você for normal, para ser uma coisa assim… (mímica de mangueira de bombeiro descontrolada) incontrolável!

Mas o que mais me irrita nisso tudo é que por causa dessa “vantagem” surgiu o mictório. Mictório é uma das invenções mais imbecis da humanidade. Sério. Está ali disputando, com o perdão do trocadilho, pau a pau, com a camisinha musical que toca o hino do seu time. Ideia idiota… Mas homem sabe o que é essa situação que eu vou contar agora, mentalizem comigo. Homem sabe o que é entrar no banheiro… todas as cabines ocupadas… os mictórios quase todos ocupados… Tem UM livre. Eu normalmente preferiria esperar uma cabine. Preferiria. Porque quando você entra no banheiro… Lembra que eu disse que era um ambiente inóspito, né? Você tá sozinho ali, e todo mundo te julga. Ninguém fala nada, mas você sente que eles estão rindo por dentro do seu medo de usar o mictório. Aquela coisa meio Dunga, de olhar pra você e resmungar pra dentro: “Cagão, cagão!”.

Agora, mictório tem uma coisa… Mulher não sabe disso, ou pelo menos não deveria, mas homem sabe. E o pior, sabe por instinto, ninguém te contou, mas você sabe disso: existe uma ética de mictório. Que tem alguns princípios básicos. Por exemplo: você entrou no banheiro, tem três mictórios. Se você é o primeiro, você escolhe um do canto. Isso é regra! E por que? Porque se você for o segundo, e o cara estiver no do meio, você vai ter de ficar do lado dele. No canto não, vai cada um para um canto e a coisa só fica desagradável se vier o terceiro. Agora, se tem cinco mictórios, é nos extremos. Cada um no seu quadrado, o mais longe possível.

E eu acho que todo mundo entende o motivo, né? É um momento íntimo, ali, você não quer alguém olhando. A menos que você seja do tipo que curte um certo voyeurismo, e tal, ter alguém te olhando. Aliás, tem alguém assim aí? Ninguém? Nunca tem ninguém, vou mudar minha estratégia de abordagem.

Mas tem mais do que isso. Porque essa hora, que você precisa do mictório, é pra ser uma hora de relaxar. De tranquilidade. (mais agressivo) Só que se o cara chegar do seu lado, você vai ter que vigiar. Lobinho, sempre alerta. E esse processo de vigilância é complicado! Visualiza comigo. Tô aqui, tranquilão, olho na parede, mão no… microfone. Estacionou um indivíduo do meu lado. Reação natural, tô num momento íntimo, fico um pouco envergonhado, abaixo a cabeça. (abaixa a cabeça, olha para o chão). Aí você pensa: ele vai achar que eu abaixei a cabeça para olhar o dele sem ele ver. E aí ou você pode ganhar um inimigo ou correr o risco de ele achar que você está dando mole, né? Aí você levanta a cabeça (levanta a cabeça). Às vezes até força um sorrisinho constrangido. E você começa a tentar ver se ele está te olhando aqui, (dedo próximo ao olho, do lado da cabeça), na periférica. Aí você pensa: ele vai achar que eu levantei a cabeça porque gostei do que vi! O que você faz? Desvia o olhar (olha para o lado oposto ao sujeito imaginário, e para cima). Só que agora bagunçou de vez, porque você não sabe o que ele está fazendo! A periférica foi pro espaço! E é justamente quando ele resolve fazer amizade e te cumprimenta (assume o papel do imaginário e faz gestual de pegar na genitália da pessoa ao lado) “Oi, tudo bem?”.

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