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Delenda Marina!

Normalmente não voto por causa do trabalho, que me impede de estar na minha terra na eleição (e me recuso a mudar meu voto para Brasília. Aqui sou só eu, é pouca gente demais para meu voto interferir. Em Goiás, meu voto pode ajudar a dar uma condição melhor para minha família, e é o que importa), mas este ano não foi nenhum sofrimento. Isto porque sigo uma regra muito própria, de voto por convicção no primeiro turno, voto útil no segundo. E este ano não tinha um candidato sequer, em qualquer dos cinco cargos disponíveis, que tivesse me feito achar que eu deveria atuar ativamente pela eleição

Tomaz Silva/Agência Brasil)

Tomaz Silva/Agência Brasil)

Já pro segundo turno, já tinha me decidido. Acreditava que teríamos Dilma e Marina, e estava disposto a votar na Marina, apesar de todas as minhas ressalvas a ela – e acreditem, não eram poucas. Por que? Porque o petismo que conheci quando garoto, que defendi na adolescência e no começo da juventude, desapareceu. As bandeiras progressistas foram abandonadas, as alianças espúrias elogiadas, e a política econômica virou algo lovecraftiano, que tornaria uma mente insana só de tentar entender para explicar.

Mas até aí eu aguentava, até aí eu defendia pontos dos 12 anos de governo. Só que a campanha jogou a pá de cal. O partido que me fez ouvir muito terrorismo quando garoto se entregou ao terrorismo de campanha. O partido que passou medo na Regina Duarte só faltou contratá-la para dizer que ela tinha medo da Marina. Foi como se o PT tivesse sido tomado pelo espírito de Catão, o Velho. “Delenda Marina!”. Marina deve ser destruída. Era a última frase, implícita ou não, em todo discurso petista. Se consideram “do jogo” ou “coisa de campanha”, como insistem alguns amigos, me é indiferente. A mim imediatamente lembrou uma frase do Ayres Britto no julgamento do caso Arruda: “Há quem chegue às maiores altura, só para cometer as maiores baixezas”. Delenda Marina! Atacar um quadro histórico do partido desta forma, alguém que teve de deixar o partido por perder espaço ao defender as bandeiras clássicas da legenda, da forma como se atacou… Minha tolerância acabou.

Mas aí… veio o Aécio. E o PSDB. E toda a memória do período entre 1995 e 2002: tudo pelo que minha família passou, as dificuldades de uma família de classe média baixa no interior do país, numa daquelas grandes cidades pequenas. As medidas fundamentais para recuperar a economia e combater a inflação – e que bagunçaram completamente nossas finanças pessoais. Depois, tudo a que o partido se opôs no governo seguinte enquanto não percebia que estava indo contra a população – e que passou a apoiar quando viu que dava voto. E tudo que eu vi e ouvi dos tucanos desde que comecei a trabalhar com política. E aí as coisa começaram a se confundir: eu vejo tucanos como petistas, eu vejo petistas como tucanos. Tão diferentes, tão iguais.

Não sei em quem votar no segundo turno. Nada que eu faça vai ajudar a combater o mal maior, porque eu não consigo mais dizer se o mal maior realmente é o que eu penso. É como se eu estivesse com a arma na mão em um daqueles filmes em que um gêmeo bom e um gêmeo mal se engalfinham até eu não saber quem é quem. E eu tenho minhas dúvidas de que perguntas resolvam, porque as respostas serão sempre destinadas a me fazer atirar no outro. Meu voto útil se tornou inútil na minha mão antes mesmo de tocar as teclas da urna eletrônica. Aos berros de “Delenda Marina”, o PT destruiu não só a ex-companheira. Destruiu meu resto de crença em algumas bandeiras do partido, minha esperança de que a política estivesse evoluindo no país, e um pouco da minha fé na humanidade. Parabéns a todos os envolvidos.

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Mídia fascista sensacionalista

Fui a três manifestações populares em Brasília desde o começo da semana. E foi a partir delas, e expressando tão somente minha opinião como pessoa física, que escrevo estas palavras.

Me impressiona o desapego das pessoas pela imprensa livre. Nas manifestações, poucos gritos eram tão ecoados quanto “mídia fascista, sensacionalista”. Sempre sem reprimenda ou contestação. Isso me incomodava tanto que acredito que as únicas coisas a me impedir de gritar algo em resposta eram o bom senso e o instinto de autopreservação.

Manifestante protesta contra veículos de comunicação. (Fonte: Uol)

Manifestante protesta contra veículos de comunicação. (Fonte: Uol)

A mídia erra, como todo mundo. Jornalistas são humanos, e as empresas são formadas por jornalistas. Temos convicções, ideologias e idiossincrasias que adoraríamos deixar em casa ao ir para o trabalho, mas isso não é possível. Então tentamos reduzir seu efeito, diuturnamente, para que a informação que transmitimos seja a mais completa possível, para que nossa missão social final se realize: dar condições ao eleitor para decidir. Levar a ele o máximo de informação possível, da melhor forma possível. É isso que fazemos, é para isso que existimos. Os erros, se acontecem, são com a intenção do acerto. Acreditem, eu já errei, e nunca foi proposital.

E quando acertamos? Os que gritam contra a corrupção, de quantas denúncias publicadas pela mídia se lembram? Quantos casos históricos de ladrões do erário foram desmascarados por nossas canetas? Quantos políticos ruins sumiram após nossas imagens? Aos que defendem mais educação, quanto esforço não fazemos por mais recursos para a área? Quantas pesquisas publicamos, quantas cobranças fizemos? Quantos hospitais em petição de miséria denunciamos em prol de uma saúde melhor? Por mais transporte, mais segurança, mais respeito aos direitos humanos?

Ninguém sofreu mais com o fascismo do que a mídia. Quantas áreas tem profissionais tolhidos de seu trabalho por regimes autoritários? Não confundam: a mídia favorável ao regime autoritário não é imprensa, mas propaganda, seja por sua vontade ou não. Chamar nossa imprensa livre de fascista é tão sem sentido quanto chamar um médico de carrasco.

Ninguém sofre mais com o sensacionalismo do que a boa imprensa. Nosso trabalho diário passa por dilemas entre sobreviver no mercado competitivo e alimentar o círculo vicioso dos que preferem a imagem sangrenta ao noticiário político relevante. Quando o público critica a informação política ao optar pelo relato puro e simples de mais um crime, faz mais do que uma só opção: opta também pela ignorância e por abrir mão de preciosos recursos para tentar controlar o seu destino e o destino de um país.

Não faço parte da mídia fascista sensacionalista. Faço parte de uma imprensa livre que precisa esconder o orgulho do que faz, fingir que não é para o que estudou e sonhou ser, para tentar garantir que nenhum abuso ocorra contra quem se manifesta, ou que os que ocorram sejam punidos. Que teme pela própria segurança ao ouvir um turbilhão de gente que a chama de fascista e que estaria disposta a calá-lo à força se discordar de suas ideias – um dos cernes justamente do fascismo. E que faz tudo isso com gosto e não se arrepende um dia sequer, porque está tentando fazer seu papel por uma sociedade mais justa. Mesmo que alguns não queiram que você participe.

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Somos cúmplices

Em abril de 2012, o Supremo Tribunal Federal considerou que aborto de anencéfalos não é aborto, portanto não é crime.Por um mecanismo jurídico, a decisão do Supremo vale para qualquer processo judicial semelhante ao originalmente analisado, em qualquer instância. Na prática, reduz o número de processos que chegam ao Supremo e que ficam tramitando por aí. É um recurso útil.

O problema é que isso nunca foi bem visto pelo Congresso. Para muitos parlamentares, o que o Supremo faz quando cria uma súmula vinculante é legislar, invadindo a seara do Parlamento. E quando trata-se de um assunto polêmico assim, como o aborto, o ódio só aumenta. Isso porque as bancadas religiosas têm força para barrar o tema no Congresso, mas não têm como impedir o STF de se decidir sobre o assunto de forma contrária às crenças que defendem.

O que fazer? Infernizar a vida do Supremo. Horas após o julgamento do Supremo, ouvi da boca de um deputado federal que eles atuariam para aprovar uma PEC que permitisse ao Parlamento suspender decisões do STF que invadissem a competência legislativa. “O que me indigna é o Supremo agir com ativismo judicial e ao mesmo tempo das principais lideranças do Parlamento não terem essa percepção. Eu acho que a nossa reação não é contra o Supremo, é a favor da democracia e do Estado de Direito. [Sobre a PEC] Achamos que ela é extremamente fundamental dentro deste princípio do equilíbrio entre os poderes.”

João Campos

Deputado João Campos (PSDB-GO), líder da Frente Parlamentar Evangélica, relator da PEC 33/11 e cavalgadura mor já exportada por Goiás para o Congresso. (foto por Luis Macedo/Câmara dos Deputados)

O deputado era João Campos (PSDB-GO), líder da Frente Parlamentar Evangélica. E ele não estava brincando: no fim daquele mês mesmo, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou a PEC 3/2011, de Nazareno Fonteles (PT-PI), que dava ao Congresso Nacional a possibilidade de sustar “atos normativos  de outros poderes que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de delegação legislativa”. Para o deputado, isso significaria que um decreto legislativo aprovado pelo Congresso poderia barrar o efeito, por exemplo, da decisão do Supremo que autorizou a união civil estável entre homossexuais. Talvez ele estivesse errado sobre o alcance, mas era algo a se acompanhar: que outras medidas estes senhores querem aprovar? Isso não ocorreu, sabe-se lá porque.

Os nomes lhe soaram familiares? É porque são. Fonteles é autor também da PEC 33/2011, recentemente aprovada na mesma CCJ. O texto cria dificuldades para declarações de inconstitucionalidade pela Suprema Corte de emendas à Constituição e submete súmulas vinculantes a apreciação do Congresso, que poderia derrubá-las. O relator da dita cuja? João Campos. A aprovação causou furor e uma crise institucional entre os Poderes Legislativo e Judiciário, com troca de farpas e reuniões secretas para acalmar os ânimos, num daqueles espetáculos que só Brasília sabe proporcionar.

Nazareno é um homem irritado com o Supremo. Na justifica da PEC, diz que “as decisões proferidas [em súmulas vinculantes] carecerão de legitimidade democrática porque não passaram pelo exame do Congresso Nacional. Estamos, de fato, diante de um risco para legitimidade democrática em nosso país. Há muito o STF deixou de ser um legislador negativo, e passou a ser um legislador positivo. E diga-se, sem legitimidade eleitoral. O certo é que o Supremo vem se tornando um superlegislativo”. Volta e meia ele aparece com um projeto ou discurso nesse sentido, de que a Suprema Corte é poderosa demais. (spoiler para o deputado: tem que ser, é a Suprema Corte) Mas Nazareno é insignificante. Em geral, fica nos subterrâneos com projetos sobre uma maluquice como Limite Máximo de Consumo, Poupança Fraterna ou a criação do Dia do Vaqueiro. É um suplente sem expressão no partido ou no Parlamento. Um nada político.

Nazareno Fonteles

Nazareno Fonteles (PT-PI), suplente de deputado e mal-intencionado de ocasião. (Foto de Luis Macedo/Câmara dos Deputados)

João Campos, não. O PSDB pode até não colocá-lo em sua vitrine, mas ele é nome forte no Parlamento pela frente evangélica que lidera, com um sétimo dos parlamentares e uma base eleitoral leal e ativa. E ele está tão irritado quanto Fonteles com o Supremo. Diz seu relatório sobre a iniciativa: “previne-se […] a hipertrofia dos poderes do Supremo Tribunal Federal, evitando que atingissem, desmesuradamente, as instâncias que lhe são inferiores e, no limite, o cidadão e as pessoas jurídicas, haja vista o alcance da súmula e o seu efeito vinculante sobre as decisões administrativas e judiciárias”. Junte isso ao discurso lá em cima e você terá alguém que quer dar um sossega-leão no STF.

E é por isso que escrevo sobre o tema. Me incomoda a situação atual, de atirarmos no que estamos vendo e sermos baleados pelo que não vemos. Desde que a PEC 33 foi aprovada pela CCJ, todos que trataram do assunto transformaram o ato numa suposta vingança de mensaleiros contra o Supremo que os condenou, pela presença (que me parece ilegítima) de dois deles na comissão, tendo votado a favor do projeto. Besteira. O assunto tramita desde antes da condenação dos envolvidos no mensalão pelo Supremo, é bandeira de gente de governo e oposição há anos e teve o apoio de partidos de todas as esferas. Como pode ser algo novo, aprovado em resposta? E a PEC 3/11, era uma retaliação prévia? Ataque preventivo?

Pode a aprovação da excrescência ter contado com uma ajuda vingativa do PT, que quer o couro da moçada da toga? Pode. Mas não seria suficiente, se fosse bandeira particular de meia dúzia de safados. É uma retaliação, sim, planejada, sim, mas de quem se organiza para ter força no Congresso e acaba se sentindo atropelado pelo Supremo. Com ênfase notória na bancada evangélica, que espertamente se aproveitou do palhaço-suplente à disposição. Isso está claro, transparente a quem quiser ver. Não parece óbvio?

Quando nos dispomos a transformar tudo em mais um episódio do vale-tudo mensaleiros x mundo civilizado, jogamos a luz no que queremos ver e ignoramos o que acontece no subterrâneo. É assim que projetos como esse são aprovados: na maciota, no subterfúgio, com a culpa sendo jogada em quem convém. E se não buscamos os verdadeiros responsáveis, não somos vítimas – somos cúmplices.

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As Cousas do Mundo (e seu eterno retorno)

Andei lendo Nietszche, e nada de bom pode vir disso, mas não vem ao caso. Só cito a questão porque lembrei, enquanto lia sobre a teoria do Eterno Retorno, da atualidade de algumas coisas que se repetem no Brasil com mais frequência do que deveriam. E vão continuar se repetindo, pelo andar da carruagem. Abaixo, Gregório de Matos – poeta maior e ídolo pessoal – elucida meu raciocínio com seu texto, acreditem, do século XVII.

As Cousas do Mundo

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

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Cecília Meireles estava errada

Nunca escondi minha admiração por Luis Fernando Veríssimo. Como cronista e escritor, dificilmente não rio de seus textos, mesmo os mais reflexivos. O último, no entanto, me fez pensar mais do que rir – e dormir menos. Você pode encontrá-lo aqui. Em resumo, Veríssimo cita Espinosa para lembrar a ideia do “sub specie aeternitatis” – do ponto de vista da eternidade (em uma tradução livremente feita pelo Google). Sei que a intenção do filósofo ao elaborá-la não foi a mesma que tenho, mas não consigo deixar de pensar sob o aspecto do relativismo absoluto.

Tenho um amigo (ou tive) com quem discutia sobre praticamente tudo. Dali adquiri o gosto pelo debate, pelo conhecimento intrínseco à discussão. Ter ideias e acreditar nelas é bom, mas só quando você se dispõe a defendê-las e alterá-las quando percebe que elas talvez não sejam tão perfeitas assim. Foi isso que aprendi nestas discussões, que iam rapidamente do futebol à macroeconomia, sem antes passar pelas grandes discussões da humanidade, como a epistemologia ou a necessidade da depilação no mundo moderno. E sempre, sempre, recaíamos em nossa principal divergência: o meu relativismo e o “absolutismo” dele.

Minha lógica era simples: não consigo pensar em nada absoluto. Nem a morte, sobre a qual ninguém tem muita certeza, já que não temos certeza sequer sobre o que é a vida. Quer ter uma noção? Pergunte a qualquer um o que é a vida ou o viver. Você verá o esforço hercúlo usado na produção de uma resposta que ainda assim será incompleta ou nada satisfatória. De volta: eu achava difícil acreditar em algo como certo e definitivo porque praticamente todos os nossos conceitos são, em última instância, relativos. Mesmo os que deveriam ser gerais. Tenho certeza que ofendo algum epistemologista neste momento, que urra em frente ao computador, mas isso é o máximo que minha mente chegou vasculhando sozinha as noites de segunda. Agradeço reprimendas informativas.

Digressão feita, volto ao texto do Veríssimo. Ele fala sobre quão relativas se tornam nossas ações, qualidades e defeitos do ponto de vista da eternidade. Faz todo o sentido. Pense em um grande nome da humanidade, qualquer um. Júlio César, imperador romano? Foi um dos responsáveis pelo maior império da humanidade, é verdade, mas e daí? Esse império durou apenas alguns séculos na história de uma humanidade que não tem mais do que alguns milênios, ocupando um planeta com bilhões de anos, surgido em universo ainda mais antigo. Meu ponto é que nada, nenhuma realização humana já ocorrida (ou, me arrisco a dizer, a ocorrer) é grandiosa o suficiente para se inscrever na história eterna do universo.

Pode ser uma ideia frustrante a princípio: que relevância tem o que fazemos aqui? De que adianta eu estudar Medicina e criar a cura da Aids se, em alguns bilhões de anos, o Sol vai se apagar e a humanidade, salvo colonização espacial, encontrará seu fim? Ou pereça antes mesmo, diante de uma nova Aids, mais violenta, perigosa e contagiosa? Para que trabalhar, lutar, brigar? Qual o mérito de uma novela, ou de um debate político, ou de construir uma casa, educar seus filhos, produzir uma música?

Eu sempre acreditei que eu tenha me tornado jornalista para poder escrever. E que meu gosto por escrever tenha vindo da influência de Cecília Meirelles. Não sei quem se lembra do fato, mas praticamente tudo que estudamos sobre a poetisa no Ensino Médio nos diz que ela escrevia para combater a efemeridade da vida, em uma busca pela imortalidade. Eu gostava disso, da ideia de que podemos nos tornar imortais, eternos em nossas obras, e que nada melhor do que a escrita para isso. Mas, será mesmo? Por quanto tempo falarão de Cecília Meireles? Quanto ainda falam de Olavo Bilac, gênio de seu tempo e hoje criticado e quase esquecido por uma grande maioria? Por quanto tempo resistirão as obras de Shakespeare? Mil anos? Dois mil? E o que são mil anos para a eternidade?

Confesso que me incomoda a ideia de que nada que faremos, no final, servirá de alguma coisa. Por outro lado, ela abre outra porta: se nada que eu fizer valerá no final, eu preciso me apegar ao valor das minhas ações agora. Porque agora elas têm um significado, agora elas têm valor. Qualquer legado que eu deixe vai sucumbir ao tempo um dia, mas enquanto ele tiver efeito, ele terá valido alguma coisa. E me parece angustiante a ideia de que eu não estou fazendo nada. Que trabalhar como jornalista, relatando trivialidades e futilidades, assistir a seriados, comer e dormir não me parece o caminho para construir um legado, para fazer algo que impacte a vida das pessoas e o mundo. Cecília Meireles estava errada.

O futuro não me pertence, o presente sim, e é nele que tenho que me apegar. Não como um carpe diem, aproveitando ao máximo a vida enquanto for possível, mas como um fazê-la valer a pena. Trabalhar pelo mundo, pelas pessoas, pela sociedade. Permitir que outras pessoas reflitam como eu, e concluam que precisam se mover, trabalhar, pensar, moldar o mundo. Porque se o hedonismo absoluto parece a única alternativa do ponto de vista da eternidade, ele não gera nenhum legado, nenhum impacto, nenhum efeito. E pode não existir um conceito absoluto de viver, mas tenho certeza ser apenas um amontoado inútil de energia e átomos não deve estar na lista de possibilidades.

 

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Da arte de se explicar sem se explicar (ou Porque o #preçojusto não pode ser defendido)

“Em política, toda vez que é preciso explicar, não é bom.” (GUIMARÃES, Ulysses)

Não conheci Ulysses Guimarães. Ele desapareceu nas águas fluminenses quando eu ainda era um moleque, assistindo meus desenhos e perturbando meus pais. Mas conheci sua obra. Ulysses é uma das poucas unanimidades atuais entre políticos, jornalistas da área e gente velha em geral que viveu a década de 80 no Brasil. Hoje provavelmente morreria de desgosto ao ver o que seu MDB virou, é verdade, mas fez muito pelo país e pela democracia enquanto viveu. Tanto que virou nome do plenário do Congresso Nacional, local definitivo das decisões políticas do país. Foi por isso que escolhi uma de suas muitas frases para iniciar este texto. Ulysses sabia das coisas da política, principalmente da política real, do dia a dia. E, acreditem, ele estava certo ao dizer que ter que se explicar nunca é bom.

Passei os últimos dias debatendo aqui, neste mesmo espaço, algo que acredito errado: o manifesto #preçojusto e este vídeo, que encabeça a campanha. Não vou mais repetir os mesmos argumentos – já o fiz em dois posts e comentários em ambos, peço que os busquem no blog. Disponho-me agora a discutir o artigo que Felipe Neto escreveu defendendo seu vídeo e seu movimento no bacana Papo de Homem. O mesmo site, dias antes, havia feito algo semelhante ao que fiz, questionando em um artigo as ideias-chave por trás do vídeo e do manifesto. Por isso, nada mais democrático e justo do que oferecer o espaço. Eu faria o mesmo se meu modesto espaço tivesse o mesmo alcance ou interesse da outra parte. Isto posto, aproveito a oportunidade para dar prosseguimento (a pedidos) ao debate. E o farei separando o artigo por partes. Peço desculpas antecipadas, pois será longo.

Não sei se algum famoso já teve o mesmo raciocínio, mas acredito que nada facilita mais a manipulação de pessoas do que meias-verdades. Uma mentira absoluta é eventualmente descoberta e leva por terra tudo que conquistou. Uma verdade pode ser dura demais para a consciência. Já as meias-verdades são a chave para manter o apoio de um grupo, mas sem que eles cheguem efetivamente ao que interessa. E a mim me parece que esse manifesto é repleto de meias-verdades, assim como este artigo que o explica. Avanço a seguir.

Desde que foi lançado, o manifesto recebeu todo tipo de resposta possível, desde o amor desmedido e cegueira de pessoas que preferem acreditar em tudo ao invés de pesquisar e formar sua própria opinião, até o ódio igualmente descabido de quem se coloca sempre como “do contra” dentro da web e foi buscar dos mais sórdidos argumentos para tentar derrubar o manifesto. Tanto um extremo quanto o outro são igualmente rasos, mas fomentam um dos objetivos principais do #PreçoJusto, o debate.

Permito-me o plágio: nada disso faz sentido. É verdade que existem muitos fãs cegos que o defenderam com unhas e dentes, mas vi pouquíssimos “do contra” que tenha buscado argumentos sórdidos para tentar derrubar o manifesto. Os poucos que vi dispostos a contrariar a sério a mente de manada o fizeram com raciocínios sólidos, ainda que pudessem eventualmente restar inválidos. Mais: mesmo que essa situação existisse, não entendo como dois grupos tão rasos poderiam fomentar um debate qualificado sobre assunto sério como impostos. Afinal, é notórios que fãs e haters (como se acostumou a tratar o segundo grupo na Internet) se destacam justamente pela falta de raciocínio e agressão gratuita, sem qualquer preocupação com o assunto real. Que debate seria alimentado por tais pessoas?

Quando um manifesto é lançado, muito mais que simplesmente gritar a rebeldia, seu propósito principal é fazer com que o tema vire assunto. Pra mim, a maior alegria é ver uma massa consideravelmente grande de pessoas pesquisando, argumentando e debatendo o tema, uns atacando, outros defendendo, mas acima de tudo se informando. Somente assim inicia-se uma revolta: com informação e uma pitada de incentivo. O #PreçoJusto veio justamente pra isso, fazer com que milhares de pessoas se informem e, quem sabe, consigam enxergar o absurdo que encontramos dentro do cenário tributário brasileiro: a hiper-mega-extrema-absurda taxação desmedida de produtos importados no Brasil.

Em um aspecto eu não poderia concordar mais: o tema dos impostos é importante e complexo, e precisa ser discutido com toda a seriedade que lhe for permitida. Isso inclui, acima de tudo, se informar. E essa é a única concessão de mérito que faço ao vídeo do rapaz: o debate. Quanto à essa visão quase messiânica de fazer as pessoas enxergarem o exagero na taxação dos impostos de produtos importados… Não conheço nenhuma pessoa que tenha a intenção de adquirir esses produtos que não compreenda a lógica por trás do preço. É quase ofensivo pensar que as pessoas desconheçam a tal ponto a lógica de mercado. A população pode não ter consciência do raciocínio por trás dos impostos, é verdade, mas sabe de sua existência e de seu impacto. Usar dessa última ignorância como atalho para uma consequência prática poderia ser considerado, a meu ver, até má-fé, mas não farei nenhum juízo definitivo nesse sentido, pois não é meu papel.

Muitas teorias foram criadas acerca da criação do manifesto, desde o interesse por audiência (o que, se me permitem, “não faz sentido” pois ela já existe), passando pelo desejo egoísta de comprar um videogame (por favor…) e chegando até o cúmulo de tudo ser na verdade uma ação viral para propagar o jornal Brasil 247, então acho que cabe utilizar deste espaço para desmentir algumas bobagens. De cara deixo claro que não, não se trata de um viral.

Decidi criar o manifesto há cerca de 2 meses, quando, buscando temas entre o público do Não Faz Sentido, percebi que muitos reclamavam da questão dos preços de produtos eletrônicos no Brasil. Pesquisei bastante sobre a questão dos impostos e, ao observar exatamente onde iria atacar com minha crítica, fui atrás de pessoas engajadas e de alto conhecimento no assunto. Por isso, uni-me ao jornal Brasil 247, mais precisamente ao seu editor-chefe, Leonardo Attuch, ninguém menos que o ex-editor chefe da Isto É Dinheiro, um jornalista especializado em economia com profundo conhecimento, que não só auxiliou na elaboração do texto do Não Faz Sentido como mobilizou toda uma infra-estrutura para suportar o manifesto. Acreditem, mais de 330 mil assinaturas em 3 dias não é pra qualquer infra.

Não discuto os motivos que levaram à produção do vídeo e à adesão ao manifesto, porque não interessam à discussão. Poderia tê-lo feito a soldo que não me incomodaria se restasse um bom resultado. Discuto o produto em si. E parece-me que o autor pecou em seu caminho. Será que ele não percebeu, durante toda a pesquisa, as inconsistências econômicas em sua defesa exclusiva da redução dos impostos de importação? Não recebeu nenhum aconselhamento de seu respeitável mentor (nenhuma ironia aplicada) sobre preocupar-se com pelo menos citar a importância de uma reforma tributária completa? Não cogitou, nem por um segundo, avançar a discussão além do protesto simples e inócuo?

Aproveito para questionar mais uma vez, dada que a oportunidade da explicação foi perdida nesse sentido. O que essas milhares de assinaturas (já eram mais de 410 mil à época da produção deste texto) estão apoiando com seus CPFs? Que destino terão? Considera-se a possibilidade de liberar seu acesso ao público antes de ser oficializado, como o fazem até mesmo as malfadadas agências governamentais, ou a opção será pela absoluta falta de transparência? Volto ao manifesto, aliás, para o que parece ser uma resposta a minhas perguntas.

Plenário Ulysses Guimarães

Tudo vem parar aqui - e por isso seu voto é mais importante do que assinar uma petição online qualquer.

Em nenhum momento anunciei o #PreçoJusto como um projeto de lei, pois não o é. O manifesto é nada mais que… Um manifesto, cuja concepção da palavra é exatamente “uma declaração pública de princípios e intenções, que objetiva alertar um problema ou fazer a denúncia pública de um problema que está ocorrendo”. Nosso objetivo? Avisar a Brasília: o povo está puto com isso.

Conseguimos? Bem, ao que parece, estamos próximos. Os passos seguintes não dizem respeito a mim, pois o máximo que posso fazer é mostrar o problema, unir as reclamações e apresentar ao nosso Executivo e Legislativo – como pretendo, em breve, entregar a nossa Presidente. A partir daí, está nas mãos dos que nos representam e, se tudo der certo, conseguiremos uma representação ativa para abraçar a campanha (contatos nos bastidores já meio que garantem que iremos consegui-la… e forte).

Sabe o que manifesta uma opinião pública como nada mais faz? O voto. Ele é a ferramenta definitiva de manifestação popular, porque é a que tem efeito prático previsto em lei. Nada diz mais aos políticos que o povo está puto com algo do que eleger pessoas que concordem com essa opinião e relegar os contrários ao limbo. Essa é a força da democracia, sempre foi, sempre será. De resto, se isso é apenas um manifesto, para que servem as assinaturas? Para demonstrar apoio? Apoio a que? A uma redução de impostos? Sabe quantas manifestações já foram feitas e ainda serão pela redução de impostos – e veja bem, gerais, não apenas os de importação? Acredite, meu caro, nenhum político nesse país desconhece a irritação popular em relação a este tema. Não é a ignorância que leva nossos representantes à inércia, mas a falta de vontade. E a única ameaça a essa falta de vontade respeitada pelos nossos políticos é a do voto.

Imaginemos por um instante, no entanto, que essa carta de intenções atinja seu objetivo, e o protagonista do vídeo consiga entregá-la à Presidente. O que o leva a acreditar que isso seja levado à frente? Salvo engano, não faltam críticas a nossos políticos (muitas válidas) em todo o vídeo. Acreditam, esse um milhão de assinaturas virtuais, que mudarão a cabeça de eleitos por milhões reais? Alimentam, de fato, essa falsa esperança? De resto, faço pilhéria da atenção dada às informações “de bastidores”: o apoio (muitas vezes transformado em lobby) de grupos fortes da sociedade à causa tributária é provavelmente uma das coisas mais conhecidas e públicas da nossa política.

“Ora, mas tanta gente passando fome e você só quer saber de comprar seu videogame.”

Seguindo esse preceito, nós não podemos reclamar de rigorosamente nada no mundo enquanto há gente passando fome. Lembre-se disso quando reclamar que seu bairro está sem luz, ou sua rua está esburacada. Ora, tem gente passando fome, você não pode reclamar. Isso é uma grande bobagem.

Eu não sou o Bono Vox, meu público é exatamente consumidor de produtos de mídia e eletrônicos importados, o que eu fiz foi puramente atrelar um tema que gera insatisfação em massa no povo brasileiro e cruzar isso com o público alvo do Não Faz Sentido para ter força o suficiente para brigar por algo em Brasília… E, conforme já frisei no vídeo, esse é somente o primeiro passo: se o manifesto der certo (e tudo indica que já vai dar certo), o objetivo é ir além.

Não me peçam para, em meu primeiro manifesto, já querer resolver todas as mazelas que desgraçam o mundo. Eu não sou Jesus, nem Buda… E normalmente quem utiliza desse discurso superficial está sentado há anos em sua cadeira sem fazer rigorosamente nada.

Escola Pública

O dinheiro para a isenção fiscal vem dos cofres públicos, assim como o do investimento em educação.

É uma lógica tão tortuosa que tenho dificuldade em avançar. Já defendi em meu último post a questão do trade-off e porque existem, sim, prioridades. Concordo que seria uma grande besteira tentar rsolver todos os problemas da sociedade de forma linear, como numa fila indiana de prioridades. As questões sociais existem de forma paralela (principalmente na economia) e atrelada, de forma que isso seria impossível. Mas prioridades existem – e não vejo como uma questão de importação de eletrônicos para lazer possa ser considerada mais fundamental do que elementos como saúde, educação e segurança, só para ficar nas clichês. Parece-me, portanto, que houve na verdade uma convergência de interesses: o protagonista buscava a adesão fácil e o público buscava uma causa egoísta com que se identificasse. A preocupação social, no entanto, ficou de fora da equação.

Ainda sinto falta da transparência na informação sobre o “ir além”. E não vi ninguém pedindo que o protagonista resolva todos os problemas do mundo. Apenas acredito que, caso queira realmente ajudar, que ajude com as prioridades primeiro. Qualquer outra opção prejudica o trabalho sério.

Ao Raphael Gaudio e a todos que escrevem textos defendendo que os produtos importados necessitem de taxação para não prejudicar a indústria nacional, deixo três pontos:

1. Praticamente não há indústria nacional nos segmentos apontados.

2. Concordo que deve haver a taxação, mas numa medida justa, como no máximo 30%, não chegando aos 250% como vemos no Brasil.

3. Por mais besteiras que possa ter feito, se Collor tivesse seguido o pensamento de vocês, teríamos até hoje no Brasil somente eletrodomésticos de quinta categoria, brinquedos de arame e plástico fajutos e “carroças” no lugar de carros nas ruas. Foi justamente sua política de “abrir as pernas para os produtos importados” que fez com que o povo brasileiro saísse das péssimas condições dos produtos nacionais e revolucionasse a própria indústria brasileira, que foi obrigada a se adaptar ao alto grau de qualidade dos gringos.

O #PreçoJusto está aí, volto a frisar, para mostrar somente uma coisa aos nossos representantes em Brasília: estamos insatisfeitos com os altíssimos impostos cobrados em mídias e eletrônicos importados. Se você está feliz e acha justo pagar 200% a mais por um produto, ótimo, mas se você, como eu, fica indignado com esse estupro, já sabe onde assinar: www.precojustoja.com.br.

Enumero, para fins de facilidade, os argumentos opostos.

Capa de Veja - Março de 90 (Fonte-Arquivo Veja)

É esse o homem responsável pela industrialização do Brasil?

  1. Reduzir os impostos de importação trará essas indústrias para o país, gerando empregos e crescimento e barateando a longo prazo os produtos ? Ou permitirá tão somente que essas empresas ampliem seus lucros e movimentema economia de seus países, trazendo apenas uma falsa ilusão de prosperidade ao nosso? Qual é mais vantajoso?
  2. Se os impostos não afetam ninguém aqui dentro, porque os 30% são justos? Por que não a redução ao zero? Ou o argumento acima foi abandonado?
  3. A abertura econômica do governo Collor foi uma maneira de tentar evitar, num ação desesperada e mal-planejada de curto prazo, os fracassos repetidos dos planos econômicos que conseguiram rapidamente chegar ao confisco da poupança, aprofundamento da recessão econômica, extinção de postos de trabalho e hiperinflação. O resultado nada mais foi do que uma enxurrada de produtos importados para quem podia pagar – e deterioração das condições de vida do resto. A volta da industrialização foi na verdade obtida com muita dificuldade ao longo dos governos seguintes, que trabalharam pela estabilidade econômica.

Por fim, lamento a falsa dicotomia criada no final e vou pela terceira opção, do trabalho sério e silencioso pela conscientização, educação e informação. Eu não estou feliz com o imposto que pago nos produtos eletrônicos que eventualmente eu queira comprar, fico indignado, mas não assinarei meu nome em nenhum manifesto de objetivo vago e origem obscura. Afinal, como já dizia o próprio Ulysses, “em política, até raiva é combinada”.

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Por que Felipe Neto está errado

Toda vez que surgia um problema no trabalho, eu procurava o chefe para avisá-lo. Após o meu diagnóstico da situação, a resposta era sempre a mesma: “e o que faremos?” Eu ficava indignado com a pergunta (ELE é o chefe, ELE deveria me dizer o que faríamos), mas um dia ele me explicou a lógica. “Você é um integrante da equipe”, ele disse, “e como tal eu precisarei de você em qualquer solução pensada. Se você não for capaz de sugerir algo a se fazer nesse caso, você não pode me ajudar como eu espero”. Em síntese: ou você pensa em uma solução para o problema ou você é mais uma parte dele.

Lembrei disso quando assisti o vídeo abaixo. Para quem não reconhece o protagonista, o nome é Felipe Neto (@felipeneto), vlogueiro famoso de um ano pra cá. O moço caiu nas graças de uma parte do Twitter e se cacifou suficientemente para garantir espaço na TV e algum dinheiro. Nenhuma surpresa: o que ele faz é basicamente pegar assuntos do cotidiano ou personalidades e traçar comentários engraçados/revoltados repletos de palavrões sobre o tema. Ou seja, stand-up comedy para uma câmera. E não chega a ser ruim nisso não.

O tema da vez foi a campanha #PrecoJusto. Aqui você pode ler o manifesto da campanha. Eu poderia analisar trecho por trecho o texto, mas prefiro acreditar que os leitores são capazes de fazer isso sozinhos. Já quanto ao assunto e à abordagem, principalmente no vídeo, faço questão de me manifestar devido à repercussão que obteve na rede.

Todo mundo quer impostos mais baixos? É claro. Ninguém gosta de pagar imposto. É provável que seja esse o motivo do nome – se se chamasse “voluntário” o governo provavelmente iria à bancarrota. Você não vê ninguém defendendo a quantidade de impostos cobrada hoje, ninguém argumentando que a carga tributária nacional é baixa. Mas, convenhamos, xingar muito no twitter não resolveu problemas públicos recentes (quem se lembra do #forasarney?) e não vai resolver agora. Gritaria e petição online por “menos impostos” são uma pseudosolução infantil e simplista. O Ficha Limpa começou assim, é verdade, mas contou com muito mais movimentação real e com objetivos claros e específicos desde o início. Não vi em lugar algum do site sequer uma sugestão de o que as pessoas que apoiam a causa estão defendendo na prática. Só falam em “medidas necessárias para que enxerguem a manifestação” e um possível futuro projeto de lei. Que vai dizer o que? “Ficam cancelados os impostos sobre jogos de videogame importados”? Sério?

Reduzir simplesmente os impostos aplicados sobre produtos importados (proposta deste surreal protesto) como videogames e jogos seria abrir as pernas do país à indústria exterior e um direto enfraquecimento da indústria interna. Você pode não querer comprar nada feito aqui e ficar feliz com o que vem de fora, mas aquela indústria que fecha por não conseguir competir com o produto estrangeiro significa menos empregos, menos arrecadação, menos crescimento. É um círculo vicioso e destrutivo para a economia. Reduzir as barreiras a uma importação maciça sem contrapartida de fortalecimento da competitividade interna é caminho rápido para um suicídio econômico.

Impostos têm um motivo para existir: a sobrevivência do Estado. O Estado também tem um motivo para existir, e seria ousadia minha reduzir toda uma literatura de séculos sobre o assunto em uma frase simplória. Mas todo mundo sabe que são os impostos que permitem o investimento público em áreas como educação, saúde e segurança. São setores precários no Brasil? Certamente. A corrupção e os desvios têm sua parte de culpa nisso? Sem dúvida. Então podemos pagar menos impostos, já que não serão mesmo investidos? Nem de perto.

(Foto: Arquivo - Câmara dos Deputados)

Você sabe o que os parlamentares que você elegeu pensam da reforma tributária?

O que prejudica a aplicação dos nossos impostos, tanto quanto os desvios que devem ser combatidos, são os problemas estruturais. Nossa legislação tributária consegue ser ao mesmo tempo redundante e falha, nossa fiscalização para evitar a sonegação só começou a melhorar recentemente, setores importantes são bitributados, entre outros problemas. Mesmo assim, a famosa reforma tributária nunca engrenou por um misto de miopia dos governos estaduais, preguiça do governo federal e desinteresse do Legislativo. Isso sim merecia uma revolta e protestos, mas quem quer se arriscar em um assunto complexo como esse quando você pode simplesmente maldizer os políticos e babar pelos cantos?

A mensagem, depois de tanto economês: não se coloque no papel de uma criança mimada que pede algo aos pais e, diante da impossibilidade, esperneia e grita. Seja o adulto que, diante de uma negativa, pensa e argumenta. Gritar pelo motivo errado não só é inútil como prejudicial, porque desperdiça força que poderia ser aplicada à causa certa. Quer menos impostos em seus produtos? Vote em quem defenda e lute por uma reforma tributária, acompanhe o trabalho de seu representante, faça campanhas de esclarecimento. Exija que os impostos hoje cobrados sejam devidamente empregados, principalmente na educação – gente educada é gente informada que sabe contra o que gritar e por isso tem muito mais força. Faça isso mesmo que você não possa (ou não queira) sair da frente do computador – o Brasil progrediu muito nos recursos virtuais de transparência governamental. Monitore. Denuncie.

Acredite: só isso já faria que aos poucos todos os impostos (não só os de produtos supérfluos como jogos e videogames) caiam e, mesmo que não diminuam muito, possam ser pagos por todas as camadas da sociedade com mais tranquilidade. E isso, meus amigos, é ser parte da solução.

Atualização de 03/05: àqueles que leram o artigo dele sobre as críticas ao manifesto no Papo de Homem, minha análise está aqui.

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