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As Cousas do Mundo (e seu eterno retorno)

Andei lendo Nietszche, e nada de bom pode vir disso, mas não vem ao caso. Só cito a questão porque lembrei, enquanto lia sobre a teoria do Eterno Retorno, da atualidade de algumas coisas que se repetem no Brasil com mais frequência do que deveriam. E vão continuar se repetindo, pelo andar da carruagem. Abaixo, Gregório de Matos – poeta maior e ídolo pessoal – elucida meu raciocínio com seu texto, acreditem, do século XVII.

As Cousas do Mundo

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

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Sonetinho

O clima pesou um pouco recentemente aqui no blog. E por isso, como prometido, hoje tem poesia! Adianto que não manjo nada do assunto, sou talvez das mais prosaicas pessoas que vocês conheçam. Mas decorei dois poemas em toda a vida: um de Camões (que já coloquei aqui no blog uma vez – em um contexto jornalístico, eu juro) e o Soneto de Fidelidade, do poeta e boêmio maior Vinicius de Moraes. Qual não foi, portanto, minha surpresa em perceber que este último, com algumas heréticas adaptações, pode tranquilamente nos fazer lembrar de uma situação das mais cotidianas. Deixo portanto abaixo minha versão. Espero que se identifiquem e usem, à vontade, quando a situação lhe ocorrer. Pode declamar mesmo, com todo o pulmão. O original está aqui.

Soneto (do plano) de fidelidade


Em tudo a ti, amigo, recorro e tento

Antes, e com tal medo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior desconto

Dele se enoje mais meu pensamento


Quero vivê-lo, mas é vão tormento

Sempre na linha, espero e canto

Nervoso riso, sarcasmo, pranto

Por seu pesar ou seu entendimento


E assim, quando mais tarde eu procure

Talvez  Procon, angústia de quem vive

Quem sabe a Justiça, fim de quem clama


Eu possa lhes dizer do que obtive

Que não funciona, pois nunca chama

Mas cobra em dia enquanto dure.


(Marcelo Parreira / Vinicius de Moraes)

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