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“Push” é “empurre”

Tem 15 dias que eu estou morando em Nova Iorque (assim mesmo, Nova Iorque, tenho preguiça de ficar misturando grafias em outros idiomas no meio das frases, if you know what I mean). É coisa temporária, até maio, porque por alguma dessas coincidências do Universo eu ganhei uma bolsa de estudos para um período por aqui estudando economia internacional (não entendo nada do assunto, mas estou aprendendo aos poucos). Enfim, tive mais sorte que proatividade (como 90% das vezes em que me dei bem na vida) e tô aqui.

É esquisito como a gente imagina que vá ser. Esse negócio de estar o tempo inteiro cercado de gente falando um idioma que não é o seu dá um nó na cabeça da gente. Estou falando, é claro, dos chineses que estão invadindo aos poucos os Estados Unidos. O Trump está preocupado com os refugiados do Oriente Médio porque não deve andar pelas calçadas da cidade, mas eu juro que tem dias em que ouço mais mandarim do que inglês. Não estou criticando, só estou constatando o fato de que, como o Veríssimo previu, vai ter um dia chineses em que o pessoal chineses do país do chineses dragão vai chineses ocupar chineses até as chineses frases chineses…

Mas como eu ia dizendo, é tudo muito esquisito, é tudo muito diferente. O que mais resume a experiência pra mim são as instruções nas portas. No prédio em que estou morando (graças ao câmbio, estou pagando por um quarto na casa de uma senhora muito simpática o que eu pagaria para morar numa mansão em Brasília), são 3 portas até chegar ao elevador. As duas primeiras são abertas puxando. A última, empurrando – e é aí que eu me enrosco. Porque “empurre”, em inglês, é “push”. Nas três primeiras vezes que passei por ali, enfiei a cara no vidro (numa delas, a vergonha foi pública porque tinha um vizinho – chinês, obviamente – por perto, e o maldito não pareceu minimamnte interessado em segurar o riso. A essa altura, já deve ter espalhado pelo prédio inteiro). Agora, toda vez que chego à porta me vem o mesmo pensamento, permanente: “push é empurre”.

Estar aqui é meio que isso, só que o tempo inteiro, com tudo. Não é só o idioma que é diferente, é tudo. Os costumes. O humor. A etiqueta. A hora de atravessar a rua, o jeito de atravessar a rua, a rua, o R. De repente, eu saí de um Universo em que tudo ou quase tudo era automático pra mim, quase mecânico, para uma situação em que o mais banal pode demandar um segundo, cinco, dez ou até mais de reflexão. Devo me despedir de alguém que acabei de conhecer com um abraço? (Resposta: não, o mais provável é que você tente, a pessoa não entenda ou não concorde e um momento constrangedor surja) Devo fazer uma pergunta na aula? Como pedir o prato? Como eu explico que não entendi o que o vendedor está oferecendo após a quarta vez em que ele repete sem parecer surdo ou recém-saído de um coma?

Eu presumo que esta sensação passe – o que explicaria os brasileiros que, morando aqui há menos de um ano, aparentemente têm uma dificuldade em não incluir “dear” nas frases. Mas não deixa de ser interessante como um exercício antropológico (ou seria psicológico?) notar o quanto dependemos do nosso piloto automático – e o quanto ele é um produto do meio em que estamos. O idioma é a barreira mais óbvia – as minhas piadas, que já são ruins em português, estão consideravelmente piores na versão traduzida – mas todo o resto colabora.

É claro que tem um lado positivo, ou pelo menos pretensamente positivo. Se você reflete sobre o que está fazendo, falando e abraçando, as chances de um vacilo distraído são menores. Racionalizar todo e qualquer comportamento pode parecer algo que te torna mais frio e lento, mas permite avaliar melhor as situações – e muitas vezes isso vai te tirar de belas enrascadas. Sem falar que, pelo menos por um curto espaço de tempo, você ganha a vantagem de poder mandar um “la pregunta?” (ou a versão em inglês disso) e ganhar tempo para pensar. Acredite, pode salvar seu dia e sua reputação – a menos que tenha um maldito chinês perto da porta quando você enfiar a cara no vidro.

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Eu, 80% do tempo.

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Um conto eleitoral

A mãe de Ebenezer acreditava em numerologia, e era essa a explicação que o rapaz repetia, num suspiro de lamentação, quando perguntavam o motivo do nome exótico. Já Ovelha não era sobrenome, mas sacanagem mesmo: Ebenezer ganhou a alcunha de um desafeto na faculdade, que ria do garoto distraído que vivia seguindo os amigos onde quer que fossem. No começo foi um problema, mas quando o apelido pegou, ele desistiu de brigar – se todo mundo usava, alguma razão havia de ter.

Era nisso que o entediado Ovelha pensava na noite de 4 de outubro. Mentira, ele não pensava nisso. Sequer sabia se pensava. Distraído por algum vídeo de gatos no computador, evitava há três dias qualquer uma das infinitas páginas carregadas de debates políticos que dominavam a internet. Ebenezer odiava o período eleitoral: quanto mais perto do dia da votação, mais os ânimos se acirravam, mais debates surgiam e o pior, mais pediam sua opinião. Ebenezer odiava dar sua opinião. Ebenezer odiava ter uma opinião. Se pudesse, o jovem abriria mão do livre-arbítrio, mas quando foi questionado sobre um professor acerca do que pensava do livre-arbítrio, fingiu uma diarreia e saiu de sala.

Era sobre isso, portanto, que não pensava Ebenezer quando a luz de seu quarto se apagou. Maldizendo mais uma vez a empresa de energia, começou a procurar por uma lanterna nas gavetas quando ouviu um assobio gelado vindo da janela. Enquanto os cabelos da nunca do rapaz se eriçavam, um festival de luzes pipocou por todo o quarto, até se juntarem em uma única imagem. Era seu tio, Roberto.

 

– Porra, tio, susto do cacete. Que que tu tá fazendo aqui?
– Te visitando, garoto. Mas você não está esquecendo de nada?
– Tipo o que?
– Que eu estou morto, por exemplo?

 

Era verdade. Ebenezer deu um pulo pra trás, com o susto de ver o tio morto há pouco menos de um ano, ali, na frente. Depois de improvisar um esconderijo medíocre atrás da cômoda, voltou a criar coragem de olhar em direção às luzes. Seu tio ainda estava lá, com cara de entediado.

 

– Acelera, garoto, não tenho todo o tempo do mundo. Vim aqui só pra te dar um aviso. Tu ainda é chamado de Ovelha pela molecada do teu colégio?
– Faculdade agora, tio. E sou.
– Pois isso muda hoje. Mexi uns pauzinhos lá em cima e consegui autorização para te darem uns toques. Chega dessa vida de seguidor. Se prepara que hoje a noite vai ser animada.

 

Ebenezer preferia não ter ouvido aquilo. O conceito de animação de Roberto sempre fora diferente do seu: o tio adorava desfiar um repertório de manifestações da qual tinha feito parte ao longo da vida. Diretas Já, caras pintadas, basicamente qualquer protesto que envolvesse gritaria e bate-boca. Até nos jantares de família, Roberto era conhecido por manifestar opiniões até contrariar alguém. Morrera justamente por conta de um infarto ao saber que uma manifestação no Rio havia levado 1 milhão de pessoas às ruas.

 

– Então, tio, não vai rolar. Tenho uns trabalhos de faculdade e…

 

As luzes ficaram mais fortes e a voz do tio se tornou um trovão.

 

– Não tente fugir, Ebenezer! Saiba que nenhum arrependimento está à altura de uma oportunidade perdida. E é disso que se trata tudo isso: oportunidades! Amanhã você terá uma oportunidade, e uma oportunidade à qual você tem renunciado há muito tempo. Não mais!

 

E sumiu como havia chegado, com a luz voltando a ocupar o quarto aos poucos e um assobio gelado saindo dos pêlos de Ebenezer em direção à janela entreaberta. O garoto esfregou os olhos, viu os gatinhos na tela do computador e concluiu que estava delirando. E tudo isso sem fumar nada! (ele não consumia nada ilegal, mas preferia evitar uma opinião sobre a legalização das coisas)

Ovelha lamentaria ter tirado uma conclusão sobre o delírio pouco depois. Quando mudava dos gatinhos para uma pornografia básica, sentu novo arrepio. A luz de seu quarto mudou aos poucos, assumindo um tom azul. Ouviu um farfalhar de asas, e por baixo da porta entrou um pó branco, que aos poucos assumiu uma forma éterea. Ebenezer tossiu, nervoso, ao ver diante de si uma criatura meio homem, meio pássaro, com um longo bico.

 

– Ebeneeeezer! – a criatura ecoou bem o meio do nome, para parecer mais profético- Eu sou o espírito do governo passado!
– Mas hein?
– Sim, o espírito do governo passado!
– E o que eu tenho com isso?
– Tuuuudo, Ebenezer! Pois eu estou querendo voltar! E dependo de você para isso!
– Mas pra que você quer voltar?
– Para desfazer os males do presente, Oveeeelha! Para retomar os Fundamentos da economia, defender a Honestidade e os valores do Capitalismo de mercado!
– Isso parece bom. Mas o Luizinho vive dizendo que vocês acabaram numa crise econômica, que seu partido tem pelo menos três escândalos recentes e a desigualdade de renda está caindo agora em comparação à sua época?
– Não se susteeeeenta, Ebenezer! É preciso mudar o que está aí! Lembre-se diiiiisso!

 

Enquanto ainda ecoava a última frase, o espírito voltou a se desfazer em pó e se dissipou pelo quarto num vento que sibilava baixinho “Armíiiiniiiio”. Ovelha sentiu um frio na espinha, mas já estava sentindo frio na espinha desde o começo de toda aquela palhaçada. Nem se incomodou.
Após todo o espetáculo, as coisas nem chegaram a voltar ao normal. No quarto escuro, ainda atordoado pelo que acontecia, o rapaz ouviu batidas na porta. Uma. Duas. Ebenezer não queria abrir. Quatro. Sete. Na décima terceira, Ovelha não aguentou e abriu.

A figura que entrou era, por falta de definição melhor, exótica. Meio curvada, coberta por um manto escarlate, se arrastou lentamente para dentro do quarto. Arrastava pesadas correntes, na qual o garoto leria “Material genuinamente brasileiro” se não estivesse num breu completo, como se faltasse energia. Ao fim das mesmas, um poste impedia a criatura de se mover mais rapidamente. Até que ela desistiu. Sem levantar a cabeça, começou a falar. A voz soava hesitante e levemente irritada.

 

– Ebenezer, você sabe quem sou eu?
– O fantasma do governo presente?
– Como é que você sabe?
– Eu li Dickens na escola. O que você quer?
– O que todo mundo quer. Seu voto.
– Mas por que eu votaria em você?
– Olha, no que se refere a governo, o meu foi o melhor. Bom, juntando o meu e o do meu antecessor. Eu segurei a economia na crise. Bem, eu e meu antecessor. Cuidei do social. Bem, eu e meu antecessor. Tirei milhões da miséria, botei médico nos hospitais do país todo. Esses fui só eu!
– Mas se você cuidou da economia, porque todo dia meu pai reclama que a comida está mais cara? E olha que meu pai votou em você e no seu antecessor! Fora que o Zé me contou que vocês tiraram da miséria mudando o critério de miséria. Pô, aí, até eu. Posso passar de ano reduzindo a nota mínima?
– Meu filho, olha aqui. O IPCZB-2 de junho caiu zero vírgula dezoito pontos percentuais. Isso prova que a economia está se recuperando da crise internacional causada pela seca de gols na Copa. Agora larga de ser pessimista e vota na gente, tá bem?
– Sei não, sabe? O Fernando estava mó revoltado ontem, falando que vocês estão aí há muito tempo, abraçados com todo mundo das antigas, que talvez seja hora de mudança…

 

A aparição soltou um grito medonho. O vizinho da direita diria no seguinte ter sido “João”, mas o da esquerda garantia ser “Santana”. Enfim, para que servem os vizinhos?

 

– Não diga isso, meu querido! Você não sabe o risco de aparecer alguém sem experiên…

 

E antes que acabasse a frase, um fio entrou pela janela e começou a rodear a aparição. Depois outro, e mais um. Parecia algo reciclado, meio orgânico, mas estava escuro e nem a aparição nem Ebenezer quiseram arriscar o que era exatamente aquilo. Por fim, os fios começaram a chegar às centenas, lentamente enredando o fantasma do governo presente. Que resolveu ir embora antes que começassem a surgir perguntas.

Aos poucos, a rede começou a tomar forma. Era uma figura humanóide fininha, com voz de balão hélio. Sua coloração oscilava entre o vermelho e o azul, dependendo da luz que batesse. Às vezes amarelava. Ovelha achou que tivesse ouvido música gospel enquanto tudo acontecia, mas poderia ser o vizinho da esquerda. O que tinha ouvido Santana.

 

– Ebenezer! Você me chamou?
– Eu não chamei ninguém, vocês que insistem em vir aqui. Por mim, nem votava. Você é…
– O fantasma do governo futuro!
– Eu ia chutar o fantasma das manifestações passadas.
– Quase! Eu fui invocada pelo desejo de mudança geral! Foi providência divina!
– Acuma?
– E então, tenho seu voto?
– Não sei. O que você defende pra economia?
– Um pouco de liberalismo, um pouco de intervencionismo. Onde for preciso.
– O Giba disse que essa conta não fecha, os dois são muito diferentes. E nas alianças?
– Governar com os melhores de ambos os lados.
– Credo, mas é tudo nessas ideia de opostos?
– Não é polarização. Eu só acho que precisamos esquecer a velha política.
– Mas aí quem vai governar com você?
– Os melhores dos partidos.
– Dos partidos da velha política?
– Sim.
– Dos mesmos caciques?
– Isso.
– Hum.
– E então, tenho o seu voto?
– Quase. Só me diz mais uma coisa, e eu vou formar minha opinião sozinho, pela primeira vez na vida. O Timóteo, que trabalhava pro meu tio, é um gato. Estou pensando em dar uma ligada pra ele e tal. Se rolar, no futuro, eu e ele poderemos nos casar e ter dois filhos e um cachorro?
– Errr…
– Poderemos?
– Peraí, deixa eu puxar minha Bíblia aqui. Vamos ver… (folheando ao acaso). Aqui, Levítico, 20:13. Hum. Hummm. Então. Acho que tô com um problema de revisão aqui no meu exemplar. Posso te retornar em janeiro?

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Testemunho

Não sei se isso realmente ajuda. O terapeuta diz que sim, mas eu acho que ele só quer meu dinheiro. Ele diz que contar nossas histórias para as pessoas, ajudá-las a não cometer os mesmos erros que cometemos, é bom para o carma. Pessoalmente, acho esse papo de carma uma tremenda viadagem, mas enfim, por algum motivo eu estou pagando o cara, então é melhor fazer pelo menos alguma coisa que ele diz, certo? Só que eu não sei como começar. Acho que a gente nunca sabe exatamente porque essas coisas acontecem. Tem gente que diz que é em casa, quando os pais se descuidam e deixam a gente sozinho. Pode ser. Se não tem ninguém pra criar a gente, o mundo cria, né?

A primeira vez foi quando eu tinha uns 14, 15 anos, sei lá, uma dessas idades em que a gente faz de tudo para ser aceito na galera, sabe? Era uma rodinha do lado de fora da escola, numa pracinha que tinha perto do colégio. A gente tava falando de vestibular, eu acho, quando a Marcinha – que tinha pai militar, linha dura e tal – sacou do nada um “racismo às avessas”. Ficou todo mundo meio assustado e tal, ninguém ali nunca tinha ouvido nada assim, em público, no meio da rua. Mas ela estava nem-te-ligo, passando a bola pra quem quisesse. Acabou sendo o Freitas, que era afim dela. Ele emendou um “não sei porque eu tenho que sofrer, não escravizei ninguém” tão fundo que eu achei que fosse passar mal. A galera calou na hora, mas dali a pouco entrou todo mundo na onda, um pouco com medo de ser considerado covarde, um pouco porque, sei lá, fazia sentido. Acho que foi a primeira vez que eu perguntei quando iam criar cotas para brancos.

Não deu um mês e já tinha virado hábito. A galera marcava de ir tomar um sorvete no parque, pegar um sol , e aproveitava para falar dos viadinhos que se beijavam na beira do lago. A Marcinha, que tinha apresentado o esquema pra gente, era sempre quem trazia a parada pra galera: lei anti-homofobia, feminismo, Bolsa-Família. Eu lembro que o dia do aborto foi pesado, porque a galera entrou numa bad trip e teve alguém que mandou um “deu, não deu? Agora cria!” perto de uma moça com óculos modernosos que lia num banco. Achamos que ia rolar denúncia, mas ela só bufou e olhou pro lado, como quem dissesse “onde o mundo vai parar?”. O preconceito é foda, irmão.

Eu gostava de curtir com a galera, mas comecei a achar que era pouco. Sei lá, eu ficava sozinho em casa, papai dava aula na faculdade o dia inteiro sobre aquelas porcarias de índios, mamãe ensinava artes numa escola infantil, e eu não tinha nada pra fazer a tarde inteira. Um dia, criei coragem e liguei pra Marcinha, pedi para ela me dar umas dicas sobre onde conseguir um material de primeira. Ela riu e disse que apareceria na minha casa em meia hora.

Ela já chegou com umas quatro ou cinco revistas embaixo do braço e um livro que eu tinha até medo de perguntar do que se tratava, parecia coisa da pesada. Fomos pro quarto e ela me explicou como tudo funcionava: porque eu tinha mais direito que os outros, porque o governo não devia se meter na minha vida (a menos que eu fosse assaltado) e porque só quem paga seus impostos merece respeito. Cara, eu eu ouvia “cidadão de bem” e minha mente viajava. A Marcinha percebeu que eu tava na dela, e resolveu me introduzir no livro: era do Olavo, coisa fina. Fiquei tão empolgado que acabamos nos pegando ali mesmo, enquanto ela gemia baixinho no meu ouvido “Tradição, Família e Propriedade”.

Daquele dia em diante, nada mais importava. Concluí o Ensino Médio sem vontade e tomei pau no vestibular (a gente sabe por culpa de quem, né?). Acabei convencendo papai a pagar meu curso de Relações Internacionais na mesma faculdade da Marcinha, e sem Prouni! Hoje me pergunto se esse não foi um dos grandes erros que cometi na vida (a faculdade, não ter ficado fora do Prouni). Meu namoro com a Marcinha ia de vento em popa, e a gente passava o dia na faculdade filosofando. Não demorou para acharmos uma galera da nossa, né? Tinha até um guri de juventude partidária, mas eu sempre achei que era pesado demais até mesmo pra mim. A Marcinha curtia.

Enquanto isso, eu continuava me afundando cada vez mais em casa. Fiz assinatura de revista, meti um poster do Reagan na parede e comecei a bater boca com meu pai por conta de meia dúzia de selvagens atrapalhando a agricultura no Mato Grosso. Minha mãe reclamava dos meus olhos vermelhos de madrugadas lendo blogs apócrifos e eu jogava na cara dela que ela não tinha sido contra um aborto da minha tia na adolescência. Meu pai cortou minha mesada quando descobriu que eu tinha comprado toda a bibliografia do Olavo pela internet, e eu tive de vender meu iPod para comprar os dois do Reinaldo. Acabei saindo de casa e fui acolhido pela Marcinha e pelo pai dela, coronel Ferraz, que entenderam minha situação – o coronel só deixou claro que sexo, só depois do casamento (com a Marcinha, no caso).

Eu tentava me reconciliar com meus pais, mas ficava cada vez mais difícil. Meu pai viu minha foto na Internet na Marcha do Orgulho Hetero, Branco, Cristão e Ocidental e parou até de atender minhas ligações. Meu único canal era minha mãe, que meio que me aceitava do jeito que eu sou. Ela dizia que ia conversar com meu pai, que éramos dois cabeças-duras, e que faria o possível, mas que eu precisava pegar leve. Aceitar que às vezes as pessoas pensam diferente, e que o consenso é possível, e que os dois lados podem ter razão. Mamãe tinha um coração bom, e me amoleceu. Voltei a conversar com meu pai sobre outras coisas – futebol, principalmente – e aos poucos voltamos a nos falar. Retornei pra casa um ano depois.

Só que foi tudo por água abaixo quando eu peguei a Marcinha com o carinha da juventude partidária discutindo a refundação da legenda da ditadura. Aquilo era demais. Ela tinha me prometido que pegaria leve, tinha me dado apoio quando eu parei de falar para as pessoas que não era racista porque até tinha um amigo preto (era mentira, não tenho amigos pretos), disse que me aceitava se eu ficasse careta. Todo aquele papo… para isso? Não, eu precisava mostrar que continuava o mesmo, que podia ser hardcore. Acabava ali a época da conversa suave, era hora do grande porrete.

Saímos com a galera para um rolê no centro da cidade e eu resolvi mostrar que palavras são bonitas, mas são as ações que demonstram coragem. Vimos um casal de bichas de mãos dadas saindo de um prédio e começamos a xingar, como sempre, mas eu fui além: peguei uma lâmpada que estava num saco de lixo e dei na cara de um dos dois. Fez um talho fundo, o sangue jorrou e o namorado dele começou a gritar. Olhei pra trás e minha galera tinha fugido, quando olhei pra frente já não tinha como fugir da polícia. Acabei sendo levado pra delegacia, mas mamãe implorou, negociou, chorou muito e não fui preso. Pior: tive de pedir desculpas e aceitar participar de seminários sobre diversidade. O que só prova que essa lei só serve para proteger vagabundo mesmo.

Quando eu voltei pra casa, tinha um recado da Marcinha terminando tudo – ela não podia sair mais com um bandido (que, afinal de contas, só é bom morto). Papai tinha ficado tão envergonhado de mim que aceitara um convite para uma excursão a Belo Monte (espero que não cancele a obra por causa dos xingus, o país não pode parar). Só mamãe continua me amando, incondicionalmente.

Hoje, sou apenas uma sombra do que fui no passado. Encaminho piadas do Lula por e-mail, correntes sobre o Bolsa-Presídio, mas não tenho ânimo para espalhar a foto do “Cotas? Não, obrigado. Eu estudei”. Desanimei, acho. Fico pelos cantos, como esse povo beneficiado pelo assistencialismo do governo, sem fazer nada e sendo sustentado por alguém que trabalha duro. Xingo blogueiros sujos na Internet sem perceber que somos iguais, um bando de malucos pegando pesado e se matando todo dia na Internet por pessoas que não ligam pra gente. A verdade é essa, e o pôster do Reagan na parede me diz isso com todas as letras, mesmo sem ter nada escrito: eles não ligam pra gente.

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Corrente

ATENÇÃO, NOVO GOLPE NA PRAÇA! Galera, só repasso porque chequei! ESPALHE PARA AJUDAR NOSSA SOCIEDADE

Se você tem carro e para frequentemente em semáforos, MUITO CUIDADO! Um novo golpe está sendo dado em todas as capitais do Brasil!

Começa como se fosse mais um malabarista desses de semáforo normais. Pouco depois no entanto, chega um cuspidor de fogo! (Sim, como nos circos!) Os dois começam a fazer o show juntos, e é tudo muito divertido, até que um dos malabares é atingido pelo fogo e cai sobre o capô do seu carro! Você fica assustado e vai ver o estrago, enquanto os dois pedem desculpas.

É AÍ QUE MORA O PERIGO! Neste exato momento, um macaco vestido com roupa de balé, treinado pelos golpistas e que até então estava fora do seu campo de visão, entra no seu carro pelo teto solar (ou pela janela, se seu carro for mais simples e não tiver teto solar) e pega TODOS OS SEUS PERTENCES. Em algumas cidades, vítimas relataram não ser um macaco, mas um anão vestido como se fosse ser atirado de um canhão, mas não há confirmação pela polícia. Quando você volta ao carro, os golpistas fogem e você descobre que foi roubado. POR ISSO, ATENÇÃO!

Renato Ramalho, de Fredonha (MG), caiu no golpe. Ele conta que “parecia um circo. Inclusive era uma moça que soprava o fogo, muito bonita, como essas artistas da Globo, mas meio sujinha. Parecia aquela Juliana Paz”, disse. Além do som do carro, o macaco levou sua carteira e seu Hiphone 6 novo, que ele havia parcelado em 10 vezes sem juros.

Já Lu Ferraz, que mora em Piá Mole (RS), diz que até viu o macaco, mas que achou que era parte do número. “E ele tava tão bonitinho no colantezinho rosa”, disse. Ela perdeu a bolsa e um batom novo que sua tia trouxe de Nova York. “Foi tão caro, e eu perdi porque não dão segurança pra gente! E o Sarney lá, no Congresso!”

Recebi este alerta por e-mail de um delegado da Polícia Civil de Cambraia do Sul (RR), dr. Fonseca, que também deu algumas dicas sobre como evitar o golpe:

– Não pare em semáforos, mesmo que estejam vermelhos!
– Se encontrar um malabarista de rua, ataque-o com o que estiver à mão. A polícia não pode te prender se for um ataque preventivo!
– Se encontrar um cuspidor de fogo, use um extintor e apague-o imediatamente. A polícia NÃO PODE te prender se for um ataque preventivo!
– Sempre ande com bananas no carro! (O macaco vai preferir as bananas a seus pertences)
– Não repasse falsas correntes de alertas por e-mail ou redes sociais!

COMPARTILHE SE VOCÊ SE PREOCUPA COM SEUS AMIGOS, FILHOS E COLEGAS DE TRABALHO DOS QUAIS VOCÊ NEM GOSTA TANTO ASSIM, MAS FICARIA ENVERGONHADO SE ELES FOSSEM VÍTIMA SENDO QUE PODERIAM TER SIDO ALERTADOS POR VOCÊ ACERCA DA POSSIBILIDADE. E O PIOR: ELES FICARIAM RELATANDO A HISTÓRIA REPETIDAS VEZES NA SUA FRENTE, ATRAPALHANDO O SEU TRABALHO E ATRAINDO A SIMPATIA E COMPAIXÃO DA NOVA FUNCIONÁRIA BONITINHA E AÍ JÁ VIU, NÉ?

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Encanado

Shakespeare não escreveu sobre encanamentos. Não sei até onde isto foi causado pela ausência de encanamentos propriamente ditos no século XVI ou se por um descuido do bardo, mas, até onde eu conheço da obra do inglês – não é muito, admito a falha de caráter -, não me lembro de referências a encanamentos nas obras dele.

Uma mancha na biografia do homem, digo eu. Quem passa por dificuldades nessa área no cotidiano acaba se deparando com material riquíssimo, matéria-prima de primeira grandeza para produção literária, posto que são praticamente metáforas fechadas para a vida – e era para um grande autor como William (posso chamá-lo de Bill? Melhor não, né?) ter notado isso. Espero que o problema seja mesmo o fato de que “encanamento” à época dele  fossem basicamente buracos no chão, que ainda assim talvez merecessem pelo menos um papel secundário em Sonhos de Uma Noite de Verão.

Voltando aos canos e aos problemas: não é difícil reconhecer a relação dos mesmos com a vida – se bem que, com algum esforço, não é difícil associar qualquer objeto a algum aspecto da vida, todo o ramo de auto-ajuda aparentemente vive disso – e tirar dos problemas lições ou pelo menos constatações. Foi o que aconteceu comigo hoje, quando precisei trocar o chuveiro.

Primeira constatação: o processo não é tão complexo que o responsável precise de um diploma nem tão simples que só se precise de um diploma em jornalismo. Desliga o disjuntor (muito importante para não morrer queimado, etc, etc), abre o cano, solta os fios, desatarraxa a bagaça, se molha todo porque esqueceu que tinha água dentro, tira a camisa, atarraxa a bagaça nova, liga os fios, fecha o cano e faz “tcharã”! Parece simples, não é? Não é. Igual à vida.

Tinha um motivo para eu trocar o chuveiro. De uns tempos pra cá, eu comecei a notar que caía água gelada junto com a quente, o que não é nada legal quando você toma banhos às 3h32. Fora a fumacinha e o cheiro de queimado que surgiam às vezes. Aliás, se tem algo que não tem nenhum lado positivo é o tal cheiro de queimado. O que prova que, quando algo está errado, os sintomas surgem, mesmo que pequenos e quase imperceptíveis. Igual à vida.

Aí veio a primeira descoberta: a fiação estava toda zoada e enferrujada. Isso porque o cano rachou, a água foi vazando (o que explica as gotas de morte líquida que se infiltravam na água quente) e enferrujou os filetes de cobre. O resultado é um monte de fios que praticamente desintegravam na minha mão e marcas de queimado ao longo do cano. Ou seja, só um milagre impediu a coisa toda de criar um curto-circuito que transformasse um apartamento repleto de objetos de plástico e papéis em uma bola incandescente de derrota. Deus existe e mora no meu banheiro. Essa última frase ficou ruim, né? Mas é isso, um descuido e uma desatenção e a coisa toda ficou destruída e condenada. Igual a quê mesmo?

O jeito é trocar o cano também, então toca para o supermercado para comprar o dito cujo. Tudo bem que você não está com pressa, porque é feriadão e tal, mas é realmente necessário que todos os velhos da cidade estejam à sua frente na fila?  (Parênteses: resisto a fazer a piadoca de que “entrei pelo cano”. Mentira, nem resisto tanto assim. Gastei parênteses à toa.) Cano comprado, toca de volta para o banheiro que, a essa altura, parece um cenário de Apocalypse Now, com água, fios e morte para todo lado. A morte, no caso, é da minha tarde de sábado. Aí encaixa o cano, hora de atarraxar a bagaça e… o cano quebra. O motivo é simples: você forçou demais a situação, com medo de que algo vazasse, e tudo o que você precisava era de suavidade e jeito. Há semelhanças com a vida, procede?

Toca para o supermercado, nova fila de anciãos, e o vazamento se espalha do banheiro para meu bolso. A essa altura, você começa a pensar se os franceses do estereótipo não estão certos e o banho não é tão importante assim, e é preciso economizar água porque o Amazonas está secando e todos esses canos de plástico vão demorar uns quatro milhões de ano para se decompor ou algo do tipo. Volta, encaixa o cano, atarraxa o chuveiro seguindo os ensinamentos de Mr Catra – “o processo é lento, o barato é louco e o bagulho é sério” – e agora vai.

Não, não vai. A água sai pouca, e fraca, e você se questiona se não seria sabotagem. Sei lá, você colecionou alguns inimigos ao longo da vida, nada garante que nenhum deles tenha feito um curso da Universia Brasil a partir de uma revista da Turma da Mônica e aprendido a mexer nesse tipo de coisa. Mas não é nada disso, é só o redutor que você mesmo tinha colocado antes achando que o vazamento estava associado à quantidade de água e seria necessário colocar o negócio, mas não precisa de redutor, então você tem de tirar tudo de novo para poder arrancar o redutor quase no tapa, e as coisas seriam mais fáceis se a gente identificasse o problema direito para dar a solução adequada e não resolvesse um problema que não existia, gerando um novo problema. Isso não acontece na vida de vocês?

Agora a água sai bonita e na quantidade esperada, mas o problema é que a próxima etapa é religar a fiação, e o revestimento externo colorido já está todo prejudicado pela ferrugem e pelo tempo, então não dá para utilizá-lo como base. São três fios, nada grave, mas você entende como o pessoal do departamento anti-bomba se sente. Com a diferença que eles provavelmente conseguem tomar um banho, se necessário. Você reza um pouco para o Deus que mora no banheiro e liga os fios, porque quem não arrisca não petisca, quem não deve não teme, etc, etc, e você não tem nada a perder, a não ser o chuveiro novo, dinheiro e o final da tarde de sábado em mais uma viagem ao que aparenta ser o supermercado com a maior concentração per capita de velhos da região. Essa é a minha vida, eu não sei a de vocês.

No fim tudo dá certo, e você se espanta, porque Fernando Sabino estava errado, e tudo dá errado no fim, se não deu é porque ainda não chegou ao fim. A água sai quente e agradável, o box continua te fazendo saber como o garoto de Platoon se sentia mas você não liga, porque tem água quente e a casa não pegou fogo. Você tem água quente, e não liga se há pessoas morando nas ruas e os políticos são corruptos e ela não está tão afim de você. Você tem água quente, e é tudo que importa no fim do dia, e é por isso que encanamentos mereciam a atenção de escritores melhores que roteiristas de filmes pornôs, autores de fan fictions do Super Mario e eu.

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Um dia

Um dia você acorda e se pergunta se errou em algum momento na vida. Olha para o teto escuro, para as quinas do quarto, e tenta entender se fez alguma escolha errada, se falou com quem devia, se falhou com quem não devia. Tenta ligar os pontos de toda uma história de vida que você nunca lembra como lembram as pessoas nos filmes e no quadro do programa de auditório, mas não consegue. E se pergunta se não seria este o erro.

Um dia você acorda e se pergunta quando errou na vida. Foi na escola, na faculdade? Foi depois, na escolha profissional, ou foi antes, nas brincadeiras de infância? Um livro lido na hora errada, um filme visto antes do tempo? Ou a falta disso? Foi ontem? Foi há um ano, há uma década? Há 4.859 dias? O teto continua escuro, mas a pupila se dilata e você começa a ver as parcas sombras trazidas pela luz da janela. Elas não se mexem, e você começa a se perguntar se elas não deveriam estar se mexendo. Aí você se pergunta se você não deveria estar se mexendo.

Um dia você acorda e se pergunta com quem errou na vida. E parece plausível, porque as pessoas não fazem sentido 90% do tempo – e fingem ter lógica nos outros 10%. E você lembra, mas não como devia, de todas as vezes que ouviu que você entendeu errado, que não era bem assim, que não foi isso que havia sido dito – e quantas vezes você mesmo disse isso. E se a intenção era sim a que você havia entendido, mas você acreditou no desmentido? E se as sombras de fato não devessem se mexer, e é bom que não estejam se mexendo ou haveria algo de muito errado acontecendo lá fora?

Um dia você acorda e se pergunta se errou, mas não nessa vida. Sei lá, numa vida passada você mandou matar pessoas, ou matou pessoas, ou foi morto num surto de ódio alheio. Aí você lembra que não acredita nessas coisas, e que não é bom pensar nesse tipo de assunto uma horas dessas, ainda mais com as sombras paradas no teto. Por que diabos tanta obsessão com as sombras?

Um dia você acorda e se pergunta se o erro pode ser consertado. Afinal, admitir que existe um erro é o primeiro passo para resolvê-lo, pregam os alcóolatras, anônimos e conhecidos. E você já passou por essa fase de admissão – tem uma medalha pra isso, não tem? – então agora é só resolver. Ou é preciso identificar antes? Não foi por isso que você acordou? Ou você acordou sem motivo aparente e depois se perguntou, e na verdade devia era para ter virado na cama e voltado a dormir, não pensar em besteiras. Não era para ter um barulho de vento?

Um dia você acorda e se pergunta se está errando agora. Não em acordar a essa hora, quando você precisaria estar dormindo para errar logo cedo no trabalho, mas num sentido mais amplo, num daqueles erros que começam como coisas pequenas e derrubam um avião ao final da cadeia. E você percebe que acordou com medo da Teoria do Caos, e de que ela seja verdadeira (provavelmente é), e que em algum lugar da Mongólia uma borboleta esteja batendo asas só para te fazer bater o carro ou contar uma piada absolutamente inadequada na hora errada ou dizer o que não devia para a mulher que acabou de conhecer e era a mulher da sua vida, mas que agora te acha um babaca. E você fica feliz que as borboletas estejam em extinção na Mongólia, porque elas batem asas o tempo inteiro, mesmo sabendo o que estão causando do outro lado, na sua vida. E você se lembra de como são as borboletas de perto, como pequenos alienígenas esquisitos, e se pergunta se a sombra da parede não seria de borboletas gigantes, batendo asas na sua janela, rindo baixinho das suas dúvidas. E fica feliz de que as sombras estejam paradas, porque esta ideia é perturbadora demais para te deixar novamente. Talvez pelo resto da vida.

Um dia você acorda e se pergunta se errou na vida. E, sem chegar a conclusão nenhuma, volta a dormir. Um erro.

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Arapongas

Sistema Guardião, Polícia Federal
21/10/2011
15:33
Homem Não-Identificado 1 entra em contato com Homem Não-Identificado 2.

HNI1: Fala, meu senador!
HNI2: E aí, rapaz! O que você me conta de novo?
HNI1: Tudo velho, tudo velho…
HNI2: Ainda tomando uns banhos em Pirenópolis?
HNI1: Nada, cansei de cachoeira. Voltei pra cidade, mas vou pegar levar a meninada para pegar uma onda esse fim de semana. Dá para usar tua casa de praia?
HNI2: Dá, dá. Patroa tá boa?
HNI1: Tá nada, tá dona encrenca como sempre. E dia desses ainda encontrei a Claudinha, aquela ex minha, lembra? Quem sabe… (risos)
HNI2: Ha ha ha, boa. Recomendo, viu? Trocar de mulher foi a melhor decisão da minha vida. Isso e me eleger. Cogito até galgar degraus maiores agora, sabe?
HNI1: Gostei de ouvir essa ambição. Se precisar de uma ajuda… Aliás, falando em ajuda.
HNI2: Que foi?
HNI1: Preciso de uns conselhos. Sabe aquele… “amigo” nosso?
HNI2: Qual deles?
HNI1: O magrão.
HNI2: Ah, sei. O que trabalha lá na Fazenda?
HNI1: Isso.
HNI2: Que que tem?
HNI1: Eu acho que vou precisar dar um presente a ele.
HNI2: Ué, por que?
HNI1: Porque ele andou me fazendo uns favores aí. Cercou umas paradas que eu precisava, sabe? Sem falar de quando ele me alertou sobre o problema com aqueles troços de araponga.
HNI2: Ah, foi ele?
HNI1: Foi.
HNI2: Rapaz, ele merece um presente mesmo então. Depois que você me avisou desse troço, eu fui olhar. Não é que também tinha na minha área?
HNI1: Tô te falando, tem mais lugar seguro não.
HNI2: Pois é. Uai, preciso pensar. Vamos tomar um café?
HNI1: Vamos. Naquele perto do velho bingo?
HNI2: Isso.
HNI1: Tô descendo pra lá.
HNI2: Ok, abraço.

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BRASÍLIA, 2 DE DEZEMBRO DE 2011 – A Polícia Federal prendeu nesta terça-feira Teodoro Medeiros, 52, e Alcebíades “Senador” Gorgulho, 56. Os dois são acusados de participar de um esquema de corrupção que envolveria funconários do Ministério da Fazenda e o uso de informações privilegiadas. Eles também teriam acesso a informações de dentro da polícia sobre investigações em curso.

Segundo a PF, os dois foram flagrados em escutas telefônicas autorizadas pela Justiça discutindo o pagamento de propinas a Francisco “Magrão” Alves, 39, chefe da quadrilha preso na semana passada. Magrão nega participação no esquema, alega inocência e diz sequer conhecer os dois presos nesta terça-feira.

Medeiros disse à polícia que houve um engano, e que o número de telefone dele não bate com o grampeado pela polícia por um dígito: o alvo da escuta acabaria em 9, e seu número em 6. Disse também que havia pedido apenas uma sugestão do amigo – que chama de senador como piada desde que este foi eleito subsíndico do condomínio – sobre como recompensar um dos peões de seu sítio por trabalhos feitos no local, incluindo o fim de alguns pássaros que atacavam sua horta.

O delegado Clístenes Bispo, responsável pela operação, descartou os argumentos dos dois presos. “Seria muita coincidência”, alegou, reforçando que os dois teriam criado um código específico para conversas ao telefone e já suspeitavam de grampos anteriores. Ele também afirmou que a esposa de um dos presos, após ler o grampo, confirmou a participação do marido nos crimes.

Os dois foram transferidos para o presídio federal que fica em Rondônia.

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