Eu queria ser um supervilão

Eu queria ser um supervilão.

Não me entendam mal, não quero dominar o mundo. Aliás, quem quer dominar ESTE mundo? Nunca entendi esta aspiração em particular. “Eu vou dominar o mundo!” E depois? Gerenciar tudo com uma mão de ferro? Qual seu endgame aqui, cara? Qual é a meta lá na frente? Nah, preguiça. Um supervilão realmente mau e que só queira o mal da humanidade pode simplesmente se sentar em seu trono de aço e assistir ao noticiário se parabenizando, mesmo que não tenha feito nada. O estrago já está aí.

Eu queria ser um supervilão, mas não consigo. Independentemente do estilo de supervilania em questão, me falta algo para atingí-lo. Pense, por exemplo, no supervilão genial. Quanto trabalho tem o cientista louco que, diante das restrições éticas aos seus experimentos, resolve se usar como cobaia? Imagine os anos de estudo desta pessoa, o bullying, o isolamento. Esse cara não consegue juntar uma galera bacana para tomar uma cerveja no sábado. Isso sem falar que, na média, de cada 100 experimentos feitos em si mesmo por cientistas loucos, só um deve dar superpoderes. Os outros 99 só morrem em desgraça. Eu não tenho a dedicação para ser um cientista louco, e certamente não me arriscaria num experimento próprio (ainda mais sabendo da minha falta de dedicação).

Existe, claro, o supervilão clinicamente insano. A gente pensa pouco nisso, mas deve ser uma vida extremamente libertadora. Quando subverte a realidade às suas próprias conveniências, o supervilão clinicamente insano cria um contexto em que tudo que ele faz é OK. Adeus, superego. Vocês conseguem imaginar quão bom deve ser este sentimento? Não se sentir mais inadequado diante deste ou daquele padrão social? Qual é o grau de descontrução (é assim que usa a palavra? Eu nunca usei) necessário para alguém que não seja clinicamente insano se sinta assim? Eu não conseguiria. Claro, estamos falando de escolhas – e ninguém escolhe, em situações normais, ficar clinicamente insano. Mas eu não consigo sequer me ver assim. Passo.

Ser um supervilão com poderes cósmicos me colocaria numa situação muito complicada, porque eu odeio grandes responsabilidades. Pense em todas as implicações do dilema “comer este ou aquele planeta?”. Visualize o trabalho que deve dar a escolha de um avatar. Quero alguém criativo, mas independente, ou um avatar leal mas com pouca proatividade? E se ele me trair, posso consumí-lo por justa causa? Eu não crio nem plantas em casa porque me incomoda a ideia de ter de cuidar o tempo inteiro, o que dirá ter poderes para este grau de decisão. Ter poderes cósmicos deve ser como trabalhar no RH de uma grande empresa. Dispenso.

Defensor de uma causa? Sou niilista demais pra isso. Mercenário? Gosto do dinheiro, mas bons mercenários caem no cenário da dedicação nos treinos até serem bons o suficiente – sem falar nos riscos. Poderes adquiridos acidentalmente? Considerando a vida que eu levo, só se escorregar na escada e bater a cabeça no corrimão der superpoderes. Eu nunca cheguei nem perto de algum lugar radioativo, e o laboratório do colégio onde eu estudava tinha dois béquers e uma placa de Petri – vazios. Vingador? Só se eu fosse atrás de todos os garçons que já me serviram o refrigerante errado (e me dá preguiça só de pensar em quantos são).

Devia existir um curso de autoajuda sobre libertar o supervilão que existe em você. Se você ignorar os dilemas éticos (e eventuais homicídios, extermínios e genocídios normalmente associados), ser um supervilão pode ser tão desafiador quanto ser um super-herói. Dedicação, responsabilidade, liberdade de pensamento são coisas que nossos amigos querem que tenhamos, nossos pais querem que tenhamos, nossos terapeutas querem que tenhamos. Então acho que vale a pena mirar na meta de se tornar um supervilão e começar por aí, mesmo que fique pelo caminho (e acabe não cometendo grandes crimes). Depois disso, é só torcer pra ser picado por um aranha radioativa ou algo do tipo (e pegar superpoderes, não câncer).

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Eu seria um vilão tipo o Morsa, cujos poderes basicamente consistem em “ter a força, a agilidade e a velocidade de uma morsa”. 

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