Um conto eleitoral

A mãe de Ebenezer acreditava em numerologia, e era essa a explicação que o rapaz repetia, num suspiro de lamentação, quando perguntavam o motivo do nome exótico. Já Ovelha não era sobrenome, mas sacanagem mesmo: Ebenezer ganhou a alcunha de um desafeto na faculdade, que ria do garoto distraído que vivia seguindo os amigos onde quer que fossem. No começo foi um problema, mas quando o apelido pegou, ele desistiu de brigar – se todo mundo usava, alguma razão havia de ter.

Era nisso que o entediado Ovelha pensava na noite de 4 de outubro. Mentira, ele não pensava nisso. Sequer sabia se pensava. Distraído por algum vídeo de gatos no computador, evitava há três dias qualquer uma das infinitas páginas carregadas de debates políticos que dominavam a internet. Ebenezer odiava o período eleitoral: quanto mais perto do dia da votação, mais os ânimos se acirravam, mais debates surgiam e o pior, mais pediam sua opinião. Ebenezer odiava dar sua opinião. Ebenezer odiava ter uma opinião. Se pudesse, o jovem abriria mão do livre-arbítrio, mas quando foi questionado sobre um professor acerca do que pensava do livre-arbítrio, fingiu uma diarreia e saiu de sala.

Era sobre isso, portanto, que não pensava Ebenezer quando a luz de seu quarto se apagou. Maldizendo mais uma vez a empresa de energia, começou a procurar por uma lanterna nas gavetas quando ouviu um assobio gelado vindo da janela. Enquanto os cabelos da nunca do rapaz se eriçavam, um festival de luzes pipocou por todo o quarto, até se juntarem em uma única imagem. Era seu tio, Roberto.

 

– Porra, tio, susto do cacete. Que que tu tá fazendo aqui?
– Te visitando, garoto. Mas você não está esquecendo de nada?
– Tipo o que?
– Que eu estou morto, por exemplo?

 

Era verdade. Ebenezer deu um pulo pra trás, com o susto de ver o tio morto há pouco menos de um ano, ali, na frente. Depois de improvisar um esconderijo medíocre atrás da cômoda, voltou a criar coragem de olhar em direção às luzes. Seu tio ainda estava lá, com cara de entediado.

 

– Acelera, garoto, não tenho todo o tempo do mundo. Vim aqui só pra te dar um aviso. Tu ainda é chamado de Ovelha pela molecada do teu colégio?
– Faculdade agora, tio. E sou.
– Pois isso muda hoje. Mexi uns pauzinhos lá em cima e consegui autorização para te darem uns toques. Chega dessa vida de seguidor. Se prepara que hoje a noite vai ser animada.

 

Ebenezer preferia não ter ouvido aquilo. O conceito de animação de Roberto sempre fora diferente do seu: o tio adorava desfiar um repertório de manifestações da qual tinha feito parte ao longo da vida. Diretas Já, caras pintadas, basicamente qualquer protesto que envolvesse gritaria e bate-boca. Até nos jantares de família, Roberto era conhecido por manifestar opiniões até contrariar alguém. Morrera justamente por conta de um infarto ao saber que uma manifestação no Rio havia levado 1 milhão de pessoas às ruas.

 

– Então, tio, não vai rolar. Tenho uns trabalhos de faculdade e…

 

As luzes ficaram mais fortes e a voz do tio se tornou um trovão.

 

– Não tente fugir, Ebenezer! Saiba que nenhum arrependimento está à altura de uma oportunidade perdida. E é disso que se trata tudo isso: oportunidades! Amanhã você terá uma oportunidade, e uma oportunidade à qual você tem renunciado há muito tempo. Não mais!

 

E sumiu como havia chegado, com a luz voltando a ocupar o quarto aos poucos e um assobio gelado saindo dos pêlos de Ebenezer em direção à janela entreaberta. O garoto esfregou os olhos, viu os gatinhos na tela do computador e concluiu que estava delirando. E tudo isso sem fumar nada! (ele não consumia nada ilegal, mas preferia evitar uma opinião sobre a legalização das coisas)

Ovelha lamentaria ter tirado uma conclusão sobre o delírio pouco depois. Quando mudava dos gatinhos para uma pornografia básica, sentu novo arrepio. A luz de seu quarto mudou aos poucos, assumindo um tom azul. Ouviu um farfalhar de asas, e por baixo da porta entrou um pó branco, que aos poucos assumiu uma forma éterea. Ebenezer tossiu, nervoso, ao ver diante de si uma criatura meio homem, meio pássaro, com um longo bico.

 

– Ebeneeeezer! – a criatura ecoou bem o meio do nome, para parecer mais profético- Eu sou o espírito do governo passado!
– Mas hein?
– Sim, o espírito do governo passado!
– E o que eu tenho com isso?
– Tuuuudo, Ebenezer! Pois eu estou querendo voltar! E dependo de você para isso!
– Mas pra que você quer voltar?
– Para desfazer os males do presente, Oveeeelha! Para retomar os Fundamentos da economia, defender a Honestidade e os valores do Capitalismo de mercado!
– Isso parece bom. Mas o Luizinho vive dizendo que vocês acabaram numa crise econômica, que seu partido tem pelo menos três escândalos recentes e a desigualdade de renda está caindo agora em comparação à sua época?
– Não se susteeeeenta, Ebenezer! É preciso mudar o que está aí! Lembre-se diiiiisso!

 

Enquanto ainda ecoava a última frase, o espírito voltou a se desfazer em pó e se dissipou pelo quarto num vento que sibilava baixinho “Armíiiiniiiio”. Ovelha sentiu um frio na espinha, mas já estava sentindo frio na espinha desde o começo de toda aquela palhaçada. Nem se incomodou.
Após todo o espetáculo, as coisas nem chegaram a voltar ao normal. No quarto escuro, ainda atordoado pelo que acontecia, o rapaz ouviu batidas na porta. Uma. Duas. Ebenezer não queria abrir. Quatro. Sete. Na décima terceira, Ovelha não aguentou e abriu.

A figura que entrou era, por falta de definição melhor, exótica. Meio curvada, coberta por um manto escarlate, se arrastou lentamente para dentro do quarto. Arrastava pesadas correntes, na qual o garoto leria “Material genuinamente brasileiro” se não estivesse num breu completo, como se faltasse energia. Ao fim das mesmas, um poste impedia a criatura de se mover mais rapidamente. Até que ela desistiu. Sem levantar a cabeça, começou a falar. A voz soava hesitante e levemente irritada.

 

– Ebenezer, você sabe quem sou eu?
– O fantasma do governo presente?
– Como é que você sabe?
– Eu li Dickens na escola. O que você quer?
– O que todo mundo quer. Seu voto.
– Mas por que eu votaria em você?
– Olha, no que se refere a governo, o meu foi o melhor. Bom, juntando o meu e o do meu antecessor. Eu segurei a economia na crise. Bem, eu e meu antecessor. Cuidei do social. Bem, eu e meu antecessor. Tirei milhões da miséria, botei médico nos hospitais do país todo. Esses fui só eu!
– Mas se você cuidou da economia, porque todo dia meu pai reclama que a comida está mais cara? E olha que meu pai votou em você e no seu antecessor! Fora que o Zé me contou que vocês tiraram da miséria mudando o critério de miséria. Pô, aí, até eu. Posso passar de ano reduzindo a nota mínima?
– Meu filho, olha aqui. O IPCZB-2 de junho caiu zero vírgula dezoito pontos percentuais. Isso prova que a economia está se recuperando da crise internacional causada pela seca de gols na Copa. Agora larga de ser pessimista e vota na gente, tá bem?
– Sei não, sabe? O Fernando estava mó revoltado ontem, falando que vocês estão aí há muito tempo, abraçados com todo mundo das antigas, que talvez seja hora de mudança…

 

A aparição soltou um grito medonho. O vizinho da direita diria no seguinte ter sido “João”, mas o da esquerda garantia ser “Santana”. Enfim, para que servem os vizinhos?

 

– Não diga isso, meu querido! Você não sabe o risco de aparecer alguém sem experiên…

 

E antes que acabasse a frase, um fio entrou pela janela e começou a rodear a aparição. Depois outro, e mais um. Parecia algo reciclado, meio orgânico, mas estava escuro e nem a aparição nem Ebenezer quiseram arriscar o que era exatamente aquilo. Por fim, os fios começaram a chegar às centenas, lentamente enredando o fantasma do governo presente. Que resolveu ir embora antes que começassem a surgir perguntas.

Aos poucos, a rede começou a tomar forma. Era uma figura humanóide fininha, com voz de balão hélio. Sua coloração oscilava entre o vermelho e o azul, dependendo da luz que batesse. Às vezes amarelava. Ovelha achou que tivesse ouvido música gospel enquanto tudo acontecia, mas poderia ser o vizinho da esquerda. O que tinha ouvido Santana.

 

– Ebenezer! Você me chamou?
– Eu não chamei ninguém, vocês que insistem em vir aqui. Por mim, nem votava. Você é…
– O fantasma do governo futuro!
– Eu ia chutar o fantasma das manifestações passadas.
– Quase! Eu fui invocada pelo desejo de mudança geral! Foi providência divina!
– Acuma?
– E então, tenho seu voto?
– Não sei. O que você defende pra economia?
– Um pouco de liberalismo, um pouco de intervencionismo. Onde for preciso.
– O Giba disse que essa conta não fecha, os dois são muito diferentes. E nas alianças?
– Governar com os melhores de ambos os lados.
– Credo, mas é tudo nessas ideia de opostos?
– Não é polarização. Eu só acho que precisamos esquecer a velha política.
– Mas aí quem vai governar com você?
– Os melhores dos partidos.
– Dos partidos da velha política?
– Sim.
– Dos mesmos caciques?
– Isso.
– Hum.
– E então, tenho o seu voto?
– Quase. Só me diz mais uma coisa, e eu vou formar minha opinião sozinho, pela primeira vez na vida. O Timóteo, que trabalhava pro meu tio, é um gato. Estou pensando em dar uma ligada pra ele e tal. Se rolar, no futuro, eu e ele poderemos nos casar e ter dois filhos e um cachorro?
– Errr…
– Poderemos?
– Peraí, deixa eu puxar minha Bíblia aqui. Vamos ver… (folheando ao acaso). Aqui, Levítico, 20:13. Hum. Hummm. Então. Acho que tô com um problema de revisão aqui no meu exemplar. Posso te retornar em janeiro?

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