Mídia fascista sensacionalista

Fui a três manifestações populares em Brasília desde o começo da semana. E foi a partir delas, e expressando tão somente minha opinião como pessoa física, que escrevo estas palavras.

Me impressiona o desapego das pessoas pela imprensa livre. Nas manifestações, poucos gritos eram tão ecoados quanto “mídia fascista, sensacionalista”. Sempre sem reprimenda ou contestação. Isso me incomodava tanto que acredito que as únicas coisas a me impedir de gritar algo em resposta eram o bom senso e o instinto de autopreservação.

Manifestante protesta contra veículos de comunicação. (Fonte: Uol)

Manifestante protesta contra veículos de comunicação. (Fonte: Uol)

A mídia erra, como todo mundo. Jornalistas são humanos, e as empresas são formadas por jornalistas. Temos convicções, ideologias e idiossincrasias que adoraríamos deixar em casa ao ir para o trabalho, mas isso não é possível. Então tentamos reduzir seu efeito, diuturnamente, para que a informação que transmitimos seja a mais completa possível, para que nossa missão social final se realize: dar condições ao eleitor para decidir. Levar a ele o máximo de informação possível, da melhor forma possível. É isso que fazemos, é para isso que existimos. Os erros, se acontecem, são com a intenção do acerto. Acreditem, eu já errei, e nunca foi proposital.

E quando acertamos? Os que gritam contra a corrupção, de quantas denúncias publicadas pela mídia se lembram? Quantos casos históricos de ladrões do erário foram desmascarados por nossas canetas? Quantos políticos ruins sumiram após nossas imagens? Aos que defendem mais educação, quanto esforço não fazemos por mais recursos para a área? Quantas pesquisas publicamos, quantas cobranças fizemos? Quantos hospitais em petição de miséria denunciamos em prol de uma saúde melhor? Por mais transporte, mais segurança, mais respeito aos direitos humanos?

Ninguém sofreu mais com o fascismo do que a mídia. Quantas áreas tem profissionais tolhidos de seu trabalho por regimes autoritários? Não confundam: a mídia favorável ao regime autoritário não é imprensa, mas propaganda, seja por sua vontade ou não. Chamar nossa imprensa livre de fascista é tão sem sentido quanto chamar um médico de carrasco.

Ninguém sofre mais com o sensacionalismo do que a boa imprensa. Nosso trabalho diário passa por dilemas entre sobreviver no mercado competitivo e alimentar o círculo vicioso dos que preferem a imagem sangrenta ao noticiário político relevante. Quando o público critica a informação política ao optar pelo relato puro e simples de mais um crime, faz mais do que uma só opção: opta também pela ignorância e por abrir mão de preciosos recursos para tentar controlar o seu destino e o destino de um país.

Não faço parte da mídia fascista sensacionalista. Faço parte de uma imprensa livre que precisa esconder o orgulho do que faz, fingir que não é para o que estudou e sonhou ser, para tentar garantir que nenhum abuso ocorra contra quem se manifesta, ou que os que ocorram sejam punidos. Que teme pela própria segurança ao ouvir um turbilhão de gente que a chama de fascista e que estaria disposta a calá-lo à força se discordar de suas ideias – um dos cernes justamente do fascismo. E que faz tudo isso com gosto e não se arrepende um dia sequer, porque está tentando fazer seu papel por uma sociedade mais justa. Mesmo que alguns não queiram que você participe.

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