Hakuna matata*

– Olha, Simba. Tudo que o sol toca é o seu reino.
– Uau!
– Um dia, Simba, o sol vai se pôr no meu tempo aqui, e você será o novo rei.
– E tudo isso vai ser meu?
– Tudo.
– Tudo, até onde o sol bate?
– É.
– Então, pai, sobre isso…
– Que foi?
– O que o senhor diz por “meu”?
– Como assim?
– Quando você fala que vai ser meu…
– Isso, vai ser seu.
– Mas é muita terra.
– Sim.
– Inclusive muda o tamanho, porque o sol vai andando, né?
– Sim, Simba, mas é mais ou menos até onde o sol está batendo agora.
– Hum… Mesmo assim, é muita terra, né? E eu nem sei plantar.
– Mas é seu reino.
– Pois é, sobre isso que eu queria falar com o senhor. Eu não curto muito essa história de reino, sabe?
– Que isso, garoto?
– É, pai. Sei lá, essa coisa de monarquia está meio ultrapassada, não? Ninguém mais tem rei hoje em dia. Só os europeus, mas eles ouvem a mesma música desde o século XIV…
– Mas, Simba, é o seu direito natural.
– É mesmo, pai? Por que o rei não pode ser, sei lá, um gnu?
– Gnu, Simba?
– É, pai, um gnu. São animais majestosos, ágeis, atléticos, que cuidam do próprio rebanho.
– Que porra de gnu, Simba? Você quer um rei gnu?
– Não, pai. Estava pensando mais em algo como, sei lá, um primeiro-ministro gnu. Um presidente gnu!
– Porra de presidente gnu, Simba! Você quer uma eleição agora?
– É justo, não?
– Claro que não, garoto. Nós somos leões, temos o direito natural de reinar na selva.
– Mas essa é uma tradição opressora, pai.
– Tradições são tradições, filho.
– É por isso que você não aposenta o Rafuko?
– Como é?
– O senhor acha que as pessoas não notam, mas o Rafuko já está velho, beirando os 30 anos. Devia estar aposentado há pelo menos uns seis, mas o senhor não deixa. Inclusive colocou ele para me segurar no dia em que eu nasci, na beira do precipício. Meio Michael Jackson, não?
– Era a tradição, moleque.
– É tradição tentar matar o próprio filho?
(rosnando)- Simba!
– Aí, o rosnado. Nunca vou entender isso. Precisa amedrontar as pessoas? Não me surpreende que tenha tido toda aquela ceninha no dia em que eu nasci. Todo mundo ajoelhando lá em baixo do morro, o senhor achando que era reverência. É medo!
– Que tenham medo, eu sou o rei Leão! E você um dia será também!
– Tá vendo? O senhor nunca me ouve!
– Desculpa, eu esqueci dessa história. Mas eu nunca te vi reclamar disso antes, garoto. Que que te deu?
– Nada, ué, eu andei pensando.
– Foi o Deivid?
– Você sabe do Deivid?
– É claro que eu sei do Deivid, todo mundo fala sobre isso o dia inteiro na minha cabeça. “O princípe Simba é amigo de um veado”.
– Puro preconceito, pai.
– Preconceito nenhum, garoto, já te falei que não gosto de te ver andando com os veados. Essa coisa de flores na cabeça me irrita desde o Bambi.
– Credo, pai.
– Credo o que, moleque? Você tem que entender que você é um leão! Os leões comem os veados!
– O QUÊ?
– Sim, os leões comem os veados!
– Como assim, pai? Você me disse que a carne que a gente come é importada, de uma fazenda japonesa!
– Eu menti, garoto, você era muito novo para saber a verdade. Mas se eu soubesse que você ficaria andaria com veados, teria dito a verdade!
(chorando)- Quer dizer que eu como animais mortos? Meu Deus! Eu… eu… eu te odeio! (sai correndo)
– Simba!
(ao longe, ainda chorando, o filhote grita)
– É por isso que o tio Scar é muito mais legal que você! (e foge)
(*inspirado em ideia de Vitor Matos, autor do parcamente atualizado, mas muito qualificado, O Furor.)
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1 comentário

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Uma resposta para “Hakuna matata*

  1. Rafiki o nome do mandril.

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