Mártires

Jair Bolsonaro é eleito e reeleito deputado federal desde 1990. Começou como um militar defendendo os direitos dos militares e a “Revolução” de 64. Representava uma bandeira minoritária, mas com força para eleger um representante. Tinha lá suas polêmicas, mas pouca força, apesar de muitos votos. Tanto que foi perdendo votos: de mais de 110 mil em 94, caiu para cerca de 100 mil em 98 e menos de 90 mil em 2002.

Daí em diante, voltou às vitrines do sucesso. Sucessivas guinadas à direita o colocaram na mira dos defensores dos direitos humanos: qualquer declaração mais agressiva respaldada na imunidade parlamentar lhe rendia semanas de exposição gratuita. Se a “classe média instruída” o condenava como um troglodita racista e homófobo, as pessoas que concordavam mesmo que parcialmente com suas ideias e não o conheciam tinham acesso ao que ele defendia. Em 2006, ele voltou à casa dos 100 mil votos, até bater recorde em 2010, com 120 mil votos.

Bolsonaro é suplente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Já foi titular em outras legislaturas. Já criticou e ajudou a embarreirar muitos projetos considerados importantes por defensores dos direitos humanos. Faz isso porque defende uma bandeira que lhe rende apoio popular e votos. É um representante democraticamente eleito de uma parcela da população que concorda com seus valores e que tem tanto direito a voz e voto quanto todo o resto. Democracia é pra todo mundo.

Marco Feliciano foi eleito deputado federal em 2010 com mais de 220 mil votos. Representa principalmente os evangélicos, que compõem uma parcela pequena da população brasileira, em termos proporcionais, mas com um lobby muito organizado. Tanto que elegeram 1 em cada 7 dos atuais deputados federais, que se distribuem nas comissões com mais influência nos assuntos por que se interessam: políticas para drogas, aborto, minorias. Eles são praticamente maioria na Comissão de Direitos Humanos, tanto que elegeram o presidente. Estão também na Comissão de Seguridade Social e Família e na CCJ, onde podem no mínimo atrasar e no máximo barrar basicamente qualquer projeto aos qual sejam contrários.

A pressão pela saída do deputado da presidência da CDH é legítima? É. É catártica? É. Mas é ineficaz, por um lado, e perigosa, do outro. Ineficaz porque, mesmo que ele saia, o grupo que o elegeu já tem força suficiente para barrar o que quiser na comissão. Fora que, obrigatoriamente, o novo presidente viria do mesmo grupo: talvez alguém que fale menos, mas que pensa igual. Fica bonito na foto, mas o resultado é mesmo. E perigosa porque transforma o pastor numa vítima. Observe as imagens recentes envolvendo o caso. São sempre de um homem sereno, que tem a palavra cassada por manifestantes que gritam e empunham faixas. É essa a imagem que ficará na cabeça de quem o apoia, e que ele soube usar muito bem em um vídeo: a de que estão perseguindo o defensor da família e dos bons costumes. Isso cola, amigos, e cola bonito.

Se Feliciano sair, não teremos ganhado uma guerra. Não teremos ganhado sequer uma batalha. Só teremos criado um mártir. E, Deus, nós sabemos como as pessoas gostam de um bom mártir. Eu esperaria no mínimo 300 mil votos em 2014. Talvez um senador?

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1 comentário

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Uma resposta para “Mártires

  1. Clesio de Luca

    Fiz o compartilhamento dessa crônica para alertar sobre esse grave risco.
    Parabéns pela sua brilhante sacada. Como faço para receber por e-mail, suas opiniões?

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