Testemunho

Não sei se isso realmente ajuda. O terapeuta diz que sim, mas eu acho que ele só quer meu dinheiro. Ele diz que contar nossas histórias para as pessoas, ajudá-las a não cometer os mesmos erros que cometemos, é bom para o carma. Pessoalmente, acho esse papo de carma uma tremenda viadagem, mas enfim, por algum motivo eu estou pagando o cara, então é melhor fazer pelo menos alguma coisa que ele diz, certo? Só que eu não sei como começar. Acho que a gente nunca sabe exatamente porque essas coisas acontecem. Tem gente que diz que é em casa, quando os pais se descuidam e deixam a gente sozinho. Pode ser. Se não tem ninguém pra criar a gente, o mundo cria, né?

A primeira vez foi quando eu tinha uns 14, 15 anos, sei lá, uma dessas idades em que a gente faz de tudo para ser aceito na galera, sabe? Era uma rodinha do lado de fora da escola, numa pracinha que tinha perto do colégio. A gente tava falando de vestibular, eu acho, quando a Marcinha – que tinha pai militar, linha dura e tal – sacou do nada um “racismo às avessas”. Ficou todo mundo meio assustado e tal, ninguém ali nunca tinha ouvido nada assim, em público, no meio da rua. Mas ela estava nem-te-ligo, passando a bola pra quem quisesse. Acabou sendo o Freitas, que era afim dela. Ele emendou um “não sei porque eu tenho que sofrer, não escravizei ninguém” tão fundo que eu achei que fosse passar mal. A galera calou na hora, mas dali a pouco entrou todo mundo na onda, um pouco com medo de ser considerado covarde, um pouco porque, sei lá, fazia sentido. Acho que foi a primeira vez que eu perguntei quando iam criar cotas para brancos.

Não deu um mês e já tinha virado hábito. A galera marcava de ir tomar um sorvete no parque, pegar um sol , e aproveitava para falar dos viadinhos que se beijavam na beira do lago. A Marcinha, que tinha apresentado o esquema pra gente, era sempre quem trazia a parada pra galera: lei anti-homofobia, feminismo, Bolsa-Família. Eu lembro que o dia do aborto foi pesado, porque a galera entrou numa bad trip e teve alguém que mandou um “deu, não deu? Agora cria!” perto de uma moça com óculos modernosos que lia num banco. Achamos que ia rolar denúncia, mas ela só bufou e olhou pro lado, como quem dissesse “onde o mundo vai parar?”. O preconceito é foda, irmão.

Eu gostava de curtir com a galera, mas comecei a achar que era pouco. Sei lá, eu ficava sozinho em casa, papai dava aula na faculdade o dia inteiro sobre aquelas porcarias de índios, mamãe ensinava artes numa escola infantil, e eu não tinha nada pra fazer a tarde inteira. Um dia, criei coragem e liguei pra Marcinha, pedi para ela me dar umas dicas sobre onde conseguir um material de primeira. Ela riu e disse que apareceria na minha casa em meia hora.

Ela já chegou com umas quatro ou cinco revistas embaixo do braço e um livro que eu tinha até medo de perguntar do que se tratava, parecia coisa da pesada. Fomos pro quarto e ela me explicou como tudo funcionava: porque eu tinha mais direito que os outros, porque o governo não devia se meter na minha vida (a menos que eu fosse assaltado) e porque só quem paga seus impostos merece respeito. Cara, eu eu ouvia “cidadão de bem” e minha mente viajava. A Marcinha percebeu que eu tava na dela, e resolveu me introduzir no livro: era do Olavo, coisa fina. Fiquei tão empolgado que acabamos nos pegando ali mesmo, enquanto ela gemia baixinho no meu ouvido “Tradição, Família e Propriedade”.

Daquele dia em diante, nada mais importava. Concluí o Ensino Médio sem vontade e tomei pau no vestibular (a gente sabe por culpa de quem, né?). Acabei convencendo papai a pagar meu curso de Relações Internacionais na mesma faculdade da Marcinha, e sem Prouni! Hoje me pergunto se esse não foi um dos grandes erros que cometi na vida (a faculdade, não ter ficado fora do Prouni). Meu namoro com a Marcinha ia de vento em popa, e a gente passava o dia na faculdade filosofando. Não demorou para acharmos uma galera da nossa, né? Tinha até um guri de juventude partidária, mas eu sempre achei que era pesado demais até mesmo pra mim. A Marcinha curtia.

Enquanto isso, eu continuava me afundando cada vez mais em casa. Fiz assinatura de revista, meti um poster do Reagan na parede e comecei a bater boca com meu pai por conta de meia dúzia de selvagens atrapalhando a agricultura no Mato Grosso. Minha mãe reclamava dos meus olhos vermelhos de madrugadas lendo blogs apócrifos e eu jogava na cara dela que ela não tinha sido contra um aborto da minha tia na adolescência. Meu pai cortou minha mesada quando descobriu que eu tinha comprado toda a bibliografia do Olavo pela internet, e eu tive de vender meu iPod para comprar os dois do Reinaldo. Acabei saindo de casa e fui acolhido pela Marcinha e pelo pai dela, coronel Ferraz, que entenderam minha situação – o coronel só deixou claro que sexo, só depois do casamento (com a Marcinha, no caso).

Eu tentava me reconciliar com meus pais, mas ficava cada vez mais difícil. Meu pai viu minha foto na Internet na Marcha do Orgulho Hetero, Branco, Cristão e Ocidental e parou até de atender minhas ligações. Meu único canal era minha mãe, que meio que me aceitava do jeito que eu sou. Ela dizia que ia conversar com meu pai, que éramos dois cabeças-duras, e que faria o possível, mas que eu precisava pegar leve. Aceitar que às vezes as pessoas pensam diferente, e que o consenso é possível, e que os dois lados podem ter razão. Mamãe tinha um coração bom, e me amoleceu. Voltei a conversar com meu pai sobre outras coisas – futebol, principalmente – e aos poucos voltamos a nos falar. Retornei pra casa um ano depois.

Só que foi tudo por água abaixo quando eu peguei a Marcinha com o carinha da juventude partidária discutindo a refundação da legenda da ditadura. Aquilo era demais. Ela tinha me prometido que pegaria leve, tinha me dado apoio quando eu parei de falar para as pessoas que não era racista porque até tinha um amigo preto (era mentira, não tenho amigos pretos), disse que me aceitava se eu ficasse careta. Todo aquele papo… para isso? Não, eu precisava mostrar que continuava o mesmo, que podia ser hardcore. Acabava ali a época da conversa suave, era hora do grande porrete.

Saímos com a galera para um rolê no centro da cidade e eu resolvi mostrar que palavras são bonitas, mas são as ações que demonstram coragem. Vimos um casal de bichas de mãos dadas saindo de um prédio e começamos a xingar, como sempre, mas eu fui além: peguei uma lâmpada que estava num saco de lixo e dei na cara de um dos dois. Fez um talho fundo, o sangue jorrou e o namorado dele começou a gritar. Olhei pra trás e minha galera tinha fugido, quando olhei pra frente já não tinha como fugir da polícia. Acabei sendo levado pra delegacia, mas mamãe implorou, negociou, chorou muito e não fui preso. Pior: tive de pedir desculpas e aceitar participar de seminários sobre diversidade. O que só prova que essa lei só serve para proteger vagabundo mesmo.

Quando eu voltei pra casa, tinha um recado da Marcinha terminando tudo – ela não podia sair mais com um bandido (que, afinal de contas, só é bom morto). Papai tinha ficado tão envergonhado de mim que aceitara um convite para uma excursão a Belo Monte (espero que não cancele a obra por causa dos xingus, o país não pode parar). Só mamãe continua me amando, incondicionalmente.

Hoje, sou apenas uma sombra do que fui no passado. Encaminho piadas do Lula por e-mail, correntes sobre o Bolsa-Presídio, mas não tenho ânimo para espalhar a foto do “Cotas? Não, obrigado. Eu estudei”. Desanimei, acho. Fico pelos cantos, como esse povo beneficiado pelo assistencialismo do governo, sem fazer nada e sendo sustentado por alguém que trabalha duro. Xingo blogueiros sujos na Internet sem perceber que somos iguais, um bando de malucos pegando pesado e se matando todo dia na Internet por pessoas que não ligam pra gente. A verdade é essa, e o pôster do Reagan na parede me diz isso com todas as letras, mesmo sem ter nada escrito: eles não ligam pra gente.

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “Testemunho

  1. Namastê

    Teu problema foi essa Marcinha, cara. Na faculdade eu tive a sorte de me apaixonar por uma intelectual de cachecol, e isso mudou a minha vida. O nome dela era Patrícia, mas ela logo acionou os dispositivos jurídicos para poder acrescentar a partícula Kaiowás. Pati Kaiowás, linda.

    Foi graças a ela que eu pude me livrar dos equívocos imperialistas e pouco sustentáveis que faziam parte da minha vida: carne vermelha,carro a gasolina, dar descarga.

    E pensar que, antes de conhecê-la, eu ignorava as delícias do cinema peruano!

    Tem lugar para você na turma, cara. Amanhã faremos uma manifestação contra a objetificação da mulher nas propagandas de creme hidrante. Te esperamos lá, amigo! Leva o cachecol!

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