Encanado

Shakespeare não escreveu sobre encanamentos. Não sei até onde isto foi causado pela ausência de encanamentos propriamente ditos no século XVI ou se por um descuido do bardo, mas, até onde eu conheço da obra do inglês – não é muito, admito a falha de caráter -, não me lembro de referências a encanamentos nas obras dele.

Uma mancha na biografia do homem, digo eu. Quem passa por dificuldades nessa área no cotidiano acaba se deparando com material riquíssimo, matéria-prima de primeira grandeza para produção literária, posto que são praticamente metáforas fechadas para a vida – e era para um grande autor como William (posso chamá-lo de Bill? Melhor não, né?) ter notado isso. Espero que o problema seja mesmo o fato de que “encanamento” à época dele  fossem basicamente buracos no chão, que ainda assim talvez merecessem pelo menos um papel secundário em Sonhos de Uma Noite de Verão.

Voltando aos canos e aos problemas: não é difícil reconhecer a relação dos mesmos com a vida – se bem que, com algum esforço, não é difícil associar qualquer objeto a algum aspecto da vida, todo o ramo de auto-ajuda aparentemente vive disso – e tirar dos problemas lições ou pelo menos constatações. Foi o que aconteceu comigo hoje, quando precisei trocar o chuveiro.

Primeira constatação: o processo não é tão complexo que o responsável precise de um diploma nem tão simples que só se precise de um diploma em jornalismo. Desliga o disjuntor (muito importante para não morrer queimado, etc, etc), abre o cano, solta os fios, desatarraxa a bagaça, se molha todo porque esqueceu que tinha água dentro, tira a camisa, atarraxa a bagaça nova, liga os fios, fecha o cano e faz “tcharã”! Parece simples, não é? Não é. Igual à vida.

Tinha um motivo para eu trocar o chuveiro. De uns tempos pra cá, eu comecei a notar que caía água gelada junto com a quente, o que não é nada legal quando você toma banhos às 3h32. Fora a fumacinha e o cheiro de queimado que surgiam às vezes. Aliás, se tem algo que não tem nenhum lado positivo é o tal cheiro de queimado. O que prova que, quando algo está errado, os sintomas surgem, mesmo que pequenos e quase imperceptíveis. Igual à vida.

Aí veio a primeira descoberta: a fiação estava toda zoada e enferrujada. Isso porque o cano rachou, a água foi vazando (o que explica as gotas de morte líquida que se infiltravam na água quente) e enferrujou os filetes de cobre. O resultado é um monte de fios que praticamente desintegravam na minha mão e marcas de queimado ao longo do cano. Ou seja, só um milagre impediu a coisa toda de criar um curto-circuito que transformasse um apartamento repleto de objetos de plástico e papéis em uma bola incandescente de derrota. Deus existe e mora no meu banheiro. Essa última frase ficou ruim, né? Mas é isso, um descuido e uma desatenção e a coisa toda ficou destruída e condenada. Igual a quê mesmo?

O jeito é trocar o cano também, então toca para o supermercado para comprar o dito cujo. Tudo bem que você não está com pressa, porque é feriadão e tal, mas é realmente necessário que todos os velhos da cidade estejam à sua frente na fila?  (Parênteses: resisto a fazer a piadoca de que “entrei pelo cano”. Mentira, nem resisto tanto assim. Gastei parênteses à toa.) Cano comprado, toca de volta para o banheiro que, a essa altura, parece um cenário de Apocalypse Now, com água, fios e morte para todo lado. A morte, no caso, é da minha tarde de sábado. Aí encaixa o cano, hora de atarraxar a bagaça e… o cano quebra. O motivo é simples: você forçou demais a situação, com medo de que algo vazasse, e tudo o que você precisava era de suavidade e jeito. Há semelhanças com a vida, procede?

Toca para o supermercado, nova fila de anciãos, e o vazamento se espalha do banheiro para meu bolso. A essa altura, você começa a pensar se os franceses do estereótipo não estão certos e o banho não é tão importante assim, e é preciso economizar água porque o Amazonas está secando e todos esses canos de plástico vão demorar uns quatro milhões de ano para se decompor ou algo do tipo. Volta, encaixa o cano, atarraxa o chuveiro seguindo os ensinamentos de Mr Catra – “o processo é lento, o barato é louco e o bagulho é sério” – e agora vai.

Não, não vai. A água sai pouca, e fraca, e você se questiona se não seria sabotagem. Sei lá, você colecionou alguns inimigos ao longo da vida, nada garante que nenhum deles tenha feito um curso da Universia Brasil a partir de uma revista da Turma da Mônica e aprendido a mexer nesse tipo de coisa. Mas não é nada disso, é só o redutor que você mesmo tinha colocado antes achando que o vazamento estava associado à quantidade de água e seria necessário colocar o negócio, mas não precisa de redutor, então você tem de tirar tudo de novo para poder arrancar o redutor quase no tapa, e as coisas seriam mais fáceis se a gente identificasse o problema direito para dar a solução adequada e não resolvesse um problema que não existia, gerando um novo problema. Isso não acontece na vida de vocês?

Agora a água sai bonita e na quantidade esperada, mas o problema é que a próxima etapa é religar a fiação, e o revestimento externo colorido já está todo prejudicado pela ferrugem e pelo tempo, então não dá para utilizá-lo como base. São três fios, nada grave, mas você entende como o pessoal do departamento anti-bomba se sente. Com a diferença que eles provavelmente conseguem tomar um banho, se necessário. Você reza um pouco para o Deus que mora no banheiro e liga os fios, porque quem não arrisca não petisca, quem não deve não teme, etc, etc, e você não tem nada a perder, a não ser o chuveiro novo, dinheiro e o final da tarde de sábado em mais uma viagem ao que aparenta ser o supermercado com a maior concentração per capita de velhos da região. Essa é a minha vida, eu não sei a de vocês.

No fim tudo dá certo, e você se espanta, porque Fernando Sabino estava errado, e tudo dá errado no fim, se não deu é porque ainda não chegou ao fim. A água sai quente e agradável, o box continua te fazendo saber como o garoto de Platoon se sentia mas você não liga, porque tem água quente e a casa não pegou fogo. Você tem água quente, e não liga se há pessoas morando nas ruas e os políticos são corruptos e ela não está tão afim de você. Você tem água quente, e é tudo que importa no fim do dia, e é por isso que encanamentos mereciam a atenção de escritores melhores que roteiristas de filmes pornôs, autores de fan fictions do Super Mario e eu.

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “Encanado

  1. L.G.B.Paiva

    Essa dificuldade toda pra trocar um chuveiro? Chama o Seu Zé da Portaria, joga 40 mangos na mão dele e seja feliz.

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