Um dia

Um dia você acorda e se pergunta se errou em algum momento na vida. Olha para o teto escuro, para as quinas do quarto, e tenta entender se fez alguma escolha errada, se falou com quem devia, se falhou com quem não devia. Tenta ligar os pontos de toda uma história de vida que você nunca lembra como lembram as pessoas nos filmes e no quadro do programa de auditório, mas não consegue. E se pergunta se não seria este o erro.

Um dia você acorda e se pergunta quando errou na vida. Foi na escola, na faculdade? Foi depois, na escolha profissional, ou foi antes, nas brincadeiras de infância? Um livro lido na hora errada, um filme visto antes do tempo? Ou a falta disso? Foi ontem? Foi há um ano, há uma década? Há 4.859 dias? O teto continua escuro, mas a pupila se dilata e você começa a ver as parcas sombras trazidas pela luz da janela. Elas não se mexem, e você começa a se perguntar se elas não deveriam estar se mexendo. Aí você se pergunta se você não deveria estar se mexendo.

Um dia você acorda e se pergunta com quem errou na vida. E parece plausível, porque as pessoas não fazem sentido 90% do tempo – e fingem ter lógica nos outros 10%. E você lembra, mas não como devia, de todas as vezes que ouviu que você entendeu errado, que não era bem assim, que não foi isso que havia sido dito – e quantas vezes você mesmo disse isso. E se a intenção era sim a que você havia entendido, mas você acreditou no desmentido? E se as sombras de fato não devessem se mexer, e é bom que não estejam se mexendo ou haveria algo de muito errado acontecendo lá fora?

Um dia você acorda e se pergunta se errou, mas não nessa vida. Sei lá, numa vida passada você mandou matar pessoas, ou matou pessoas, ou foi morto num surto de ódio alheio. Aí você lembra que não acredita nessas coisas, e que não é bom pensar nesse tipo de assunto uma horas dessas, ainda mais com as sombras paradas no teto. Por que diabos tanta obsessão com as sombras?

Um dia você acorda e se pergunta se o erro pode ser consertado. Afinal, admitir que existe um erro é o primeiro passo para resolvê-lo, pregam os alcóolatras, anônimos e conhecidos. E você já passou por essa fase de admissão – tem uma medalha pra isso, não tem? – então agora é só resolver. Ou é preciso identificar antes? Não foi por isso que você acordou? Ou você acordou sem motivo aparente e depois se perguntou, e na verdade devia era para ter virado na cama e voltado a dormir, não pensar em besteiras. Não era para ter um barulho de vento?

Um dia você acorda e se pergunta se está errando agora. Não em acordar a essa hora, quando você precisaria estar dormindo para errar logo cedo no trabalho, mas num sentido mais amplo, num daqueles erros que começam como coisas pequenas e derrubam um avião ao final da cadeia. E você percebe que acordou com medo da Teoria do Caos, e de que ela seja verdadeira (provavelmente é), e que em algum lugar da Mongólia uma borboleta esteja batendo asas só para te fazer bater o carro ou contar uma piada absolutamente inadequada na hora errada ou dizer o que não devia para a mulher que acabou de conhecer e era a mulher da sua vida, mas que agora te acha um babaca. E você fica feliz que as borboletas estejam em extinção na Mongólia, porque elas batem asas o tempo inteiro, mesmo sabendo o que estão causando do outro lado, na sua vida. E você se lembra de como são as borboletas de perto, como pequenos alienígenas esquisitos, e se pergunta se a sombra da parede não seria de borboletas gigantes, batendo asas na sua janela, rindo baixinho das suas dúvidas. E fica feliz de que as sombras estejam paradas, porque esta ideia é perturbadora demais para te deixar novamente. Talvez pelo resto da vida.

Um dia você acorda e se pergunta se errou na vida. E, sem chegar a conclusão nenhuma, volta a dormir. Um erro.

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