Marcelinho, o Opinioso, comenta: A culpa é de vocês

Dos grandes vilões da ficção, poucos me impressionam mais do que James Moriarty. Se não sabe de quem se trata, herege, faça o favor de procurar no Google ou, de preferência, leia alguns dos contos em que ele aparece. Moriarty (ou melhor, Professor Moriarty para nós, pobres mortais) é o nêmesis de Sherlock Holmes – o melhor detetive que já existiu, real ou não. Ambos tinham a mesma capacidade intelectual, de dedução e de planejamento, mas a diferença de que Moriarty não tinha qualquer escrúpulo ou caráter, e preferia utilizar suas habilidades para se enriquecer e adquirir poder. Moriarty é um dos poucos vilões que faz jus ao título de “gênio do crime” na ficção.

Existem diferentes versões do Moriarty, mas as que mais gosto são aquelas em que ele é reconhecido em toda a Europa como um gênio da matemática, de nível incomparável, mas restrito à vida acadêmica, e ninguém – salvo Holmes – tem a mínima noção de que ele está por trás de uma gigantesca organização criminosa. A lógica da dissimulação e a incapacidade de alguém como Holmes em escancarar a situação do arqui-inimigo sempre me impressionaram.

Não tenho, nem de perto, a inteligência de Holmes, pelo menos como descrita por Sir Arthur Conan Doyle, mas ouso me gabar de não ter sido convencido, em momento algum, das virtudes do nosso recente Moriarty brasileiro. Sempre que um certo parlamentar era elogiado como paladino da moral e da ética, eu levantava uma sobrancelha, em desconfiança. Quando ele aparecia apontando o dedo na cara do corrupto da semana, eu sugeria aos colegas segurarem os suspiros apaixonados. E, por isso, posso me orgulhar de ter sido um dos poucos que conheço habilitado a falar recentemente o fatídico “Eu disse” quando o angu do rapaz desandou.

Não sou um gênio da dedução e da observação, nem tenho informações privilegiadas. Tudo o que eu tinha eram boatos regionais aqui e ali e uma desconfiança natural que, talvez, seja goiana. De resto, baseava minha avaliação em algo que acredito ser puro bom senso – e alguns consideram paranoia: eu sempre parto do pressuposto de que ninguém é, no privado, como parece ser no público. Em geral, aliás, as diferenças entre um e outro tendem a ser bastante consideráveis.

Imagem

Não estou falando apenas de políticos, estou falando de todos nós. Temos nossas manias, hábitos e trejeitos que não estão sempre presentes. Você não é o mesmo em casa, no trabalho, na boate e no futebol. Sua família provavelmente já reclamou de você ser de um jeito em casa e outro quando seus amigos estão juntos. E não há nada errado nisso, pelo contrário: as pessoas não esperam que você vá trabalhar de bermudas e sem camisa e passe o dia reclamando da sogra, porque são situações diferentes, contextos diferentes.

Quando se trata de uma pessoa pública então, a coisa fica ainda mais profunda. Estar sempre em evidência cria toda uma nova gama de situações de julgamento pela opinião pública e por outras pessoas, dá margem a questionamentos e, em geral, exige a criação de uma espécie de personagem que suporte o escrutínio e preserve a privacidade. Ou seja: ninguém é o que parece ser, muito menos na política.

O problema é quando esta personagem se dissocia demais da faceta privada. Em geral, isto acontece por algum comportamento privado que seria condenável em público: às vezes por preconceitos, às vezes por simplesmente desrespeitar a lei. E é a resposta da sociedade a este comportamento que o consolida ou extermina, seguindo o habituakl: quanto mais resposta positiva, mais a imagem se afastará da realidade – e não necessariamente alterará a personalidade original.

Ou seja: o paladino da ética pode não ter sido criação de vocês, mas foi alimentado por vocês. A personalidade dupla e oculta dele cresceu a partir da falta de desconfiança de vocês. “Ah, mas é compreensível, já que nosso povo anda tão carente de bons exemplos”. Talvez seja. Mas isso só justifica ainda mais a regra de que não se deve acreditar em primeiras impressões. Ou você se casa com alguém que acabou de conhecer?

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s