São Paulo, dia 1

Não sou do tipo que tem um troço no coração quando cruzo a Ipiranga com a avenida São João. Bem, na verdade não sei, talvez eu seja, ainda não passei pela esquina. Mas nunca entendi a paixão de muitos paulistanos pela cidade – assim como não entendia a dos cariocas pelo Rio de Janeiro. E se fui visitar a Cidade Maravilhosa para tentar compreender um fenômeno, nada mais justo que viesse a São Paulo realizar experiência semelhante com o outro. Assim, eis-me perdido na terra da garoa.

E nada poderia ser um cartão postal maior da cidade do que pousar em Congonhas. Aquele aeroporto é uma ode à luta da humanidade contra todos os limites imagináveis – inclusive o instinto de sobrevivência. Congonhas é do tipo que reacende crenças de todo tipo nas pessoas. Os religiosos se apegam à sua fé nos céus, os humanistas se apegam à ciência, mas ninguém aterrisa no centro de São Paulo 100% confiante de que estará vivo nos minutos seguintes. É assustador.

Infelizmente, minha fé nos humanos – que me fez voar razoavelmente bem até aqui – não durou 10 minutos após o pouso bem sucedido. Logo na saída do aeroporto, um “amigão” me leva até um táxi e pergunta para onde vou. Analisa o endereço e diz que podemos ir de taxímetro ou posso pagar o fixo, de 40 reais. Estranho – não parece tão longe. Ele alerta para um possível trânsito, que pode fazer minha viagem superar os 40 reais. Me arrisco, por sorte: a viagem não passa dos 25. Não é à toa que dizem na minha terra que “dinheiro de trouxa é matula de malandro” – dessa vez, um passou fome.

O jeito é evitar o táxi, o que não chega a ser um problema. Não estou exatamente no centro da cidade, mas o que não falta nesta cidade é ônibus e metrô. A viagem é longa mas, que diabos, tempo é coisa relativa nas férias. Por isso, aceito a sugestão de um amigo paulistano e abro a viagem com um passeio pela Avenida Paulista.

Que não me embasbaca. É uma visão deveras impressionante, é verdade, e justifica o passeio, mas não senti nenhum tremor, não ecoou na cabeça nenhum “Meu Deus, mas que cidade linda, no Ano Novo eu começo a trabalhar” (parêntese: também não senti isso por Brasília, pelo contrário. Estou fugindo de trabalho no Ano Novo. Fecha parêntese), nada parecido. Tanto que pouco depois me sentei em um café de esquina, onde aproveitei para almoçar (já eram quase 6 da tarde a essa altura) e observar o movimento.

O que confirmou tudo que já haviam me dito. A maioria das pessoas passa apressada para lá e para cá, quase sempre com fones de ouvido, imersas em seus pensamentos. O número de estrangeiros também impressiona quem não está acostumado a vê-los por aí: em meia hora de caminhada, ouvi pelo menos três ou quatro idiomas diferentes. E sim, é enorme a quantidade de “alternativos” andando para todos os lados, com todo tipo de penteado, visual e roupas que você imaginar.

Protesto por Pinheirinho na Paulista

Ignorem a baixa qualidade, tirei com o telefone. Aliás, eu e mais umas 40 pessoas. Tinha mais gente tirando foto do que gente protestando, na verdade.

Mas a Paulista não seria a Paulista sem um protesto, certo? Pois teve. Motivado pela operação da polícia em Pinheirinho, uma invasão em São José dos Campos. Procure na web por detalhes. Não era muita gente, mas foi legal para entender visualmente o impacto de qualquer manifestação no trânsito já caótico da cidade.

Aproveitei para visitar o vão do Masp, onde os manifestantes haviam se reunido pouco antes. Não sei não, mas acho que já se criou uma aura de protesto naquele lugar. Fiquei com vontade de reclamar de alguma coisa, mas lembrei que estava de férias e continuei andando.

Por essa hora, me empolguei com a caminhada. E resolvi que iria a pé encontrar um amigo que mora próximo à estação do Anhangabaú. Foi uma senhora caminhada, é verdade, mas pude ver um pouco do que é a famosa Rua Augusta. Ainda não estava cheia, é verdade, mas deu para ver a quantidade de inferninhos, bares e cantos para entretenimento espalhadas pela rua. Aproveitei o embalo e passei pela igreja da Consolação, na Praça Roosevelt. Aparentemente já foi muito bonita, mas algum gênio resolveu usar argamassa sobre os afrescos antigos. Davi, por exemplo, virou um corpo com cabeça de chapisco. Lamentável.

Por fim, conheci uma das partes que queria conhecer de São Paulo – e, admito, um dos principais motivos para minha visita: a gastronomia. Comecei de leve, é verdade, comendo um parmegiana em uma das tais padocas (uma mistura de padaria, bar e balada que virou moda por aqui, aparentemente), o que se revelou uma agradável surpresa. E me deixou mais animado para o resto da viagem.

PS: por sinal, se tudo der certo e eu estiver com sorte, o texto sobre o segundo dia só vem no terceiro, e olhe lá. Espero não ter tempo para isso amanhã.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Resenhas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s