Sem gás

– Uma água mineral sem gás, por favor.

Isso já aconteceu com você, ou com alguém próximo. O pedido é feito, o garçom anota e se afasta, a conversa segue. Ninguém presta muita atenção no que acabou de acontecer.

A “água mineral sem gás” é a metáfora perfeita da vida moderna. Ela é o anti-natural tornado natural, a antecipação que toma o espaço do caminho natural. Porque a água mineral sem gás, não faz muito tempo, era simplesmente água. Você pedia ao garçom uma água e, se fosse o caso, ele perguntava “Com gás ou sem gás, senhor?”. Se você já tivesse a intenção, poderia se antecipar e dizer “Ô comandante, capitão, tio, bróder, camarada, chefia, amigão… Uma água com gás, por favor!” Faria sentido.

Escolha sem pressa.A água mineral sem gás não, e é por isso que ela me irrita, me incomoda. O momento em que consideramos necessário reforçar que queremos água quando pedimos água foi talvez a derrocada definitiva da civilização. Foi quando dissemos “Ei, o que era esperado não é mais suficiente. Eu quero agora deixar claro que eu quero só agua, nada mais. Entendido?” Cortamos a pergunta do garçom, a evolução habitual. Fugimos.

E repetimos o erro em tudo. Pulamos etapas, resolvemos atalhar a vida. Tentamos antecipar o que vai acontecer no jogo de amanhã, buscamos spoilers da novela e do seriado. Queremos tudo agora, antes, para já. Amanhã é tarde. Se eu não souber hoje, ficarei louco. Estou perdendo tempo aqui. E tempo é dinheiro. Esquecemos o carpe diem, de dar tempo ao tempo. Se temos planos para a noite, torcemos para que o dia passe logo, como se o dia não tivesse nada de bom.

Desistimos de um relacionamento antes que comece porque presumimos seu fracasso. Criamos barreiras para garantir que ele não aconteça, que a pergunta do “te ligo amanhã?” não surja. “Preciso falar com ela hoje, preciso que ela saiba, antes que ela esqueça de mim”. Ou “se ele não me ligar hoje, depois de ontem, é porque não quer nada comigo”. Desistimos de esperar para ver se sentimos saudades. Nos assustamos com a solidão, mas insistimos nela porque já somos velhos conhecidos, e ela não aparecerá às 3 da manhã com flores para causar confusão e imprevisto.

Nessa sanha controladora, esquecemos o caminho. Desprezamos o acaso, abandonamos aquela gostosa sensação de surpresa. Para quê? O que tem no final do trilho de tão relevante para ignorarmos a paisagem que passa pela janela? Por que esse medo da pergunta? Para que a pressa? Até onde essa velocidade vai te levar? E quando você parar, ainda terá gás para aproveitar?

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “Sem gás

  1. A água com gás pode ser completamente natural. Em minas há parques onde há aguá com gás direto da fonte, e não só isso, há níveis para a gaseificação dela: 01, 02 ou 03. Também é possível beber água sulfurosa e ferruginosa, que por sinal o Luis odiou – todas!

    Talvez você esteja vendo o seu copo – com água com ou sem gás? – meio vazio. Cadê o otimismo? Agora temos mais opções de escolha, com gas, sem gás, com gelo, sem gelo… Talvez seja apenas a popularização de uma opção que até então não era tão escolhida, assim, tornando-se necessário especificarmos mais.

    É comum, em uma mesa em uma certa cafeteria, termos mais garrafas vazias de água com gás do que sem gás. Afinal, porque há de pagarmos fora de casa por algo que temos acesso dentro de nossas residências? Ou apenas pelo simples gosto à mais de ter bolinhas!

    Na verdade estou apenas querendo tirar o seu gás! Muahahahaha

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