Cecília Meireles estava errada

Nunca escondi minha admiração por Luis Fernando Veríssimo. Como cronista e escritor, dificilmente não rio de seus textos, mesmo os mais reflexivos. O último, no entanto, me fez pensar mais do que rir – e dormir menos. Você pode encontrá-lo aqui. Em resumo, Veríssimo cita Espinosa para lembrar a ideia do “sub specie aeternitatis” – do ponto de vista da eternidade (em uma tradução livremente feita pelo Google). Sei que a intenção do filósofo ao elaborá-la não foi a mesma que tenho, mas não consigo deixar de pensar sob o aspecto do relativismo absoluto.

Tenho um amigo (ou tive) com quem discutia sobre praticamente tudo. Dali adquiri o gosto pelo debate, pelo conhecimento intrínseco à discussão. Ter ideias e acreditar nelas é bom, mas só quando você se dispõe a defendê-las e alterá-las quando percebe que elas talvez não sejam tão perfeitas assim. Foi isso que aprendi nestas discussões, que iam rapidamente do futebol à macroeconomia, sem antes passar pelas grandes discussões da humanidade, como a epistemologia ou a necessidade da depilação no mundo moderno. E sempre, sempre, recaíamos em nossa principal divergência: o meu relativismo e o “absolutismo” dele.

Minha lógica era simples: não consigo pensar em nada absoluto. Nem a morte, sobre a qual ninguém tem muita certeza, já que não temos certeza sequer sobre o que é a vida. Quer ter uma noção? Pergunte a qualquer um o que é a vida ou o viver. Você verá o esforço hercúlo usado na produção de uma resposta que ainda assim será incompleta ou nada satisfatória. De volta: eu achava difícil acreditar em algo como certo e definitivo porque praticamente todos os nossos conceitos são, em última instância, relativos. Mesmo os que deveriam ser gerais. Tenho certeza que ofendo algum epistemologista neste momento, que urra em frente ao computador, mas isso é o máximo que minha mente chegou vasculhando sozinha as noites de segunda. Agradeço reprimendas informativas.

Digressão feita, volto ao texto do Veríssimo. Ele fala sobre quão relativas se tornam nossas ações, qualidades e defeitos do ponto de vista da eternidade. Faz todo o sentido. Pense em um grande nome da humanidade, qualquer um. Júlio César, imperador romano? Foi um dos responsáveis pelo maior império da humanidade, é verdade, mas e daí? Esse império durou apenas alguns séculos na história de uma humanidade que não tem mais do que alguns milênios, ocupando um planeta com bilhões de anos, surgido em universo ainda mais antigo. Meu ponto é que nada, nenhuma realização humana já ocorrida (ou, me arrisco a dizer, a ocorrer) é grandiosa o suficiente para se inscrever na história eterna do universo.

Pode ser uma ideia frustrante a princípio: que relevância tem o que fazemos aqui? De que adianta eu estudar Medicina e criar a cura da Aids se, em alguns bilhões de anos, o Sol vai se apagar e a humanidade, salvo colonização espacial, encontrará seu fim? Ou pereça antes mesmo, diante de uma nova Aids, mais violenta, perigosa e contagiosa? Para que trabalhar, lutar, brigar? Qual o mérito de uma novela, ou de um debate político, ou de construir uma casa, educar seus filhos, produzir uma música?

Eu sempre acreditei que eu tenha me tornado jornalista para poder escrever. E que meu gosto por escrever tenha vindo da influência de Cecília Meirelles. Não sei quem se lembra do fato, mas praticamente tudo que estudamos sobre a poetisa no Ensino Médio nos diz que ela escrevia para combater a efemeridade da vida, em uma busca pela imortalidade. Eu gostava disso, da ideia de que podemos nos tornar imortais, eternos em nossas obras, e que nada melhor do que a escrita para isso. Mas, será mesmo? Por quanto tempo falarão de Cecília Meireles? Quanto ainda falam de Olavo Bilac, gênio de seu tempo e hoje criticado e quase esquecido por uma grande maioria? Por quanto tempo resistirão as obras de Shakespeare? Mil anos? Dois mil? E o que são mil anos para a eternidade?

Confesso que me incomoda a ideia de que nada que faremos, no final, servirá de alguma coisa. Por outro lado, ela abre outra porta: se nada que eu fizer valerá no final, eu preciso me apegar ao valor das minhas ações agora. Porque agora elas têm um significado, agora elas têm valor. Qualquer legado que eu deixe vai sucumbir ao tempo um dia, mas enquanto ele tiver efeito, ele terá valido alguma coisa. E me parece angustiante a ideia de que eu não estou fazendo nada. Que trabalhar como jornalista, relatando trivialidades e futilidades, assistir a seriados, comer e dormir não me parece o caminho para construir um legado, para fazer algo que impacte a vida das pessoas e o mundo. Cecília Meireles estava errada.

O futuro não me pertence, o presente sim, e é nele que tenho que me apegar. Não como um carpe diem, aproveitando ao máximo a vida enquanto for possível, mas como um fazê-la valer a pena. Trabalhar pelo mundo, pelas pessoas, pela sociedade. Permitir que outras pessoas reflitam como eu, e concluam que precisam se mover, trabalhar, pensar, moldar o mundo. Porque se o hedonismo absoluto parece a única alternativa do ponto de vista da eternidade, ele não gera nenhum legado, nenhum impacto, nenhum efeito. E pode não existir um conceito absoluto de viver, mas tenho certeza ser apenas um amontoado inútil de energia e átomos não deve estar na lista de possibilidades.

 

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