Os benefícios do mal-humor

A maioria dos meus amigos, quando vê as músicas que ouço, me considera a definição do ecletismo. Concordo, provo e juro que não forço: segue abaixo uma lista de 10 músicas retiradas do shuffle na minha lista do Winamp, só de exemplo.

  • The Clash – I Fought the Law
  • Counting Crows – Mr. Jones
  • BanYa – Beethoven Virus
  • Art Popular – Pimpolho
  • Zé Ramalho – Entre a Serpente e a Estrela
  • Black Sabbath – Paranoid
  • AC/DC – T.N.T
  • Rap Brasil – Rap do Centenário
  • Aviões do Forró – Somos Loucos
  • Rammstein – Du Hast

Sim, eu provavelmente ouço coisas que você considera de péssimo gosto e de péssima qualidade. SPOILER: todo mundo é assim, em alguma área da vida. Você talvez só goste de música boa, mas lê Paulo Coelho e auto-ajuda ou acha que a saga Jogos Mortais é cinema. Olhe no espelho antes de me julgar.

O problema de ser assim é que eu acabo conhecendo muito pouco das bandas que ouço, em geral. Não tenho nenhum problema em ouvir cinco, três ou mesmo uma única música de uma banda e ignorar todo o resto da sua discografia. É o que faço, por exemplo, com Plebe Rude, Kansas, Harry Belafonte e Ini Kamoze. Só que isso me coloca numa situação delicada quando alguém me pergunta “Do que você gosta em música?”. Como dizer que gosto de alguma banda da qual só ouça uma música? Por isso, minhas respostas giram normalmente em torno dos poucos nomes que têm mais de 10 músicas em minha lista: Nat King Cole, Rammstein, Johhny Cash, Gogol Bordello, AC/DC, Queen, The Beatles, Ultraje a Rigor e, principalmente, Matanza.

Matanza

Formação atual do Matanza. O cara simpático da esquerda é o Jimmy, vocalista.

O que nos leva ao assunto original deste post. Conheci Matanza em 2003, quando a banda carioca tinha acabado de lançar o álbum Música para Beber e Brigar (2003), recheado com clássicos como “Pé na Porta, Soco na Cara”, “Matarei”, “Bom é Quando Faz Mal” e minha preferida, “Maldito Hippie Sujo”. Nessa época, os caras já tinham uns 7 anos de carreira, eram conhecidos no mundo do rock alternativo e batalhavam com Santa Madre Cassino (2001), aberto logo de cara com “Ela Roubou Meu Caminhão”, hino country-hardcore da dor de cotovelo pelo que realmente importa.

Para quem não conhece, explico o que era o Matanza daquela época: pense em uma banda de metal – guitarras pesadas, bateria acelerada. Difícil achar uma música da banda com mais de 3 minutos. Acrescente a isso elementos típicos do country, como bandolim e letras com temática de faroeste. Isso era o primeiro disco. No segundo, menos faroeste americano e mais a nossa versão de faroeste, com a vida de caminhoneiro, brigas de bar, vagabundas de estrada e mal-humor. Daí em diante o segundo elemento foi se fortalecendo, e o primeiro ficando pra trás, com uma paradinha em To Hell with Johnny Cash (2005), homenagem especial ao Men In Black mais motherfucker da música do interior americano.

Odiosa Natureza Humana

Poster do lançamento do CD, feito em março. A capa normalmente tem uma gostosa "faroestiana" desenhada.

O resultado foi A Arte do Insulto (2006), álbum que ajudou a catapultar definitivamente a carreira de Jimmy (vocal), Maurício Nogueira (guitarra), China (Baixo), Jonas (bateria). Donida, criador da banda e ex-guitarrista, está hoje só na composição. Para ter uma ideia do que é A Arte do Insulto: “Clube dos Canalhas”, “Eu Não Gosto de Ninguém”, “Meio Psicopata”, “Ressaca Sem Fim” e “Whisky para um Condenado”. Dois anos depois, a banda seria convidada a fazer o MTV Apresenta Matanza.

Toda essa firula para falar do último CD dos caras, que caiu na minha mão por esses dias. Odiosa Natureza Humana é a consolidação do caminho cada vez mais hardcore e menos countrycore como no começo. De resquício do antigo Matanza, só uma leve referência temática ao faroeste em “Carvão, Enxofre e Salitre” e “Amigo Nenhum”. De resto, sobra sociopatia em “Remédios Demais” e “Conforme Disseram as Vozes”, misantropia na faixa que nomeia o álbum e “Escárnio” e mal-humor em “A Menor Paciência”, “Tudo Errado” e “Saco Cheio e Mal-Humor”. Um prato cheio para uma catarse auditiva de 37 minutos. Recomendo fortemente.

Nota: 9 (sinto falta do country original, mas a banda continua sensacional)

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