Fazer a diferença (ou Porque Felipe Neto continua errado)

Fiquei muito feliz com a repercussão de meu texto anterior, “Porque Felipe Neto está errado” (se você não leu, é o post imediatamente anterior, só clicar aí em cima, ó). Mais do que qualquer efêmera popularidade que eu pudesse ter buscado, como chegou a ser afirmado por alguns, o que me alegra é o debate criado. Fiz questão de responder um por um os comentários, porque muitos deles traziam argumentos realmente pertinentes e dúvidas válidas, e esse é o caminho. Ver uma discussão na Internet sobre legislação tributária e participação política é simplesmente animador, principalmente para quem já se acostumara a Fla-Flus ideológicos e embates exaltados sobre este ou aquele personagem de ficção. Achei, por isso, que seria válido sintetizar os principais questionamentos que recebi e minha contra-argumentação, como uma forma de dar continuidade à discussão.

A crítica que mais recebi pode ser sintetizada da seguinte forma: “O Felipe Neto pelo menos está tentando fazer alguma coisa, mobilizar as pessoas, que mal há nisso”? Eu poderia ser simplista e responder que escrevi um texto sobre o mesmo tema, que poderia tranquilamente ser gravado em um vídeo exaltado como ferramenta de protesto. Estaríamos, eu e ele, em pé de igualdade, com exceção óbvia para o público de ambos. Acredito, no entanto, que a minha preocupação com a mensagem compensasse o parco alcance da mesma. Posso estar enganado. De qualquer forma, não é do meu feitio a resposta retórica simples, por isso explico a lógica que aplico.

Vetores opostos

Duas forças mal direcionadas podem se anular. Vale para a Física, vale para a mobilização social.

O problema da ação do Felipe Neto (e de todo o projeto #precojusto) é que ela é desorganizada, mal planejada e vaga. Dizia Esopo, notório por suas fábulas: “é perigoso agir sem refletir”. E me parece ter sido exatamente o que faltou: reflexão. Existe ali toda uma energia de revolta completamente válida e justificada, mas aplicada de maneira equivocada. A lógica usada é confusa, o objetivo não é claro, as ferramentas a serem empregadas menos ainda. Todo o manifesto parece se perder em uma lógica esperançosa de que a existência de uma razão válida por trás de tudo é certeza de sucesso. E isso não acontece, pelo menos no mundo real. A Física (e me atrevo em área que nem de perto domino) já nos mostrava que duas forças – e até mais – podem se anular. Basta que a direção seja mal planejada. É por isso que o simples agir do Felipe Neto não é, pelo menos a meu ver, suficiente. Em que direção ele vai?

Outro argumento utilizado: “Não existem indústrias de eletrônicos no Brasil que produzam os produtos que queremos comprar, e portanto, ninguém seria prejudicado pela redução dos impostos”. Essa é uma meia verdade. Essas indústrias de fato não existem no Brasil hoje. Assim como a Fiat não existia antes de 1973. Ou a Honda antes de 1997. Aliás, a Suzuki planeja instalar em 2013 uma fábrica no país. E isso para ficar só no setor automotivo. O não existir atual não significa que não possa vir a acontecer. E sabe o que estimula a vinda dessas empresas, que trazem tecnologia, criam empregos e movimentam a economia? O aumento da competitividade da nossa indústria, e não somente nossa alegria em comprar seus produtos de alta qualidade. Diminuir o comumente chamado Custo Brasil passa por ações como reduzir custos de produção (o que inclui impostos, mas não necessariamente de importação), por exemplo, e simplificar a legislação trabalhista.

Quanto à questão da importação de componentes importantes, também citada e muito válida, recorro ao artigo bacana do Raphael Gaudio no Papo de Homem. Ele falou do mesmo tema que eu e com abordagem parecida, mas se focou em algo que eu havia esquecido de citar: os ex-tarifários. O governo já tem hoje um modelo de redução de impostos de importação para matéria-prima – não só eletrônica – importante para nossa indústria e que não tenha equivalente produzido no país. E não são poucos. A Câmara de Comércio Exterior, órgão interministerial, divulga quase que mensalmente uma lista com centenas desses produtos beneficiados. O que não impede, de forma alguma, mais incentivos governamentais para que esses mesmos componentes possam ser fabricados no Brasil, além da extensão daqueles que já existem (a Lei do Bem, por exemplo, que funciona desde 2005 e pode ser melhor entendida aqui).

Outro argumento: “Tudo bem, saúde, educação e segurança são importantes, mas isso não quer dizer que lazer não seja“. Verdade. Está até previsto na Constituição. Mas recorro a um raciocínio econômico que explica meu desgosto por tamanho esforço por um tema como impostos de tablets, videogames e jogos. O governo não tem recursos infinitos, porque nós garantimos esses recursos, e eles definitivamente são finitos. Isso significa que não dá para fazer tudo: para isso existem prioridades. E eu acho difícil ser convencido que, do ponto de vista da sociedade como um todo, seu direito de adquirir um Ipad ou um “Call of Duty” mais barato possa ser prioritário em relação a questões como merenda escolar, combate ao analfabetismo e ao narcotráfico. O dinheiro para tudo isso sai do mesmo lugar – os cofres públicos – e algo aí vai ter que prejudicado. Essa lógica do chamado trade-off, aliás, pode ser aplicada ao mesmo raciocínio sobre o mérito do protesto como um todo: a energia e vontade gastas em todo o processo não compensam os resultados, e poderiam ser melhor aplicadas de outra forma. Economicamente falando, portanto, o vídeo e a campanha que o seguiu são um desperdício de recursos preciosos (no caso, a já escassa vontade de lutar de grande parte dos brasileiros).

Portal da Transparência

Aproveite para visitar e conheça o Portal da Transparência

Aproveito o fim de um texto que já se alonga demais para dar dois exemplos recentes de como dá para, do seu computador, fazer mais pela redução de impostos do que assinar virtualmente uma vaga petição online. O primeiro é esse: um servidor público do Amapá encontrou, usando uma ferramenta pública online gratuita e à disposição de todos, dados estranhos sobre funcionárias do mesmo órgão e denunciou ao Ministério Público. O desvio já chegava a R$ 200 mil reais, o que dá o que, 100 Ipads comprados legalmente no Brasil? E quantas merendas esse dinheiro poderia pagar? O segundo é quase uma intimação de minha parte. Quer defender, fazer petições e passeatas a favor de um projeto importante que ajude o país a aplicar melhor seus recursos? Escolha um ou mais dos noventa e nove (99) (e essa informação é de uma reportagem de HOJE exibida pela Globo News) que ampliam a punição a corruptos no país e estão mofando por falta de vontade dos parlamentares que NÓS elegemos. E isso, meus amigos, são só duas possibilidades para fazer muito mais diferença do que qualquer hashtag.

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14 Comentários

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14 Respostas para “Fazer a diferença (ou Porque Felipe Neto continua errado)

  1. Ricardo Souza

    Já tinha gostado do seu post anterior e esta continuação não decepcionou! A discussão foi intensa, e você realmente se preocupou em responder às críticas.
    Concordo quando você disse (em resposta ao meu comentário no outro post) que a mobilização em si é louvável, só está mal direcionada. Isso dá um grande otimismo, podemos prever que a mobilização popular vai ser cada vez mais importante nessa era digital.
    Mas o pessoal devia entender que não adianta nada sair “assinando” manifestos a esmo! Sem querer ser preconceituoso, mas acho que uns 70% dos que assinaram o manifesto do FN não tem idade pra votar e nem conhecimento mínimo necessário para julgar a questão. Eles assinaram porque querem videogames e gadgets mais baratos (e quem não quer??), sem se preocupar com a lógica por trás da coisa. O fato de ser tão fácil “mobilizar” pessoas pela internet (basta um clic para aderir) é uma faca de dois gumes: pode promover campanhas ridículas ou trazer boas idéias (de que nossos políticos precisam tanto!) para o debate público.
    Mais uma vez, meus parabéns!

    • opinioso

      Muito obrigado pelos elogios. É justamente meu ponto: esse povo está assinando o que? Como você reagiria se alguém batesse à sua porta e falasse “estamos fazendo um abaixo assinado para deixar jogos e videogames mais barato. Ainda não sabemos como, mas vamos fazer isso. Você poderia assinar aqui e me dar seu CPF, por favor”? A galera não se pergunta isso…

  2. Gustavo Amorim

    Na minha opnião o Brasil tem uma política tributária completamente esquisofrênica, porém nas últimas décadas isso não era tão sentido pelo população que estava mais preocupada em sobreviver (plano cruzado, hiper-inflação) do que adquirir bens de consumo, principalmente de tecnologia. Porém com o aumento do poder aquisitivo num período de crescimento e estabilidade economica do gover Lula, este público (classe média) que antes estava com as barbas de molho, agora coloca suas manguinhas de fora. O #preçoJusto do Felipe Neto cristaliza os anseios desta classe média, a que mais paga impostos neste país, que são tão legítimos quantos os anseios do público da bolsa família. A verdade é que temos os ricos e milionários quando querem algo falam tete a tete com os poderosos, os muito pobres tem a opinião pública a seu favor, além do marketingo social e político captado por políticos populistas (Fome Zero, que depois de tantos anos e BIlhões não conseguiu ainda zerar o que se propõe), e a classe média, que paga toda esta conta. Mas ainda está viva. #PreçoJusto Já!

    • opinioso

      O Fome Zero foi um fracasso. Não funcionou logo de cara e por isso foi substituído pelo Bolsa-Família que, esse sim, ajudou a reduzir a desigualdade de renda do país, ainda que haja muito o que fazer. Quanto à classe média pagar toda a conta: somos 90 milhões de pessoas, praticamente metade da população do país. Não só pagamos a conta como temos potencial para, no voto, eleger quem quisermos: ainda mais do que os mais pobres. E precisamos exercer essa força, mas principalmente nas urnas.

      É isso que falta entender: que esse protesto pode até funcionar agora, mas vai mesmo resolver todos os problemas? Ou só vai garantir que os jovens da classe média possam se divertir, e dane-se o mundo que eu não me chamo Raimundo? É isso que falta entender: impostos (ainda mais os de importação) são apenas uma peça em uma gigantesca engrenagem que precisa de graxa e óleo permanente. Lubrificar só uma delas não vai impedir toda a máquina de quebrar se o resto não for vigiado. E todo esse povo vai mesmo assinar tão feliz uma petição online pela reforma previdenciária?

  3. João Oliveira

    Cara, desiste, seu haterismo não pega…

    Aliás, ele escreveu esse texto aqui: http://papodehomem.com.br/o-precojusto-e-um-manifesto/

    que simplesmente anula tudo o que você falou aí.

    Vai reclamar de quem não faz porra nenhuma e deixa de ser pequeno, mesquinho, com ódio… Se o cara conseguir o que quer, não vai te prejudicar em nada, só melhorar a sua vida, por menor que seja a melhora, então pra quê esse ódio?

    Vá fazer algo produtivo cara, você não está fazendo NADA.

    • opinioso

      Engraçado, sempre achei que haterismo era aquele mimimi sem argumentos feito na base da ofensa. Se eu simplesmente falasse, por exemplo, que o Felipe Neto xingar no Youtube é coisa de gente pequena, mesquinha, com ódio…

      Gostei do texto dele, foi muito mais sensato do que o vídeo e o manifesto. Mas merece comentários pensados, uma avaliação cuidadosa, e não disponho do tempo para isso agora. Vou até perguntar se querem que eu continue insistindo no assunto hoje, já que muita gente aparentemente já se cansou dessa discussão.

      Abraços, e obrigado pelo link!

  4. Annon

    Achou uma forma de divulgar seu blog ein ^^ esperto da sua parte.

    • opinioso

      Observe meu blog. Eu pareço alguém preocupado em fazer uma divulgação irresponsável de algo do qual eu dependa para viver? Definitivamente não. Este sempre foi um espaço, como o próprio nome enfatiza, para jogar minhas opiniões. Valorizo, acima de tudo, o debate, e fico feliz de que esse texto tenha ajudado a provocá-lo. De resto, não me preocuparia mais ou menos que, ao fim e ao cabo, o blog volte ao ostracismo que lhe coube todo esse tempo. Abraços.

  5. Pingback: Da arte de se explicar sem se explicar (ou Porque o #preçojusto não pode ser defendido) | Marcelinho, o Opinioso

  6. Andrei

    Sempre odiei saudosismo e a comparação saudosista entre gerações, mas essa campanha me força a pensar que estamos muito mal parados. Claro que hoje temos questões menos urgentes para se discutir do que gerações anteriores, mas fico espantado com a futilidade desse tema e muito mais com a falta de embasamento teórico para se levantar essa questão e para aderi-la.
    Poderia comentar o fato de terem ignorado uma das ferramentas mais importantes de proteção da nossa indústria ou que estão tentando combater o mal errado, pois deveria-se combater a forma errada de se empregar os recursos adquiridos com os tributos, mas ver pessoas assinando embaixo de um manifesto e defendendo uma causa de consequências tão sérias por causa de um vídeo de 8 minutos e um texto de uma página me deixa muito mais preocupado. Hoje assinam um pedido de retomar as medidas neoliberais que nos desindustrializaram nos anos 80 e 90, o que já é ruim, mas amanhã um outro rostinho bonito contaminado por idéias erradas pode propor algo pior e as consequências podem ser piores.
    Então, fica registrado o meu desapontamento não com aqueles que se manifestam descontentes com a nossa tributação sobre importados, não com aqueles que não se manifestam, mas com aqueles que aderem a um movimento sem sequer saber suas reais consequências

    • opinioso

      É justamente meu ponto, Andrei, e agradeço o comentário. Das duas uma: ou esse povo acha que o vídeo (com o suporte das assinaturas online) é um começo para uma revolução sem precedentes, que vai começar com eletrônicos mas vai acabar com o Brasil virando um país escandinavo ou são apenas egoístas de visão limitada preocupados com o próprio umbigo.

  7. Larissa Prado

    Devo, sinceramente, te dar os parabéns por argumentos muito bem explicados e principalmente justificados.
    Acho que se os jovens continuarem com pensamentos semelhantes ao seu, conseguiremos sim mudar o nosso futuro. Devo confessar que quando vi o vídeo do Felipe Neto, achei interessante a predisposição dele de fazer “alguma coisa”, mas lendo o que escreveu pude analisar melhor tanto o vídeo quanto os seus textos a respeito e, assim, percebi que o fala tem sim muita coerencia.
    O grande problema da juventude brasileira é que está completamente dominada pelo módelo econômico, não estou querendo criticar o capitalismo, não acrdito que hoje em dia seja muito possível mudar esse regime, mas as pessoas só conseguem pensar de forma individualista, coisa imposta pelo regime.
    Na hora de mostrar sua voz, os jovens só sabem argumentar sobre video-games e computadores, ou outros artigos eletronicos, mas quando se trata de argumentar sobre política e economia (que é o que permite possuir esses bens) acham sempre “muito chato”. Enquanto não houver uma forte conscientização por parte dos jovens, ou melhor dos brasileiros, de que economia e política não são assuntos chatos, mas sim muito importantes nas nossas vidas, os protestos serão sobre coisas superfulas.
    Acho que me estendi muito, mas queria deixar registrado que achei muito interessante o que disse.

  8. A classe média, vazia politicamente, precisa encontrar um tema, um grupo, algo para se destacar e ao mesmo tempo fazer parte de um grupo, uma comunidade. E, facilmente manipuláveis, estes jovens são atraídos pelas idéias e pessoas que brilham mais, que conseguem fazê-los pensar que podem ser “legais” sem mudar nada em suas vidas.

    É o velho “fique rico sem fazer esforço”, mas neste caso ao invés de rico, você fica “popular”.

    No fim das contas, o que poderia ser uma reclamação justa e honesta contra os impostos e contra a péssima qualidade dos serviços prestados pelo Estado (aí também entram os péssimos serviços prestados pelas empresas que foram privatizadas, mas neste ponto a classe média não toca), acaba se tornando uma besteira tremenda.

    E, lembrando, não toca no ponto principal, que não são os impostos em si o problema, mas sim a “socialização” dos impostos. Rico não paga imposto no país. O problema não é a classe média pagar imposto, mas pagar demais enquanto os ricos não pagam quase nada e, no fim, pouco lhes importa a carga tributária, pois ou ganham o suficiente para não se preocupar com isso ou simplesmente sonegam.

    A grande questão a ser debatida não é em si a carga tributária, mas QUEM paga.. E, claro, nem pensar na “campanha” tocar em outros problemas, como o valor dos salários, a precarização do trabalho que também influem na questão.

    Segundo Felipe Neto, o problema não é do povo, a culpa não é do povo, mas dos políticos.

    Errado.

    A culpa também é do povo que vota nos políticos canalhas – em muitos casos SABENDO disso, ou Maluf não seria eleito – e do povo que não fiscaliza, que não participa e mesmo dos que não votam não por ideologia, mas por achar que são só um bando de canalhas. Depois ficam reclamando no Twitter.

    http://www.tsavkko.com.br/2011/04/preco-justo-ja-e-falta-de-critica-da.html

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