Ortorexia (aprendi ontem essa palavra e resolvi usar, ok?)

Não acredito em ditadura da beleza. Talvez uma ditabranda, mas definitivamente nada muito radical.É que os critérios nessa área são meio maleáveis, sabe? O belo às vezes cai diante de uma característica da personalidade, e vice-versa. É o famoso “ela é bonitinha, mas será que ainda usa o e-mail pré-adolescente?”. Ou a onipresente a feinha supersimpática, que é salva pela maquiagem e pelos Photoshops destilados da vida noturna. Dois exemplos que comprovam a mesma teoria, mas não significam que a beleza seja algo irrelevante, como de fato não é. E que não possa eventualmente se tornar uma obsessão, principalmente quando misturada à ideia de que beleza e saúde são a mesma coisa. Como aconteceu com um casal amigo meu dia desses.

– Está pronta, querida?

– Acho que não vou.

– Ué, por quê?

– Estou sem fome.

– Mas é seu restaurante favorito!

– Era, não é mais.

– Por que?

– Parei de comer comida italiana.

– Mas você é de família italiana!

– Pois é! Passei a vida comendo essas massas com molhos e carnes, recheados… É por isso que estou essa bola!

– Que bola? Você está no seu peso ideal!

– Não tente me agradar com essas mentiras, Luis Henrique. Se você quer fingir que estou magra para não ter uma mulher gorda, o problema é seu. Eu preciso admitir minhas dificuldades.

– Quem está tendo dificuldade sou eu, e é de entender essa maluquice. Que te deu para resolver não comer mais massa?

– Carboidrato, meu caro. Eu sei que você não se cuida, não está nem aí para o que come, e por aí está com essa barriga de apresentador de talk show brasileiro, mas eu cortei completamente o excesso de carboidratos.

– Eu não vou continuar nessa discussão, Amanda, porque estou com muita fome. Tudo bem, não vamos de italiana hoje. Que tal um churrasquinho. Carne é proteína.

– E gordura, muita gordura. Quer entupir minhas artérias?

– Meu Deus… Japonês?

– Comida crua, ficou louco? Você não assiste o Fantástico? Nunca ouviu falar de salmonela?

– Tailandesa?

– Pimenta provoca gastrite, úlcera, azia, refluxo e – dizem – câncer de garganta. Sem falar nas hemorroidas.

– Chinesa? Mexicana? Alemã?

– Puro óleo com gordura trans, abacate que transmite chagas e você já viu como fazem aqueles salsichões? É de fazer político enjoar.

– Francesa?

– Faz mal ao bolso.

– Eu desisto, Amanda. Vamos ficar em casa mesmo, eu esquento uma lasanha de microondas.

– Eu que desisto, Luis Henrique. Tem noção de quanto sódio tem aquilo? É comer uma e ganhar automaticamente uma pedra no rim.

– Ahhh! Vou fazer um sanduichinho.

– Pão com centeio pode causar envenenamentos e alucinações e mortadela tem cisticercos que em dois dias viram verminhos passeando no seu cérebro. Sem falar na doença da vaca louca que vem no queijo.

– E o que eu vou fazer para sobreviver, hein? Beber água?

– Bom, se você confia nesses carvões de filtro…

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