Virol

Percebeu, num instante, que a arrumação da cama havia ficado perfeita em um único movimento.

E quando digo perfeita, era perfeita mesmo. Ele não acreditava. Devia estar enganado. Deu uma volta na cama, observou, parou, observou de novo. Pensou em mexer para ver se era aquilo mesmo, mas ficou com medo de amarrotar. Tomou distância até encostar na parede. Acho que havia visto alguma diferença, resolveu medir com uma trena que guardava na gaveta. Não, nada estava torto, as distâncias eram iguais em todas as direções que precisavam ser. Deu mais uma volta na cama, reconferiu. É, estava perfeita mesmo.

Não entendeu muito bem como havia percebido o fato. Não era algum tipo de obcecado por organização ou limpeza – a bem da verdade, deixava tudo do jeito que estava quando saía a maioria das vezes. Mas naquele dia em particular, naquele minuto, a perfeição lhe saltou aos olhos. E o encheu de uma sensação que ele não se arriscaria a descrever para não diminuí-la. Era mais forte que um orgasmo, melhor do que um suco gelado de manga fresca (era tarado por mangas desde moleque). Era… especial. Ele não se cansava de olhar para a cama, extasiado. Até lembrar de que estava atrasado para o trabalho. Suspirou mais uma vez e saiu.

Trabalhou desatento, como se nem estivesse ali. Apressou o passo para chegar em casa, quase não concluiu o expediente. Quando voltou, alívio: a cama ainda estava lá. Intacta, perfeita. Chegou a vislumbrar um brilho especial, algo como se uma aura mística a circundasse, mas percebeu racionalmente que se tratava apenas do reflexo da lâmpada pela janela. Mesmo assim, que cama! Que arrumação! E fora de uma vez só! Colocara o lençol por baixo como sempre fazia, sem maiores expectativas, e jogara o virol por cima, tentando cobrir toda a extensão de uma vez. Conseguiu mais do que isso. Conseguiu algo que não se acreditava humanamente possível, a pedra fundamental das hospedagens, o cálice sagrado do sono. E foi de uma vez só, simples assim. Ainda quase não acreditava.

Viu TV sem prestar muita atenção. Só conseguia lembrar da cama. Precisava contar para alguém. Pensou em ligar para o irmão, mas desistiu rapidamente – o irmão não entenderia o valor da conquista. Talvez a mãe? Ou a colega de trabalho que passava o dia criticando sua falta de organização pessoal. Ah, ela veria que ele não era nada disso, pelo contrário – era o melhor arrumador-de-camas-de-uma-vez-só que já existiu. Ela teria de lhe dar o crédito, e reconhecer publicamente suas qualidades. Toda a repartição lhe cairia aos pés, entre aplausos de júbilo e regozijo. Quem sabe uma placa?

Ainda sonhava acordado quando percebeu que já era hora de dormir. Se dirigiu até a cama (que daquele momento em diante seria intitulada “A CAMA”), mas parou no meio do caminho. Iria amarrotar o tecido? Iria destruir a perfeição? Quem era ele para isso? Não tinha o direito a tal honra. Aquela cama agora era a cama de um rei, e ele podia ser o melhor arrumador-de-camas-de-uma-vez-só do mundo, mas não era um rei. Não, ele mal merecia ficar naquele quarto. Voltou para o sofá e dormiu por ali mesmo, desconfortável, mas tranquilo.

Só que a sensação mudou depois de uma semana. O sofá não era destinado ao sono, e logo uma dor permanente nas costas o incomodava, dia após dia. Além do fato de que ele acabava acordando mais cedo do que gostaria – a janela da sala não tinha cortina, e o Sol não iria se atrasar apenas para que ele dormisse mais um pouco. O estopim foi o domingo, quando acordou de ressaca, com a cara queimando sem perdão.Resolveu ali mesmo que precisaria acabar com sua obra. O mundo não a reconheceria de qualquer forma, estava fadado a ser uma espécie de Van Gogh do seu tempo, um artista incompreendido da arrumação de camas. Sua saúde estava em risco, seu trabalho idem – a dor nas costas era totalmente convertida em mal-humor assim que pisava na repartição, e isso não ajudara em nada com os colegas.

Decidido, caminhou até o quarto. As lágrimas lhe escorriam pelos olhos, mas era preciso. Sua vida seria arruinada por sua obra, ele precisava impedir isso! Fraquejou um instante, as pernas quase arquearam. Se apoiou na parede, sentiu náusea, mas resistiu. Era como se algo o empurasse para trás. Quase podia ouvir um “Não” ecoando baixinho em seus ouvidos, como se pronunciado por um vento que passasse por panos esticados em um varal. Ele agora se arrastava até o quarto, rangendo os dentes. A náuse aumentava, as lágrimas também, mas ele precisava fazer aquilo. Num rompante, invadiu o quarto e, com um único gesto, puxou o virol.

Um grito de terror ecoou pelos corredores do prédio.

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “Virol

  1. Marcelo (o Pai)

    VOCÊ ESTÁ PRONTO PARA SER CAMAREIRO…
    A HOTELARIA TE ESPERA…
    QUEM SABE O “JESUS” NÃO TE ARRUMA UMA BOQUINHA LÁ NO HOTEL?
    EHEHEH….

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