Marcelinho, o Opinioso, comenta: Um mês e uma semana

E completamos um mês e uma semana de governo Dilma. Um pouco mais, é verdade, mas nada que vá afetar minha análise. Poderia ter recorrido ao expediente dos grandes jornais e analisar o que se passou em um mês, mas achei o prazo pequeno e superficial para uma análise séria e decente da atuação de Dilma Rousseff até agora. Um mês e uma semana não, são mais do que suficiente. E isso, meu caro estudante que chegou ao terceiro ano do Ensino Médio sem saber quando usar s, ss e cedilha, foi sarcasmo.

Não dá para fazer uma análise profunda e séria mas dá para ter uma noção. O governo Palocci, até agora, está fazendo quase tudo que minha humilde opinião embasada em idiossincrasias particulares considera correto. A começar pelo esforço em colocar técnicos em áreas técnicas, o que não foi nenhuma surpresa. Dilma foi ministra no governo Lula e deve ter cortado um dobrado tentando trabalhar com um diretor de Furnas como Paulo Conde, entre outros. O governo passado não se esforçou minimamente em evitar o loteamento político de setores estratégicos, a despeito da queda na qualidade dos serviços prestados.Lula seguia a máxima do ” Tudo vale a pena quando a aliança no Congresso não é pequena”. Dilma não, mesmo que com ressalvas – no caso dela, são apadrinhados políticos, mas com alguma experiência no setor e em geral avaliados positivamente por ela. Ponto para Dilma.

Segundo ponto: ajuste fiscal é ajuste fiscal. Qualquer um sabe que não dá para economizar e gastar aqui com um chocolate, ali com um jantar, mais à frente com um reajuste do salário mínimo que vai impactar em bilhões um orçamento já apertado. Existe um motivo para o reajuste do mínimo ficar em R$ 545,00: um acordo aprovado ano passado por governo, Congresso e, surpresa, sindicalistas. Todos entendemos que o mínimo não está no nível que os trabalhadores merecem e não sei o que, mas não é quebrando o país que isso vai se resolver. Não custa lembrar que, mantidas as previsões para crescimento esse ano e seguindo-se a regra do acordo, o aumento em 2012 pode passar fácil dos 10%. Alguém lembra quando foi o último reajuste nesse valor? Falta consciência econômica e de país aos nossos sindicalistas. Ponto para Lula, que acusou o oportunismo (em uma declaração obviamente oportunista, mas nem por isso incorreta) e ponto para Dilma, que já avisou que não tem discussão no que se refere a controle de contas públicas.

Isso quer dizer que aderi ao governo Dilma, a quem chamei de “notoriamente despreparada para o cargo” antes da eleição? Não. E pelo mesmo motivo de então. A principal dificuldade para ela não será a gestão de recursos, mas de aliados. Admito que fiquei impressionado com sua atuação em relação ao PMDB da Câmara e principalmente com o famoso deputado Eduardo Cunha. As ameaças veladas (e outras nada veladas) não foram capazes de mudar até agora a cabeça da presidente. E vejo um cálculo político para isso que seria digno de Maquiavel. Acompanhe meu raciocínio.

Se eu fosse eleito presidente na situação de Dilma e quisesse acabar com a dependência do PMDB, o que faria? Em primeiro lugar, causaria um racha no aliado. Estratégia básica de guerra, provocar a divisão de forças. Dilma (ou Palocci, o homem forte por trás da articulação política do governo) tirou algum poder da mão de um grupo do partido e passou ao outro, com quem tem melhores relações e, na ponta do lápis, depende mais no Congresso. Proporcionalmente, o PMDB no Senado é maior e mais importante do que na Câmara. Já teve efeito: surgiu o grupo “Afirmação Democrática”, de parlamentares peemedebistas cansados da pecha de fisiológicos. São poucos, mas provavelmente estarão mais dispostos a mostrar serviço sem ficar exigindo emendas do que o resto. Mas Dilma e Palocci têm outros truques na manga. Um deles foi manter parte do governo Lula, e por um motivo simples: não são seus ministros. Isso permite que denúncias e dossiês que pudessem surgir nessa guerra suja por cargos (e provavelmente surgirão) sejam rapidamente resolvidos com uma demissão sumária, diminuindo o impacto político. Fraude no ENEM, mais uma? Haddad fora em dias. E assim segue.

Se meu raciocínio foi parecido com o do governo, eu não sei. Mas sei que os testes da estratégia começam a vir agora. Não é todo mundo que tem os culhões necessários para peitar o PMDB, e existe um motivo para isso. O partido  é conhecido por fazer valer sua maioria no Legislativo na hora de impor sua vontade ao Executivo. Esse teste de força é que ainda não foi imposto ao governo Dilma, e pode vir justamente na discussão sobre salário mínimo. Pior para o país, que pode ver uma economia pujante e de administração relativamente tranquila ser arrastada à mercê do jogo político de velhos grupos. Torço para que não aconteça.

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