Da relação entre Arte, Cosmogonia e Tecnologia na História, com foco no Império Romano

Deus criou o homem. Em uma visão antropo-teo-sociológica, a ideia de humanidade constituída na sociedade por muito tempo foi, e em certos aspectos ainda é, derivada da religião. Certamente não o Deus cristão, branco e ocidental hoje em vigor, nem o Alá oriental, mas alguma noção de origem divina, em geral antropozoomórfica, esteve presente durante toda a Idade Antiga.

Praticamente todas as literaturas religiosas trazem sua definição do que é ser o homem, e isso influenciou de maneira definitiva a consciência individual daquele período. A Bíblia, por exemplo, identifica o ser humano como criatura de barro criada à imagem e semelhança de Deus, dando a visão de efemeridade, fragilidade do corpo e ligação mística com um ente superior. Essa visão, aliás, continua forte mesmo nos dias atuais, a despeito de toda a evolução científica que se contraponha à ideia teísta da cosmogonia e origem biológica do ser humano.

O homem criou Nero. Em última instância, o lendário imperador romano é resultado de uma estrutura social complexa, não encontrada na organização de outros seres vivos. Evoluímos de um modelo tribal e patriarcal de domínio do mais forte para a democracia de discussão e consenso intelectuais, não sem antes passar por estados intermediários sujeitos ao Zeitgeist como, exemplo claro, Roma.

Se temos muitos relatos confiáveis sobre essa estrutura, não podemos dizer o mesmo das biografias do período. Nunca ficou comprovada, por exemplo, a autenticidade de histórias famosas como a de que Nero teria causado um grande incêndio na cidade e tocado lira acompanhando as chamas, mas é essa a imagem que lhe restou ao fim e ao cabo de seu governo. Período, aliás, muito controverso, como mostra o historiador romano Flávio Josefo: “Omitirei uma série de discursos que relataram a vida de Nero; alguns deles devido a que, pelos seus favores pessoais, tergiversaram a verdade ao seu favor, e os de outros que, por vingança e por ódio, mentiram” (JOSEFO, Flávio. “Antiguidades dos judeus”). De qualquer forma, respeitando-se os componentes históricos da mitologia sobre Nero, temos um homem assoberbado pelo poder, a quem foi dada a capacidade necessária para influenciar um dos maiores impérios da Antiguidade baseado em suas neuroses e possíveis psicopatias. Não dá para ser muito mais humano do que isso.

Em outro tópico, é também desse período uma grande parte das inovações tecnológicas até hoje presentes, mesmo que rudimentares. Elevadores primitivos, aquedutos, modelos de transporte e correspondência, entre outros, foram realizados por povos conquistados pelos romanos. Felizmente o Império soube incorporar muitos desses elementos, o que lhes permitiu a sobrevivência até hoje. As artes também devem muito ao Império Romano, com foco na arquitetura, escultura e literatura, tornadas fundamentais para o entendimento da História. E um dos governantes de Roma que mais atuou nesse sentido foi justamente Nero. Talvez a loucura do imperador tenha tido seu valor criativo na produção cultural. E também por isso não haveria motivo para surpresa se o próprio, entre suas façanhas, fosse de fato o criador da dança da manivela.

Concluímos cientificamente, portanto, que as chances de Durval Lélys estar certo são grandes e merecem ser respeitadas. E não percam o nosso próximo post, quando vamos tratar do estereótipo de calvos e semi-calvos e as nuances sociológicas e genéticas da obra “Cabelo Raspadinho”, de Bell Marques. Até lá!

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “Da relação entre Arte, Cosmogonia e Tecnologia na História, com foco no Império Romano

  1. Quando disse que o homem havia criado Nero eu imediatamente pensei em “Nero criou a dança da manivela”, logo percebi que estava no caminho correto.

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