Genes

Não lembro se já falei por aqui em algum momento de George Carlin. É um monstro da comédia norte-americana. Quer dizer, era. Carlin morreu em 2008, por problemas cardíacos. Provavelmente o mais ácido dos comediantes e um dos pioneiros na comédia de crítica social, dedicou uma boa quantidade de suas décadas a apontar o rídiculo dos hábitos e costumes estadunidenses. Ou melhor – os hábitos e costumes humanos. Crítico ferrenho da religião, ficou famoso por atacar a todas, sem restrições, sem deixar de lado assuntos relacionados, como aborto e homossexualismo. Mas falou de tudo, de política a preocupação com o meio ambiente, de segurança nos aeroportos a canibalismo, necrofilia e suicídio. Garantiu um segundo lugar mais do que merecido na lista do respeitado Comedy Central americano há algum tempo, perdendo apenas para o igualmente engraçado Richard Pryor. Para entender um pouco mais de Carlin, deixo um vídeo sobre a obsessão com a proteção do meio ambiente (legendado em português) e outro sobre religião (em inglês, mas é possível achar legendado com algum esforço).

Meu projeto é ser metade do que Carlin foi. Metade da graça, metade da crítica. Não é fácil pegar pesado como ele. Não é fácil chegar em um palco e falar para duas mil pessoas que elas são estúpidas, alienadas e enganadas 24 horas por dia por seus amigos, seu chefe, seu governo e sua igreja. Carlin fazia isso, e as pessoas o pagavam para isso, e riam de seus defeitos. Quero um dia ser assim, ter coragem para falar com a convicção que ele fala das coisas em que acredito. Enquanto não tenho a coragem, eu escrevo. Talvez um dia eu seja capaz, e assim espero. Por isso, deixo um texto que pretendo fazer um dia. Ele ainda traz muitos elementos básicos de stand-up, o que Carlin obviamente ignora. Ele não está preocupado de só ter um piada a cada trinta segundos de texto, porque sabe que ela será boa para compensar os últimos vinte e nove segundos de humilhação. Como eu ainda não tenho essa capacidade…

Genes

Vocês já devem ter notado que comediantes refletem muito. Nós estamos sempre pensando, e mesmo assim nunca entendemos nada. Eu não. Eu entendi. Eu resolvi seguir um caminho diferente, o caminho dos grandes filósofos. E eles tinham algumas perguntas básicas, das quais eu parti. De onde viemos? Pra onde vamos? Qual é o nosso papel na Terra? Por que as mulheres gostam tanto de espremer espinhas e cravos das nossas costas? E eu não sei se consegui responder a todas, mas eu cheguei a uma teoria que eu quero dividir com vocês. A vida, principalmente a vida em sociedade, é uma gigantesca e eterna competição para saber quem tem a maior piroca. É isso. Eu sei que algumas pessoas estão decepcionadas, olhando cabisbaixas, pensando que nunca terão uma chance. Besteira. Quando eu falo da busca pela maior piroca, não estou falando necessariamente da maior piroca física. Pode ser? Pode ser. Mas existem também pirocas, digamos, metafóricas. E elas são maioria.

E basicamente tudo é uma piroca metafórica, nesse sentido. A gente quer ter o melhor emprego pra ter o melhor carro, o melhor carro pra ter a melhor esposa, a melhor esposa para ter os melhores filhos. E pra que a gente quer os melhores filhos? Pra que serve um filho? Eu sei para que serve um emprego, um carro, uma mulher. E um filho? É por isso que a vida é uma competição de quem tem a maior piroca, e não apenas ter a maior piroca. Para saber quem ganhou a competição, você compara. De que adiante ser bem dotado se ninguém souber disso? É para isso que servem os filhos. Filhos são pirocas metafóricas. Ter os melhores filhos é uma forma de esfregar na cara da sociedade que você é o Kid Bengala de sua geração.

E isso acontece por um motivo muito simples: ter filhos é a prova definitiva de arrogância. Filhos são a forma que temos para eternizar nossos genes. Significa que você pensou bem e concluiu: “É, o mundo precisa dos meus genes. A humanidade não vai sobreviver sem minha calvície.” Você não pensa em quantos tios alcoólatras você tem antes de ter um filho. Mas você chama todos eles para o batizado do moleque. Daí você olha pra sua parentada bêbada, gorda, tropeçando pelos cantos… Olha para o seu filho e bate no peito… “MEUS GENES!”Você podia ter optado pelo celibato. Podia comer coroinhas, que não engravidam. Mas você decidiu ter filhos. Ainda bem. A humanidade depende dessa arrogância, depende dessa falta de senso do ridículo. Mas mesmo assim, as pessoas me pedem modéstia. Me pedem humildade! Para que? Por que eu devo ser humilde? Não existe sentido na humildade! Suponhamos, SUPONHAMOS, exercício de simulação, que eu tenha 25 cm. Por que eu preciso fingir que eu tenho 13? “Ah, é porque você não é o maior, o Eike Batista tem 30!” E daí?Eu continuo tendo 25!

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