Troféu Tristan Tzara: Pela redenção de um pimpolho

Sabe quando você ouve uma música durante muito tempo e, de repente, do nada, entende a letra de uma forma completamente diferente? Pois aconteceu comigo recentemente. E de uma música engraçadinha, da qual sempre me orgulhei de saber a letra, essa obra de composição se transformou em algo completamente diferente. Um elogio ao sadismo, uma gozação com a deficiência alheia. Pense bem.

“Pimpolho é um cara bem legal

Pena que não pode ver mulher”

Pimpolho, nos ensina o pai-dos-eleitores-do-tiririca, significa “rebento”, “criança pequena”, “criança robusta”. Sabemos, portanto, que o cantor conhece uma criança bem legal. Ele nos diz, no entanto, que essa criança não pode ver mulher. Se fosse um adulto, poderíamos concluir ser um tarado, uma pessoa incapaz de ver uma mulher e – essa parte subentendida e apresentada no complemento da estrofe – se controlar. Mas é uma criança, e não temos motivo para sexualizá-la. Só podemos concluir, portanto, que o pimpolho não pode ver mulher por um motivo muito simples: ele é cego. É claro que sua deficiência visual o impediria de ver tudo, e não apenas mulheres, mas, hei! Eufemismos servem para isso. Sigamos.

“Na dança ele já pede pra abaixar

Já pede pra abaixar

Ela quer parar, ele não quer”

Reforça-se aqui nossa compreensão da deficiência da criança, ou pimpolho. Novamente – se fosse um adulto, o interesse em pedir a uma mulher para abaixar poderia ter conotação sexual. Já no caso de uma criança com deficiência visual, é simples entender o motivo. Para os cegos, o contato tátil é importante, quiçá fundamental para a interação com o mundo. No caso de uma dança, então, nem se fala. E imagina-se que por ser uma criança, ou pimpolho, ele seja baixinho, por isso é necessário que elase  abaixe. Já os motivos para essa postura constrangedora da moça em não atender um pedido tão simples são desconhecidos.

“Ela tá dançando e o pimpolho tá de olho

Cuidado com a cabeça do pimpolho”

Foi essa parte que me deu o clique, e me fez mudar completamente de visão. Que pessoa cruel é essa que nos apresenta as dificuldades de uma pequena criança cega que só quer dançar para em seguida fazer piadinhas? Quem fala que um cego “está de olho” em algo? É equivalente a perguntar a alguém com movimentos limitados se ele anda “correndo atrás” do que ele deseja! Ou a um surdo se ele “ouviu as novidades”! E ainda há espaço para zombar do garotinho que não pode perceber movimentos bruscos em direção a sua cabeça. Não é à toa que o pobre ofendido se revolta na parte seguinte da música.

“Eu sou o pimpolho, sou o rei da mulherada

Beijo todas sem parar

E vê se para de me olhar

Abaixa logo devagar

Porque meu fôlego tá acabando

Não consigo mais falar

Vai caindo, vai caindo

Agora pode levantar!”

O que temos aqui? Uma criança com notória baixa auto-estima, em um esforço de compensação por seus problemas (“sou o rei da mulherada”), que tenta transformar os esbarrões decorrentes de sua condição em algo positivo (“beijo todas sem parar”) e se irrita com a sádica compaixão alheia (“vê se para de me olhar”). Como se não bastasse, ele ainda apresenta sintomas de doenças respiratórias, provavelmente asma (“meu fôlego tá acabando, não consigo mais falar”). É esse pobre garoto que vocês transformaram em alvo de uma música tão cruel assim, Leandro Lehart e Art Popular? É ESSE GAROTO? Vocês me enojam.

Troféu Tristan Tzara é uma categoria desse site que premia as piores letras de música da história. Os motivos são variados  e arbitrários, mas o mais comum é o conteúdo absurdo ou ausência do mesmo. Você pode sugerir músicas que mereçam o prêmio nos comentários.

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