Marcelinho, o Opinioso, comenta: Uma tarefa para Super Mario

Você está traindo sua mulher. Você é um canalha hipócrita e infiel que trai a mulher com a gerente do seu banco. Não interessa se é apenas para ter direito a DOCs na sua cesta de serviços básicos, o fato é que você trai sua esposa. E vai tudo muito bom, vai tudo muito bem, até que um dia você chega em casa e sua mala está do lado de fora da porta. Os retalhos que sobraram das suas roupa sse misturam a folhas e folhas de papel. Você os reconhece – são os e-mails e recados trocados com a outra. Alguém invadiu a privacidade do seu e-mail e os vazou para sua esposa.

Tudo isso foi um grande nariz de cera para chegar ao assunto do Wikileaks. Se você não percebeu, é porque provavelmente se identificou com o personagem, seu canalha imundo. Espero que você pegue gonorreia. Enquanto isso não acontece, vamos ao assunto.

Não existe outra pauta no noticiário internacional. 250 mil documentos (uma parte sigilosos) da diplomacia americana vazaram graças ao agora internacionalmente famoso site Wikileaks. O mesmo portal já havia divulgado um vídeo comprometedor da atuação do governo ianque no Iraque e documentos relacionados às guerras lá e no Afeganistão. O vazamento ainda em curso é certamente um dos maiores (se não o maior) da história, e tem impacto ainda não definido. Mas já fez estragos, começando com a divulgação das opiniões americanas sobre diversos países (com quase zero de surpresa) e chegando a uma verdadeira lista de Natal para terroristas, com um apanhado de locais considerados fundamentais pelos EUA.

Posso estar exagerando, mas a história inteira em si é um marco temporal. Não sei se do tipo que os historiadores utilizam para dividir pedagogicamente as Idades da História, mas certamente grandioso. O Wikileaks não existiria sem a explosão do crowdsourcing, mesmo que o atual vazamento não seja produto de uma produção coletiva. A exposição constante e paralela dos documentos não seria possível sem o avanço de servidores de dados. Estamos falando de um movimento surgido absoluta e completamente na Internet afetando o mundo real de forma, perdoem o trocadilho, real. Não se trata de um flashmob, uma manifestação sem efeito construtivo e meramente comportamental, mas um resultado que afeta a política real e a atuação de Estados. Até onde eu saiba, pelo menos, o alcance e o impacto registrados até agora tornam o fato inédito e uma demonstração da revolução trazida pela tecnologia.

Dadas essas características, pelo menos duas discussões ficam em aberto. A primeira se refere à transparência governamental. Estamos falando de e-mails e correspondências pessoais, é verdade, mas de funcionários públicos em serviço. Até onde se aplica o conceito de privacidade nesse caso? E que nível de acesso a informações governamentais deve ter o povo? Na era dos países que viram blocos e das guerras de alianças, quão importantes para a segurança “nacional” são essas informações? A segunda questão, intrinsicamente relacionada à primeira, se refere ao controle de informação. TVs e rádios são concessões públicas, é verdade, e jornais têm suas questões financeiras a tratar, mas como controlar a Internet? Como evitar vazamentos como esse? Como impedir que cada um dos milhares de internautas pelo mundo não seja detentor de todo esse conteúdo em um pendrive de US$ 40?

A verdade é que, com quase duas décadas de vida do modelo original de WWW, qualquer governo engatinha nas legislações para o mundo online. O Brasil, por exemplo, discute no Congresso um projeto de lei para o assunto original de 1999 e adaptado em 2008. Vamos entrar em 2011, três anos desde o último texto. Quer ter uma noção da velocidade da evolução da tecnológica da Internet? Fiquemos nos mais famosos: o Facebook é de 2004, Youtube de 2005, Twitter de 2006. Podemos realmente confiar que uma legislação elaborada há três anos estará atualizada no ano que vem? Quão dinâmica pode ser a atuação de um governo cujo formato original tem mais de dois milênios de idade e se ajuste com décadas de defasagem, na maior parte do tempo?

Fatos como o vazamento aceleram a discussão. Isso tanto pode ser frutífero como catastrófico, com uma guerra deflagrada À liberdade de informação. De qualquer forma, enquanto não se vê uma solução legalista para o tema, recorre-se ao famoso e até hoje sempre eficiente estrangulamento financeiro. Contando com a colaboração de grandes grupos, o governo americano tem conseguido impedir algumas formas de financiamento de suporte ao Wikileaks. A oportuna e mal-explicada prisão do criador do grupo também pode ajudar, é verdade, mas ainda é cedo para saber os efeitos de ambas as medidas. Sou a favor da continuidade do vazamento, pela relevância histórica inclusive, mas deixo aqui uma sugestão ao governo americano: pode ser a hora de pedir ajuda ao Super Mario.

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