Minha TV adolescente

O ser humano adora personificar as coisas. Prosopopeiar. Damos razões mundanas às coisas naturais. Quantas vezes um tsunami não foi citado como exemplo da “fúria” do oceano? Ou um terremoto mostrando que a Terra se cansou de “sofrer”? Até o conceito de Deus deve ter muito a ver com isso – temos dificuldades em aceitar o acaso ou que as coisas podem acontecem em uma improvável sequência lógica sem que uma inteligência superior as guie.

Fora da filosofia cosmo-teológica, o raciocínio também se aplica a situações corriqueiras. Minha televisão, por exemplo, me parece cada vez mais uma adolescente. A começar pelo fato de não ser exatamente “minha” televisão – ela veio como parte do mobiliário do apartamento que alugo. É como uma filha: não é exatamente minha, mas do mundo. O que não a impede de sugar meus cuidados e atenção como um buraco negro.

Começou pouco depois de eu me mudar e descobrir que a TV já estava aqui há três anos. Perdi a infância divertida, com as descobertas diárias e os erros engraçados. Fiquei só com a parte chata, em que tudo é problema e reclamação. Uma semana de interação e ela pifou. Do tipo “não ligo para o que você quer, estou na minha e não enche”. Eu a olhava de longe, e ela nada. Tentava me aproximar. Nada. Desisti e fui obrigado a recorrer a um especialista.

O diagnóstico do hebiatra eletrônico foi simples: queimou um circuito integrado. Uma peça pouco maior que a cabeça do dedão. Já o tratamento foi bem mais complexo. Minha televisão era uma espécie de aluna de intercâmbio nipo-americana, e que não se adaptou bem ao Brasil. Sua marca havia se fundido com outra por aqui, e não havia a maldita peça no país. O resultado foi um mês de ligações e e-mails até conseguir importar a tal peça de um distribuidora que normalmente só trabalha com oficinas. Para quem se interessar, até decorei o maldito código da dita cuja – STR-Z4517. Foram 15 dólares, pouco mais de 26 reais (obrigado, real valorizado) e 52 reais só de imposto (de nada, governo safado). Isso fora o custo do envio, que faria corar um Papa de pedra. Adolescentes são absolutamente caros, fúteis e nos fazem gastar uma fortuna com transporte.

Epopeia à parte, sou um pai paciente. Desde que minha filha estivesse novamente funcional, eu estaria satisfeito, teria feito minha parte, mesmo sabendo que quando ela estivesse completa, ela sairia sem aviso dos meus braços. Só que as coisas nunca são tão simples com os adolescentes, certo? E assim que seus corpos parecem estar trabalhando corretamente, vem o problema psicológico. Porque descobri hoje que minha TV está em crise existencial. Cito abaixo, da forma mais fiel possível, o diálogo que tive com o hebiatra eletrônico.

– Veja bem, sua TV não sabe mais que é uma TV.

– Como é? (a resposta não foi tão rápida, eu pedi para ele repetir porque achei que tinha ouvido errado)

– Assim… Ela está com tudo certo, ela sabe o que tem, mas ela não consegue se reconhecer como TV.

– E ela acha que é o que? (uma TV que se entendesse como um ar-condicionado seria meu assunto pelo resto da vida)

– Nada. Ela simplesmente não sabe o que é.

E aí ele explicou: por algum motivo – provavelmente um pico de energia – o processador da dita cuja se desprogamou. Ou seja, ela de fato estava em crise existencial e não sabia de sua real natureza, mesmo estando com tudo no lugar. Se isso não é um adolescente, eu não sei o que é. E o pior é  que o hebiatra não sabe como resolver o problema: ou melhor, sabe, mas não tem o programa necessário. Enquanto ele procura uma solução, minha indefesa adolescente segue aberta no consultório-oficina. E eu aqui, sem notícias. Ou filmes.

Não existem livros do Içami Tiba que expliquem como eu me sinto.

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso, Desabafo

Uma resposta para “Minha TV adolescente

  1. Marcelo (o Pai)

    Sua filha adolescente……………”ficou madura”…….. e desistiu de você!
    Será que é assim mesmo???

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