La mala educación

Volto aos stand-ups, sucesso de procura do blog. Esse não me agradou nem um pouco. Muito set-up, poucas punchlines, o que normalmente indica um bom tema, mas desenvolvimento inferior. O resultado é um texto enrolado e chato, que pode até funcionar quando lido no blog, mas dificilmente faria rir se interpretado à risca. De qualquer forma, coloco aqui e aceito sugestões ou comentários sobre como melhorá-lo. E só para lembrar aos turistas acidentais: o texto está quase todo escrito como seria falado em um palco. Os trechos entre parênteses são sugestões de gestuais.

Educação

Hoje em dia se fala tanto de educação, né? Como educação é importante e não sei o que. Não estou falando de política para educação, nada disso. Como Enem, né. Desculpa aí, mas pior do que os erros das provas foi a enxurrada de piadinhas com “E nem alguma coisa”. Entupiram meu Twitter com isso. Isso sim é falta de educação. Mas eu falo de educação, aquela coisa que a gente aprende em casa, pelo menos a maioria de nós. E tem umas coisas que não fazem sentido. Eu nunca entendi, por exemplo, por que é que não se pode apontar quando está falando de alguma coisa. Quando a gente é criança, para assustar, falam que a gente não pode, por exemplo, apontar estrelas, que dá verruga no dedo. Quando a gente cresce, falam que se a gente apontar estrelas o pau encolhe. Nunca ouviram isso? Pois falam. E é verdade. Já viu algum astrônomo com uma mulher muito gostosa? Pois é.

E aí a gente fica criando artifício para não apontar. Você tenta usar o pescoço por exemplo. Aí fica aquela coisa ridícula, do (movimento de pescoço) “Aliiiii”, “aliii”. Isso não vale para lutadores de jiu-jitsu e marombados em geral. Tem outras formas. Você está numa festa, por exemplo, conversando com um amigo. Chega uma gostosa. Você não pode apontar, não por questão de educação, mas porque a namorada está ao lado. Aí você usa o código das horas. Todo mundo sabe o que é o código das horas? Você fala “gostosa a duas horas”. Como funciona: é como se você estivesse no centro do relógio (movimenta os braços conforme os ponteiros de um relógio), uma, duas horas, é nessa direção. Só que às vezes não funciona.

– Gostosa a duas horas.
– Duas horas minhas ou duas horas suas?
– Como assim?
– Duas horas minhas ou duas horas suas?
– Duas horas minhas, pô!
– Ah tá.

A gostosa já foi, perdeu. E ainda corre o risco de constranger o amigo que não sabe olhar as horas em relógio que não é digital.

Agora, a regra da educação é controlar os instintos. Controlar tudo que é incontrolável. Não pode bocejar na frente de alguém, não pode arrotar, não pode ter uma ereção. E isso é ridículo, porque não funciona. Todo mundo vê que você está bocejando, porque não é só abrir a boca. O olho encolhe, o queixo desce. Olha só. (boceja e volta a falar ainda bocejando) Disfarçar arroto também é um saco, aquela coisa de arrotar pra dentro. Uma bolha de gás explodindo para dentro de você, isso não pode ser bom, gente. E não custa lembrar que em alguns países, arrotar não é falta de educação, pelo contrário. É um elogio a quem fez a comida, normalmente a mulher do anfitrião. E é uma regra que podíamos aplicar em outras situações. Quando estiver na casa de alguém, você dá um tapa na bunda da anfitriã e faz um joinha para o marido dela. “Parabéns, tá comendo bem!” Mas o pior é tentar disfarçar ereção. Porque você disfarça ereção colocando alguma coisa aqui na frente. Bota uma mão, bota um livro, senta cruzando a perna esquisito, alguma coisa. Coisas que você faria se não estivesse com uma ereção. Então todo mundo nota. E eu não entendo porque não é vergonha estar excitado. A menos que você esteja, sei lá, num velório. E se isso acontecer, também não é motivo para ter vergonha, porque você tem uma doença. Não precisa ter vergonha, precisa se tratar.

Eu falei de arroto, do qual todo mundo tem nojo, e isso me lembrou da tal da etiqueta à mesa. Para quem não sabe, a maioria das regras da tal da etiqueta é francesa. O que é bizarro, porque se os franceses não tomam banho eles não devem lavar a mão antes de comer. E eles colocam todo tipo de bicho nojento na mesa: rã, lesma, essas coisas. E a tal da etiqueta tem umas regras estúpidas. Por exemplo, é falta de educação comer de boca aberta. Já tentou comer de boca aberta? Não funciona. Não é porque é feio, é porque a comida cai toda! Não é educação, é bom senso. E tem umas que são impossíveis. Por exemplo, é feio virar o prato para tomar o restinho da sopa. Ou fazer barulho tomando sopa. Mas a graça da sopa é fazer barulho! É igual não fazer barulho quando se está bebendo com canudo. Só que não dá para beber o finalzinho do refrigerante com canudo sem fazer barulho. Tem crianças na África que dariam a mãe por aquele restinho de refrigerante e eu vou desperdiçar por causa do ouvido da madame? Ah, pelo amor de Deus.

E rola um preconceito na mesa. Por exemplo: existe garfo e faca pra tudo. Garfo pra salada, pra fruto do mar, pra carne, pra peixe, pra caviar, sei lá. Mas pão, você come com a mão. O pobre do pão deve ser vítima de bullying pelas outras comidas. “Ih, lá vem o pão. Pobre é foda, todo mundo passa a mão sem dó.” E pra tudo tem um talher específico. Pão não, você come como se fosse um homem das cavernas. E é um saco isso, porque às vezes quem oferece o jantar é um pão-duro, de onde aliás vem a expressão, e oferece aquele pão que esfarela todo na sua mão, cai no colo as migalhas, é um inferno. Frango também se come com a mão, mas nesse caso eu acho certo. Já tentou tirar aquela carne que fica pregada no osso com um garfo? Espirra pra tudo que é lado, suja a roupa da mulher ao lado, é um inferno. É melhor comer com a mão mesmo, depois limpa no guardanapo, no pano de mesa, na roupa da mulher ao lado. Aliás, guardanapo é outra coisa escrota. Eu nunca sei quando é para deixar na mesa, quando é para colocar no colo, quando é para pendurar no pescoço igual gordo de filme.

E quando você vai a um restaurante “chique” e não sabe o que fazer? Vocês sabiam que existe uma posição para o garfo quando você já acabou e tem outra para quando você está só fazendo uma pausa? São 60º entre o garfo e a faca. Eu quero saber que garçom tarado professor de trigonometria é esse que fica vigiando meu prato e medindo o ângulo do meu garfo só no olho? Se eu deixar meus talheres errados ele vai roubar meu prato antes de eu acabar de comer? Aliás, tem regra até para chamar o garçom. Não pode estalar os dedos, não pode gritar. O que é uma tremenda sacanagem, já que eu decorei aquela música do Skank só para isso. Sabem qual é, aquela tem qu um dicionário de formas de chamar garçom? “Ô comandante, capitão, tio, brother, camarada, chefia, amigão…” Pois é, agora descobri que não posso mais usar nenhuma delas. O que deveria ser a primeira regra de etiqueta a ser aprendida. Já que, do jeito que andam os restaurantes, se você não gritar para conseguir a atenção do garçom, não vai precisar de nenhuma outra regra.

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1 comentário

Arquivado em Idéias para Stand Up

Uma resposta para “La mala educación

  1. Marcelo (o Pai)

    Educação é…
    “Ao pé da letra” …
    – Senão vejamos:
    “educar” – vem do latim educare, por sua vez ligado a educere, verbo composto do prefixo ex (fora) + ducere (conduzir, levar).
    Nesse sentido, pode-se entender que, considerando o significado literal de “conduzir para fora”, chega-se a conclusão de que educação, em bom termo, seja: preparar o indivíduo para o mundo. Ou, então, pode ser interpretado como “abrir caminhos”.
    Contudo, se considerarmos o termo “educação” a partir da sua “acomodação” na lingua portuguesa, aí sim a palavra pode ser associada ao sentido de “boas maneiras”.
    ************
    Bom! Menino educado é menino instruído! (isso se o termo educação tivesse a mesma conotação da palavra “education” do inglês).
    ************
    Mas, considerando o desenho “gastronômico” na maioria do texto, a educação nos condiciona a questionar sobre:
    Porque esqueceu do “espirro”?
    E o uso do “palito”?

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