Marcelinho, o Opinioso, comenta: A busca pelo “Eu disse”

Brasileiro odeia muita coisa. Odiamos argentinos, por exemplo. Principalmente o Maradona. Odiamos certos times de futebol. Odiamos trânsito, odiamos bancos – as filas de banco! – odiamos moradores de rua que pedem coisas na mesa do bar. Podemos até mentir sobre isso e dizer que nos compadecemos, mas a verdade é que preferimos transformar a sensação de constragimento em ódio. Odiamos tudo isso mas, acima de tudo, odiamos estar errados.

Talvez essa última não seja uma coisa restrita aos brasileiros. Talvez seja uma característica da humanidade. Gostamos tanto da sensação de estarmos certos que alçamos o erro à categoria dos argentinos – o que não deixa de fazer algum sentido. E chegamos ao cúmulo eventual de torcermos pelo erro apenas para estarmos certos. Porque o oposto exato ao ódio de estar errado é a sensação de falar “Eu disse”. Também vale para “Eu avisei” e “Eu sabia”.

É um sentimento mesquinho, e todo mundo sabe disso. Mas a sensação de superioridade garantida por essa simples expressão normalmente compensa – nos míseros segundos que dura – todo o peso na consciência obtido com a mesquinhez. Danem-se as consequências do erro alheio! Você sabia que isso ia acontecer, você às vezes até avisou, você… é o cara. E quem não aceita os conselhos do cara tem mais é que se dar mal. Não interessa se o errado é um parente, ou que tudo que ele precise no momento seja ser consolado pela teimosia e burrice de não aceitado sua orientação quando devia. Ele precisa ouvir que você já sabia o que ia acontecer.

Há cerca de uma semana (era para ter publicado esse texto no dia seguinte, mas estava ocupado salvando criancinhas de um orfanato em chamas no Azerbaijão), o país foi divido quase ao meio entre pessoas que esperam estar certas e pessoas que esperam o momento para dizer “Eu disse”. Passamos por uma longa campanha eleitoral, que dividiu o país entre essas duas categorias. Tudo bem, talvez tenhamos mais algumas possibilidades – gente que sempre vai falar “Eu disse”, gente que não está nem aí. Mas, grosso modo, grande parte do país está representada por um dos dois grupos. E isso é um erro.

É um erro porque o momento da emoção acabou às vinte horas e quatro minutos do dia 31 de outubro. A partir do momento em que foi declarado um vencedor (vencedora, no caso) na eleição presidencial, a campanha acabou. Não há mais espaço para as críticas vazias, os ataques sabidamente falsos, a divulgação de boatos. Escolhida a comandante do país pelos próximos quatro anos, é hora de deixar o ódio de lado e partir para o trabalho. Não estou falando de adesismo ou virada de casaca. Estou falando de uma seriedade construtiva.

É hora de seguir a racionalidade e fiscalizar. Esse trabalho é de todos, não só da imprensa ou da oposição constituída. Votar não é entregar o pepino de carregar o país nas costas pelos próximos quatro anos. É escolher um funcionário a seu serviço. E, como diz uma expressão famosa, é o olho do dono que engorda o boi. Quer que a presidenta e o Congresso façam um bom trabalho? Fiscalize. Acompanhe. Vigie. Nem que seja para, em caso de fracasso, a despeito de todos os esforços e dos prejuízos para o país, você possa dizer sorridente e com razão: “Eu disse”. Talvez até fazer uma breve dança da vitória.

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