Marcelinho, o Opinioso, comenta: Porque voto nulo

Estarei trabalhando no dia 31 de outubro. E por isso não poderei exercer o meu direito cidadão de a cada quatro anos eleger alguém completamente despreparado para governar meu país. O trabalho é uma ótima desculpa para não votar, mas, acreditem, não faria diferença. Eu pretendia anular meu voto para presidente de qualquer forma, e explico porque abaixo. Se o caro (e raro) leitor não tem interesse em política ou na minha opinião sobre o assunto, por favor, seja meu convidado a escolher outro texto deste blog que não comece com “Marcelinho, o Opinioso, comenta”. São grandes as chances de ele ser uma tentativa de divertí-lo com temas do cotidiano.

A candidata do PT, Dilma Rousseff, é notoriamente despreparada para o cargo. A despeito de toda sua fama de boa gestora, criada à custa de muita propaganda, a falta de tato político e carisma no trato com aliados são seus pontos mais fracos. Ninguém duvide que Lula levou os oito anos de mandato (ou pelo menos os últimos quatro) na gaita graças a sua extraordinária habilidade em trabalhar com interesses e conflitos. Só assim para administrar uma massa tão heterogênea de aliados, como ele fez, e Dilma não tem essa capacidade. Isso a deixaria refém ou de subordinados que fizessem essa função ou dos “aliados”, e isso não é aceitável para o cargo mais importante do país.

José Serra não fica atrás. Também tem fama de bom gestor, mas essa fama é baseada principalmente na opção por uma menor atuação do Estado na economia. A privatização das estradas paulistas é o melhor exemplo disso. Não vamos demonizar as privatizações, pelo contrário – se estou escrevendo esse texto de um computador pessoal na madrugada, é graças a ela. O problema é a execução e fiscalização de todo esse processo, feita de forma descuidada e ao sabor dos interesses políticos. Foi assim na época, continua sendo assim agora. As agências reguladoras são não só aparelhadas politicamente (como sempre foram), como tem uma estrutura insuficiente, legislação defasada e incompleta e uma falsa autonomia. Isso ocorreu na criação e não foi alterado pelo atual governo. Empurrar ao mercado atribuições do Estado de gerenciar um país sem a devida fiscalização e impessoalidade é irresponsabilidade e negligência. Mas voltando ao candidato… Serra também não sabe conduzir aliados, tem a conhecida fama de centralista e provavelmente trataria a economia com punho de ferro, o que definitivamente não funciona em um país heterogêneo e tão dependente de uma interação mais forte com o governo como o nosso.

Desconstruimos assim os argumentos usados pelos candidatos, pelo que entendo. Dilma alega as realizações do governo Lula como exemplo de sua capacidade de sucedê-lo, mas praticamente todas as realizações dos últimos anos decorrem da habilidade política do presidente, seja na articulação, seja no uso publicitário dos sucessos. Não tendo a candidata o mesmo talento, concluo que lhe seria impossível sucesso semelhante. Já José Serra alega sua qualidade como gestor para angariar votos, mas tanto em seu período como ministro como nas passagens por cargos no Executivo, confiou sua atuação à entregar ao mercado sem o devido acompanhamento. Foi o que provocou o caos inicial pós privatizações (crise da telefonia, racionamento elétrico, etc.). Sem o trabalho do mercado, suas realizações são pífias e,  meu ver, insuficientes para garantir que fizesse um bom mandato.

Se as características que aponto dos dois candidatos são insuficientes como justificativa, sigo para o sistema político como um todo. A corrupção não é, a despeito do que apontam as propagandas eleitorais pasteurizadas, monopólio de nenhum candidato. Desde a redemocratização, os partidos estão sitiados por grupos econômicos e sociais cujos interesses particulares se sobrepõem ao público. Isso ocorre em todos os partidos, principalmente nos fisiologistas que se definem como “de centro”. Esses partidos estão com a atual candidata, mas estiveram no governo anterior e estarão com quem quer que se elega. Isso é possível graças a um modelo de “compra legalizada” de apoio político, baseado nas emendas parlamentares, utilizadas para garantir a imagem de trabalho junto ao eleitorado e mais votos para a próxima eleição. Nossos políticos (a generalização é válida sim, lamentavelmente) buscam o poder como forma de obter mais poder, e só. O formato não é novo, é conhecido de todos, e não se alterará porque isso não é interessante a ninguém que o aproveite, os únicos com a capacidade para tal.

Todo essa estrutura garante que nenhum presidente priorize a educação quando eleito, posto que este é um investimento de longo prazo, com resultados de parca visibilidade eleitoral. Com a educação desprestigiada, a compreensão da importância da boa escolha e fiscalização dos governantes segue frágil. Preferimos o “ônus” de perder um (ou dois) domingo(s) a cada quatro anos para nos livrarmos da incômoda tarefa de pensar o país, e não o fim do mês. Como se eles não se intercalassem, não interagissem. E seguimos sem uma consciência política de que o governo é eleito para nos representar, não para nos tutorar ou para pensar em nosso lugar.

Talvez precisemos de uma crise de grandes proporções, com muito choro e ranger de dentes, para percebermos esse conjunto de fatores e mudarmos. Talvez nem isso resolva. É uma visão pessimista, admito, e torço para estar errado. Mas é também um diagnóstico que creio real da conjuntura, e motivo pelo qual abdico do meu direito de votar nessa eleição. Não exerço meu papel de cidadão, é verdade, nem faço nada para mudar o quadro que apontei acima. E escolho esse caminho porque é exatamente o que, na atual situação, me é possível fazer: nada.

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