Marcelinho, o Opinioso, comenta: A revolta das duas horas

Enfrentei a fila, os playboys com suas namoradas e os preços abusivos dos cinemas de Brasília para ver Tropa de Elite 2. Acho que a única coisa que faltou foi o Capitão Nascimento em pessoa na porta, falando “Não vai entrar ninguém!”, e não duvidaria se acontecesse.

Para quem ainda não viu, nem leu a sinopse nas críticas jornalescas, sintetizo: alguns anos depois do primeiro filme, Capitão Nascimento, que não conseguiu um substituto para a função, virou comandante do Bope. Numa “mancada” de Matias, agora capitão, Nascimento cai para cima, e vai parar na Secretaria de Segurança Pública. E só aí é que ele vai conhecer os verdadeiros inimigos (daí o subtítulo do filme, O Inimigo agora é outro).

Tropa 2 é catártico, assim como o primeiro. As reações extremadas da plateia no cinema não deixam dúvida de que o brasileiro médio vê na violência ficcional o escape para a opressão diária. Quando um bandido rebelde é assassinado na cadeia, o público delira. Quando o enfurecido Nascimento espancou um corrupto , o playboy na poltrona de trás chutou minha poltrona, em excitação. Manteve-se a fórmala do primeiro, está tudo ali: a violência explícita, a profusão de palavrões, as pérolas instantâneas , o raciocínio alborghetiano de que bandido bom é bandido morto.

Mas o filme vai além do primeiro, com um roteiro mais profundo. Beira o didatismo às vezes, é verdade, e abusa de alguns clichês, mas se esforça e consegue sair do resultado superficial – a violência e o confronto Estado x marginais – para mostrar o conjunto de elementos da causa – a corrupção e a busca do poder pelo poder. Nascimento percebe, com um quê de ingenuidade ficcional, que existem adversários piores do que os traficantes que controlam o morro. São inimigos mais poderosos porque invisíveis, incorpóreos, fragmentados. Intocáveis.

Mais do que o prazer pelo relaxamento catártico, Tropa 2 gera raiva. Para quem acompanha o noticiário político, que se informa sobre a realidade, que sabe como o sistema funciona, o filme deixa no espectador o gosto amargo da incompetência. De perceber o erro, de ver tudo límpido à frente, mas de sentir incapaz de fazer a diferença. O ficcional Nascimento dá um tapa na cara verdadeiro de cada um que assiste o filme e se lembra, em geral com um quê de arrependimento, do voto dado há poucos dias.

O diretor José Padilha entende essa função, e a trabalha com maestria. Mas ele vê algo que não vejo. Ele espera que o filme gere um debate cívico, que mude algo. Duvido. Durante quase duas horas, o público é ensinado sobre o que está errado, tem sua cara esfregada no sangue inocente que jorra por esses erros, é provocado a corrigir e a brigar. Mas quando acaba o filme, a fúria coletiva acaba, os indivíduos voltam para casa e só o que sobra são as memoráveis frases de efeito.

A ficção funciona bem em nos lembrar que vivemos em um mundo cão. A realidade nos mostra que a regra, na prática, é que cada um que lamba sua caceta.

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3 Comentários

Arquivado em Desabafo, O Opinioso comenta, Resenhas

3 Respostas para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: A revolta das duas horas

  1. Júlia

    Bem, aidna não vi o filme… Mas algo que temo, é que mesmo gerando discussões, debates e derivados as pessoas legitimem essa realidade… Como o final de 1984: “o sistema é esse. Impossível lutar conta ele. O melhor é nos adequarmos e conseguirmos tirar o melhor para nos mesmos dentro dessa realidade bizarra. Sangue de inocentes sempre jorraram, só espero q não seja o meu ou de meus conhecidos… Tirando isso, está tudo bem!”

    Sabe, achar que as coisas são assim mesmo. Sem possibilidade de correção. Fim!

    Depois que eu ver, eu recomento… hehe

  2. Júlia

    Não mudo uma vírgula no meu comentário anterior… Na verdade venho aqui para confirmá-lo e deixar um depoimento…

    Assisti ao filme junto de minha mãe. Ao terminar, a primeira coisa que ela disse foi algo como: É muito difícil… Acho que não tem como mesmo mudar esse sistema….

    ¬¬’

    Bleh!

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