Marcelinho, o Opinioso, comenta: Quatro Islândias

A Islândia conseguiu a independência há pouco mais de um século. Se tornou uma república há cerca de sessenta anos. Foi, até o século XX, um dos países mais pobres da Europa Ocidental. Tem até hoje uma economia baseada fortemente na exportação da pesca, mas cresceu muito com o turismo e, mais recentemente, com indústrias tecnológicas e atuação no mercado financeiro. Talvez, por isso, tenha sido tão afetada pela crise mundial de 2008. Antes disso, no entanto, alcancou o quarto lugar em PIB per capita do mundo, e o primeiro de desenvolvimento humano.

O sistema é parlamentar, com primeiro-ministro e presidente. Multi-partidarismo e tudo. A atual primeira-ministra, mais um avanço, é mulher. O país discute o ingresso na União Europeia, o que não deve demorar. A Islândia tem uma certa tradição liberal em termos sociais: desde 1996 é permitida uma união regular de casais do mesmo sexo. Em 2006, foi adquirido o direito de adoção.

Nem todas as estradas islandesas são asfaltadas, o que não chega a ser um problema. O trânsito é particularmente tranquilo. A energia é 70% renovável, e a Islândia espera chegar à auto-suficiência energética em 2050, a despeito da pequena quantidade de recursos mineirais. Os indicadores sociais impressionam: 1% de analfabetismo, um índice de desigualdade pífio e uma expectativa de vida de 81 anos. Um sucesso.

Os islandeses têm orgulho de sua cultura e de seu país. Entre os nórdicos, são os que mais prezam a auto-suficiência e a independência, inclusive cultural. Herdaram muita coisa da mitologia viking e literatura escandinava, inclusive com as famosas sagas. A maior parte da população é luterana, mas alguns acreditam até hoje em elfos (não os do Tolken nem os de Harry Potter, infiel, os originais). Infelizmente, o único elemento de relevância internacional na música é a Björk. Com tudo isso, a Islândia foi recentemente classificada como o quarto país mais feliz do mundo.

Um número de pessoas maior do que a população de quatro Islândias saiu de casa no domingo, na garoa paulista, se dirigiu até a seção eleitoral, digitou 2222 na urna eletrônica e confirmou. Quatro Islândias. Um milhão e trezentas mil pessoas que optaram por reclamar da política brasileira votando de forma irresponsável. Um milhão e trezentas mil pessoas que ao invés de xingar muito no Twitter, resolveram manifestar sua revolta “contra tudo que está aí” afastando um pouco mais o país de uma nação desenvolvida, alfabetizada e igualitária. Quatro Islândias que conseguiram, com quatro dígitos, deixar o Brasil um pouco mais infeliz.

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2 Comentários

Arquivado em O Opinioso comenta

2 Respostas para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: Quatro Islândias

  1. maria fernanda erdelyi

    Muito sóbrio, muito sensato. Mostra a nosso tamanho, a nossa cara e a nossa burrice.

  2. Expresso 2222

    Digitaram 2222 na urna por causa da música do Gilberto Gil. É um voto cultural, tropicalista, mas a mídia não entendeu. Até quando a perspicácia do povo vai ser subestimada?

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