Marcelinho, o Opinioso, comenta: Radicalismos

Corajosa e ousada a atitude do Estado de S. Paulo em publicar um editorial apoiando a candidatura de José Serra. O que não quer dizer que tenha sido correta. A uma semana das eleições, o jornal parece ter capitulado à provocação do presidente Lula de apresentar a opção por este ou aquele candidato. Pode se dar mal.

Que ninguém se iluda quanto à parcialidade dos veículos de comunicação, principalmente impressos. Rádio e TV, por serem concessões públicas, ainda estão mais restritos por lei a certos posicionamentos políticos. Jornais não. Talvez por isso sintam-se mais à vontade para manifestar opiniões contra o governo. E é bom que isso aconteça, pois garante a fiscalização e a vigilância adequadas a um país que se creia democrático.

O problema está na falta de espelho. O Estadão, bem como a maioria dos grandes veículos de comunicação, tem talvez a mesma dificuldade do presidente Lula em aceitar críticas. Mais – cada um vê as motivações por trás da oposição de maneiras distorcidas. Para o presidente, qualquer denúncia é resultado de mais uma conspiração das elites que torcem contra (parêntese: que elite torce contra o Lula hoje? Quem não se deu bem com o governo dele?). Para a imprensa, é um passo a mais do PT em levar o país ao chavismo.

São teorias ridículas para uma situação idem. Um jornalista venezuelano que pise aqui hoje riria de nossas manchetes e manifestações. Não consigo pensar em uma forma maior de expressão de liberdade do que a possibilidade de um dos maiores jornais do país (com 135 anos de tradição, como auto-declarado) publicar editorial a uma semana do pleito apoiando expressamente o candidato da oposição e atacando fortemente o governo. Não vivemos sob a égide de Kim Jong-Il ou algo que o valha, a despeito de alguns esforços em fazer parecer.

Os dois lados se dedicam à criação de inimigos invisíveis que precisam ser sempre combatidos. Um exemplo é o Conselho Federal de Jornalismo, malfadada ideia do início do mandato petista, como se fosse um perigo em permanente risco de ressurreição. Não é. Não gosto do PMDB, mas reconheço que é o partido com mais força no país e tem quadros com divergências ideológicas graves com o PT para permitir que algo assim fosse colocado em prática. Em síntese, mas não só por esse motivo: o PT, mesmo que fosse por inteiro desejoso de uma ditadura fascista de esquerda (o que não é), não conseguiria avançar demais sobre as liberdades individuais, a despeito de todo o carisma do presidente Lula e a força da bancada no Congresso.

Os radicalismos de ambos os lados, no entanto, se fazem presentes. Sindicatos, nichos petistas ad aeternum, se juntam a blogueiros ditos independentes e pedem o exagero da aplicação no Brasil de algo semelhante à Ley de Medios argentina. Do outro, intelectuais de direita ou ressentidos se agrupam para afastar uma espécie de domínio do mal, e a mídia adota lados de uma eleição polarizada. Manifestações como essas, pseudo-defensoras de qualquer tipo de liberdade, não são novidade em situações extremas, como bem demonstrou a famosa Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, que precedeu o golpe de 1964. Que apareçam em situações de estabilidade política e econômica e com instituições fortalecidas, no entanto, é mais raro. E preocupante.

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1 comentário

Arquivado em O Opinioso comenta

Uma resposta para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: Radicalismos

  1. Viktor

    Não dá para colocar no mesmo balaio o Lula e a imprensa quando você diz que ambos não se comportam bem diante das críticas. Por um motivo simples. O presidente exerce um cargo público, o mais importante do país, diga-se, e foi eleito pelos votos do povo, portanto deve prestar satisfação à sociedade inteira e se comportar de acordo com a liturgia da função. Não pode sair por aí disparando contra opositores, sob pena de misturar interesses da esfera privada com obrigações da vida pública.

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