Morlocks

(Para facilitar minha vida e a sua, consideremos que a tecla SAP do blog foi ligada. Todo o texto abaixo é originalmente em espanhol.)

– Olá? Tem alguém aí?

– Pois não?

– Oi, tudo bem? Pode chamar o chefe da operação de resgate?

– Claro. Um minutinho.

(passa um minutinho)

– Sim?

– É o chefe da operação?

– Ele mesmo?

– Oi, tudo bem? Aqui é o líder dos Morlocks.

– Morlocks?

– Sim. Nunca leu “X-Men”? Meu filho tinha algumas revistinhas, acabei lendo. São os mutantes que vivem escondidos nos subterrâneos.

– Ah, sim. Mas, porque Morlocks?

–  É o nome que a gente deu para nós mesmos. Fizemos uma votação e escolhemos o nome do grupo e a mim como líder.

– Líder para que?

– Para dar a notícia. Olha, a verdade é que a gente não quer sair.

– Perdão?

– É, a gente desistiu.

– Como assim “desistiram”? Vocês querem ficar aí para sempre?

– É.

– Mas vocês estão a setecentos metros de profundidade!

– Sério? Não brinca! Acho que todo mundo por aqui sabe disso, não?

– Desculpe, é que eu fiquei espantado.

– Não fique. A verdade é que nossa vida era um saco. Ninguém aqui queria ser mineiro, né?

– Por que?

– Como por quê? Quantos empregos você conhece que pagam mal pela possibilidade de você ficar soterrado em uma mina? E ainda tem a história do canário.

– Que história?

– Ah, aquele negócio de andar com um canário. Toda vez que a gente entra na mina, tem que trazer uma gaiola com um canário. Aí fica um responsável por vigiar o bicho – normalmente eu. Oito horas de olho em um pássaro que nem canta. Um tédio. Se ele morrer, tem que sair todo mundo correndo, porque pode estar acontecendo um vazamento de gás. Aí é uma semana com um bando de especialistas fazendo testes. E é uma semana não-remunerada!

– Ainda não entendo como isso explica o motivo de vocês quererem ficar aí.

– É simples: foi uma mega mudança de vida. Era todo mundo proletário, pobre, ferrado na vida. Na melhor das perspectivas, trabalhando a vida inteira para morrer de câncer de pulmão por causa do pó daqui.

– E agora?

– Agora é todo mundo famoso. Um monte de gente já prometeu dinheiro para ajudar a gente. Aí a gente fez as contas aqui e descobriu que, com o que prometeram, dá para comprar comida e bebida por uns trinta anos e ainda pagar alguém para ficar mandando pra cá. Aqui é quentinho, não tem barulho. A gente compra uns jogos, baralho. Férias eternas. O que mais a gente ia querer?

– E as famílias de vocês?

– Todo mundo já ganhou indenização da empresa. Aliás, é graças a ser praticamente todo mundo casado aqui embaixo que a gente está se dando tão bem só com homens. É todo mundo meio acostumado a ficar sem… minerar por muito tempo, se você me entende.

– Olha, vou falar com o pessoal do governo. Não sei se eles vão topar. Mas, e o que eu falo para a imprensa?

– Pode falar a verdade. Fala que – abre aspas – os Morlocks resistirão! Não ficará broca em pé! – fecha aspas. Não esquece de falar “Morlocks”, por favor.

– Tudo bem. Só mais uma dúvida: não cabe mais um aí não?

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