Random Jones

A cidade estava em festa, às vésperas da inauguração. Como prometera o presidente, foram cinquenta anos em cinco. Ou, pelo menos, era o que parecia. No cerrado desértico, prédios foram erguidos em dias, estradas abertas em horas. Em volta, os barracos dos migrantes se aglomeravam, esperançosos. Foi em um deles que, à uma e meia da manhã do dia vinte e um de abril de 1960, nasceu Random Jones.

O pai, agricultor piauiense, fora para a cidade em busca do sonho do presidente bossa nova. Ouvira falar das oportunidades que surgiriam, do emprego, do dinheiro. Mas o quadro era mais bonito que a realidade, e Random ouvia todos os dias as queixas. Cresceu odiando a cidade, ainda mais quando o pai morreu brigando pelo barraco de papelão na derrubada da vila. Empurrado, humilhado, se mudou com a mãe para uma das comunidades artificiais criadas às pressas pelo governo para acolher os rejeitados da cidade.

Random resolveu lutar. Não se preocupou com os tanques, nem com os fuzis. Se juntou a amigos da escola e, moleque, insultou a farda. Apanhou na invasão da universidade, nos confrontos com a cavalaria. Ouviu os discursos do jovem e honesto líder estudantil – estava próximo dele quando foi este foi preso pela primeira vez. Soube depois do seu desaparecimento, e chorou um choro mudo de impotência.

Trabalhava duro, fazendo o que podia em uma repartição da vida, enquanto engravatados falavam chiado e riam, certos de um salário desigual e das férias na praia. Enquanto brigava para conseguir pagar a casa que conseguira para a mãe doente, persistia na outra luta. Imprimia panfletos, ia a shows de rock, protestava e fugia. Viu tudo piorar antes de melhorar, mas fez questão de estar sob a bandeira em frente à casa do povo, quando a liberdade voltou a sorrir na cidade, sob um céu infinito.

O rapaz tornou-se adulto quando a mãe morreu. Sentiu-se finalmente só na cidade, quando a noite chegou serena e um silêncio ensurdecedor deixou o céu estrelado ainda mais escuro. Foi a angústia desses momentos que ele juntou à raiva quando viu tudo pelo que brigara ruir diante dos escândalos, do caçador que virara caça, do homem-sigla que fugira com o dinheiro do povo. Voltou às ruas, pintou a cara, e gritou mais uma vez pela cidade que continuava odiando, mas tentava proteger a todo custo. Sorriu, uma das poucas vezes na vida, quando viu o homem descer a rampa.

Random está sumido há mais de uma década. Alguns dizem que morreu, outros dizem que finalmente se cansou de tudo e se mudou, talvez para a terra do pai. Bobagem. Quem realmente o conhece sabe que, aos cinquenta anos, Random está por aí, carregando panetones e meias e gritando por uma justiça que ele nunca viu, mas continua na esperança de encontrar um dia.

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “Random Jones

  1. Random Jones. Fantástico nome.
    Tomara que outros Random Jones criem vergonha na cara e aprendam a pensar antes de votar.

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