Marcelinho, o Opinioso, comenta: Por uma economia mais laica

Li em um editorial recente uma crítica aos ataques do presidente Lula e de membros do seu governo ao neoliberalismo. Segundo o jornal, seria um discurso oportunista, de criar um falso inimigo para se contrapor. Não existiriam hoje neoliberais no país, quiçá no mundo, segundo o semanário (ou hebdomadário, como ensinou-me Fernando Collor). Portanto, as críticas do presidente e seus subordinados seriam vãs, mera atividade do jogo político.

De fato não existe mais espaço para o “deus mercado”, a despeito de todas as preces a ele emitidas. Assim como não há também para o “deus Estado”. Governos do mundo todo são cada vez mais centristas, adequando suas políticas e ideologias ao que mais lhes convier dentro das duas linhas. E é adequado que se siga esse caminho de composição de políticas públicas. Ambas as ideologias têm aspectos vantajosos para o país, provocando mais problemas apenas nas utilizações mais radicais.

O problema, em geral, está na execução. Por exemplo, não é possível negar os benefícios da privatização para o desenvolvimento da economia. Mas isso deve ser feito com preocupações maiores do que espantar o Estado do mercado. Para funcionar o modelo privatizado, é necessário um modelo regulatório eficiente e forte, alheio a interesses políticos do governante em vigor. E isso deve ser um pré-requisito das privatizações, não reação. No Brasil, por exemplo, a deficiência crônica desse modelo ainda afeta profundamente setores como telefonia e energia.

Já a concepção de Estado mínimo tornou-se praticamente indefensável, principalmente após a recente crise. Pode-se desejar efetivamente um Estado menos inchado e mais eficiente, mas isso deve passar primeiro por mudanças na legislação. Ideias como a aplicação da CLT e a preocupação com a meritocracia no funcionalismo público (assim como o incessante combate à burocracia) devem ser estimuladas em contraposição a um inchaço desmedido, mas sem desaparelhar a estrutura estatal de forma prévia.

Por outro lado, a preocupação social que falta à teoria neoliberal e sobra na lógica socialista precisa ser relativizada. Preocupação com desigualdade social e de renda não justifica assistencialismo eleitoreiro, como muitas das medidas do atual governo. É legítima inclusive a utilização de medidas paliativas no combate à miséria, mas essa opção não pode se sobrepor a um projeto de longo prazo que abarque outros aspectos que não só a renda como educação, saúde, entre outros.

O que é necessário, em última escala, é uma economia laica. Um modelo que, sem fanatismo religios0 pelos deuses mercado ou Estado, aceite realizações e conceitos de ambos os lados. E isso depende de vontade política, alheia à realidade dos interesses eleitorais do atual chefe do Executivo ou do impacto do lobby no Legislativo.

Talvez a política ande precisando mais de uma certa moral religiosa e pelo menos um pouquinho de medo da danação eterna.

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