Laranja-entristecido

Do nada, começou a observar as luzes. Nunca tinha notado como elas brotavam, às vezes rápido, às vezes devagar, na janela do ônibus. Primeiro foi um letreiro com as horas e a temperatura. Depois semáforos, um letreito luminoso, vitrines de uma loja. Por fim, percebeu as luzes dos postes que se postavam ao longo da avenida. Nunca prestara atenção à cor em particular. Era um laranja pálido, como um vermelho que tivesse perdido a força depois de muitos anos.

Foram as luzes que começaram. Quase nunca pensava na volta para casa, no ônibus praticamente vazio. Os outros passageiros estavam sempre em silêncio, mas mesmo que falassem nada mudaria. Ficava isolado do mundo externo pelos fones de ouvido, e do mundo interno pela música que entrava pelo ouvido e expulsava qualquer pensamento teimoso. Aquele dia, entretanto, pensou. Viu as luzes, os postes, o laranja entristecido. E pensou.

Lembrou da família, mas não com saudade. Lembrou dos amigos – sempre os mesmos, com as mesmas conversas de sempre, as mesmas piadas. Lembrou do trabalho, todo dia igual, todo dia diferente. Lembrou do passado, das aulas que teve, dos filmes que leu, dos filmes que viu. Sentiu algo no peito, mas não saberia como explicar mesmo que tivesse ajuda.

Arrependimento? Difícil, já que não se via em nenhuma outra possibilidade. Tristeza? Não chorava, apesar de sentir um pouco de vontade. Mas era aquelas vontades bestas, que não demandavam praticamente nenhum esforço para resistir. Resignação, talvez? Quis chorar porque se sentia resignado, mas as lágrimas não saíam, resignadas.

Tentou puxar da memória alguém famoso que já tivesse passado por aquela situação. Lembrou de Woody Allen, mas não era nem tão engraçado nem tão neurótico. Não conseguiu pensar em mais ninguém, mas não se sentiu inferior. Sentiu-se mediano. Mais – sentiu-se medíocre, a palavra cujo significado real mais gostara de aprender depois de “ridículo”. E continuou medíocre até descer na parada e seguir para casa sob as luzes laranja-entristecido dos postes.

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2 Comentários

Arquivado em Crônicas do Opinioso

2 Respostas para “Laranja-entristecido

  1. “dos filmes que leu, dos filmes que viu” malandragem ou confusão?

    Acho que nunca vi nenhum filme do Woody Allen, se vi não sabia que era.

    Na yoga, laranja é a cor da energia/disposição/etc.

  2. hdth

    eu sempre achei as luzes laranjas triste, esses postes sao deprimentes. sempre quis que fossem todos com luzes brancas. mas ngm concorda comigo

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