Marcelinho, o Opinioso, comenta: Sarney estava certo

Com todos os problemas, polêmicas e escândalos, o presidente do Senado José Sarney até conseguiu trazer à baila um assunto importante – o que não o habilita a continuar no cargo. Em discurso sobre a democracia (na semana passada, eu sei, mas fiquei matutando o texto esse tempo todo), questionou em certo momento quem, afinal de contas, são os representantes do povo: eles, os parlamentares, ou a mídia. Concluiu que ambos clamam pelo título, tornando-se, em última instância, inimigos. Pressionado nos dias após o discurso, recuou e disse que foi tudo exercício teórico, ciência política aplicada. Bobagem, é claro, já que ele não ia perder a chance de bater nos críticos.

Não concordo com Sarney em relação à questão da inimizade, mas acho válida a pergunta. Não são poucos os jornalistas que se vêem como arautos da opinião pública, exercendo papel fundamental de representar o povo, em oposição principalmente aos governos constituídos. Só tem um problema: essa função já é exercida por outros grupos. O ministério público, por exemplo. Imprensa não é representante do povo porque lhe falta legitimidade. Jornalistas não são eleitos democraticamente, são escolhidos em um processo de seleção privada que melhor atenda às expectativas do grupo contratante. Imprensa, em uma frase já famosa sobre esse setor, não é opinião pública, mas opinião publicada, derivada diretamente dos grupos controladores e sujeita a esses interesses. E deveria agir como tal.

Sou, de certa forma, radical nesse aspecto. Tendo a acreditar que a imprensa é para o país como quaisquer outras áreas da economia: indústria, comércio, serviços – o que arrogantemente nomeei como teoria industrial. Mídia é um setor econômico, especializado no fornecimento de informação. Poderíamos vender carros, mas vendemos informação. E criamos critério para determinar o que torna esse produto melhor. Em geral, convencionou-se dizer que a principal qualidade é ser de interesse público, mas a subjetividade do conceito dificulta sua utilização classificatória. De resto, sobram as características padronizadas – ineditismo, proximidade e, mais recentemente, velocidade. E essa classificação, assim como em qualquer outro setor econômico, é elaborada pela própria imprensa, numa espécie de esforço auto-regulatório.

O marketing defende que os jornalistas revistam-se da capa da objetividade e do interesse público ou social, mas é tudo propaganda. Em última instância, a imprensa não tem mais isenção do que um sindicato como a Fiesp ou a CUT. São profissionais de um setor, atuando da forma que acham mais correta para o bem daquele setor e das empresas que o compoem. E esse bem vem revelado nas vendas, na audiência, que podem demonstrar a qualidade da informação produzida. Tanto que, fato notório, quando a atuação fica mais “sindicalizada” do que o adequado, a preocupação com o produto final diminui, e o impacto nas vendas é óbvio.

Isto posto, fica mais fácil entender a dificuldade, por exemplo, dos jornalistas lidarem com a chamada web 2.0, marcada prioritariamente pela interatividade e produção descentralizada de informação. É como se fosse uma quebra do monopólio, da reserva de mercado. Não são somente os jornalistas que definem o que é notícia, mas qualquer um. Todos podem criar blogs, dar opiniões e adquirir credibilidade baseados nos mesmos critérios adotados pela mídia tradicional. Ou não, podem criar um novo modelo de jornalismo, mais adaptado à revolução tecnológica contínua pela qual passamos, e elaborar novos critérios. Continuam, no entanto, sem representar o povo.

O que, no final das contas, nos deixa sem representantes dignos. E a mim, com a sensação de que vou precisar voltar a esse assunto.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: Sarney estava certo

  1. Alex Gomes

    Até que enfim alguém conseguiu enxergar o comentário de Sarney com clareza.

  2. Que nada, não existe opinião publica, o que existe é a informação que a imprensa incute na população que os faz pensar que aquilo é o que querem.

    Logo, o povo quer, o que a imprensa quer que eles queiram.

    Por exemplo, eu ainda quero consultar um infectologista ou imunologista, por que nada me tira da cabeça que a Gripe A não é tão demoníaca como pregam (Queriam impedir a Micarêgoiania, agora tão fazendo campanha pra que as pessoas nao se beijem durante o evento (lolz)) e isso é sensacionalismo pra desviar a atenção de alguma coisa (ou pra gerar pontos no IBOPE).

    Eu não conheço ninguem que teve Gripe A nem ninguem que conheça quem teve.

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