Fausto em tempos de Madoff

Ele não aguentava mais a crise: vivia de bicos, volta e meia acabava despejado, e já tinha mais credores do que dentes. Por isso, tomou uma medida desesperada. Gastou os últimos trocados que tinha para comprar uma galinha preta, algumas velas e a passagem de ônibus para a encruzilhada mais próxima. Improvisou alguns rituais que achou que funcionariam, até ouvir a voz atrás.

– Chamou?

Nada de fumaça, cheiro de enxofre, homem-bode, tridente. Só um rapaz com calças jeans e uma camiseta branca. Sem estampa.

– Você é o…

– Sou eu mesmo. O capeta, o tinhoso, o cão. Não era o que você queria?

– Era, mas… Sei lá, pensei que quando você aparecesse eu sentiria o calor do inferno, veria abrir um buraco no chão, essas coisas. E você parece tão… normal!

– Corte de gastos, chefe. Primeira coisa que some são as verbas para os efeitos especiais. Mesmo porque , depois que esses mágicos de rua entraram na moda, dá trabalho impressionar as pessoas. Não compensa. Mesma coisa vale para roupa: não dá mais para ficar usando aqueles chifres, rabos e pés de grife. Só compro na C&A agora.

– Sei.

– Mas acelera o assunto que foi chamada interurbana a cobrar.

– Então… Eu decidi que quero vender minha alma.

– Imaginei. Ninguém nunca me chama para uma partida de damas, é sempre assim. Solidão dos infernos lá embaixo, mas tudo o que vocês querem é negócios. Que seja, estou aqui para isso. Qual o preço?

– Bom, primeiro eu quero ser o homem mais rico do planeta.

– Ih… Vai dar não.

– Como não dá?

– Não dá, ué. Primeiro que esquece esse negócio de vários desejos realizados. É um e olhe lá. Segundo que eu só poderia te atender de dois jeitos. Ou eu deixo todo mundo mais pobre do que você – o que, convenhamos, está difícil – ou eu teria que te dar dinheiro demais para meus humildes cofres esvaziados.

– Como assim? Você está quebrado?

– Eu não diria quebrado… É mais um prejuízo passageiro. Andei investindo meio errado – deixa o Madoff chegar lá embaixo para ele ver – e está difícil conseguir mais gente para investir em mim. Nessa época de ateísmo, pouca gente acredita no diabo…

– Sei. Então me dá um cargo de chefia em alguma mega empresa aí.

– Sem chance. Todo mundo demitindo, quadros encolhendo, ações em baixa. Não sei como eu me mantive no meu cargo!

– Ok, esquece o mundo dos negócios. Me deixa o mais bonito e charmoso do mundo que eu caso com uma viúva rica.

– Também não vai dar. Aumentou muito a demanda desse tipo de coisa de mexer na cara, mas a gente manteve os pagamentos. Não deu outra: os cirurgiões plásticos do nosso convênio entraram em greve. E esse povo você sabe como é, né?

– Credo… Tá bom então, me faz o mais inteligente então que eu trabalho e consigo a grana.

– Assim… Na boa? Não quero ser chato, mas olha essa crise. Ela é culpa dos “inteligentes”. Essa galera nunca esteve tão em baixa. Na verdade, a maioria andou indo lá para as minhas terras por causa de algumas “sacadas financeiras”, se é que você me entende.

– Mas assim fica difícil, né? Te chamei aqui à toa?

– Não, não, claro que não. Será que não dava para gente fechar um meio-termo? Te dou um bilhete premiado da quina e um cargo de assessor do Sarney, pode ser?

– Pode, mas aí minha alma fica contigo só por uns 100 anos, e não pela eternidade. Fechado?

– Fechado.

Foi só aí que os dois perceberam que não tinham nem como comprar uma caneta para assinar o contrato.

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Crônicas do Opinioso

3 Respostas para “Fausto em tempos de Madoff

  1. O comentário acima é meu…. XD

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s