Marcelinho, o Opinioso, comenta: Gastos e desperdícios

Conveniente a entrevista do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, publicada esse domingo pelo Estadão. Serviu para dar algum espaço ao governo para se explicar sobre o recente aumento nos gastos públicos, e tentar colocar algum argumento nesse samba do crioulo doido que virou o noticiário econômico recente.

Como de praxe em textos sobre assuntos chatos, tento fazer uma síntese imparcial. Como de praxe, não vai funcionar.  De qualquer forma, a questão em tema são os gastos públicos, crescentes desde o início do governo Lula. Reajustes do funcionalismo, programas assistenciais, além de outros aumentos generalizados no custeio, tudo isso fez crescer consideravelmente as despesas nos últimos anos, quase dobrando em alguns casos.

A principal pressão contrária a esse aumento vem da imprensa e sua verve neoliberal, e sem nenhum juízo de valor crítico nesse sentido. É antiga a adoção por veículos de linhas teóricas em alguns temas, e a principal opção na área econômica em geral é essa. Estado menor e mais eficiente, auto-regulamentação dos mercados, tudo isso pauta há muito tempo a maioria dos nossos veículos de comunicação. E faz sentido, porque antes de qualquer coisa são empresas, e certamente seriam beneficiadas por políticas mais próximas dessa linha.

Só que não dá para fechar os olhos para as vantagens do outro lado. Não dá para ignorar que grande parte dessa crise veio dessa liberdade excessiva de mercados especulativos e da atuação de nossos “homo economicus”, que só preocupam em maximizar o lucro. Não dá para esquecer que política anti-cíclica, ou seja, para tentar impedir o ciclo de crise e ascensão natural ao capitalismo, exige gastos públicos em uma situação dessas. Foi o que funcionou após a crise de 29, e provavelmente o que ajudou o Brasil a se segurar dessa vez.

Nossos programas assistenciais colaboraram para manter o mercado interno consumindo. O governo assumiu a posição de puxar o investimento, fornecendo dinheiro para financiamento nos bancos públicos e criando o PAC, que não anda bem das pernas por um conjunto de deficiências dos governos federal, estaduais e municipais, além do Congresso.

Não vou ignorar, é claro, o problema dos gastos permanentes. A natureza política de um governo sindicalista às vezes o empurra para imprudências que agradem bases eleitorais, como o PT e os reajustes salariais para o funcionalismo público. O que não significa o fim do mundo, se as previsões do próprio mercado se realizarem e tivermos uma economia em plena recuperação daqui pra frente. Basta segurarmos nossos políticos para não transformarem em palanque o plenário do parlamento (foi meio língua do P, esse trecho) no ano que vem e fazerem mais graça para servidores públicos.

Um dos argumentos é de que, com menos gasto do governo, dá para diminuir os impostos, o que significaria desonerar o investimento. Tenho sérias dúvidas sobre a funcionalidade disso. Nossos empresários são provavelmente os mais avessos a risco do mundo, e só movem um dedo quando se sentem no conforto do inteiro de uma bolha de pelúcia. Precisaríamos de taxas de juros baixíssimas pressionando por uma inflação de demanda para só aí começarmos a investir. Fora os problemas de uma legislação deficiente e fiscalização idem.

É muito fácil apontar o dedo e criticar de forma retórica, desperdiçando tempo e palavras com foco nos problemas do outro lado sem se preocupar com os próprios. Difícil é subir ao poder, fazer o que é preciso, com toda a imprensa contra, e acertar apesar dos erros.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: Gastos e desperdícios

  1. Adão Esmite

    Não vejo problema no governo participar de forma mais maciça na economia. Aliás, nem mesmo os liberais têm a ilusão do estado mínimo, tendente a zero. Isso é uma grande falácia. A questão a ser discutida é como deve se dar a ação governamental. Quando as medidas paternalistas e assistencialistas ganham mais espaço do que os investimentos em infraestrutura e educação, aí temos um equívoco. Lula, em nome da própria biografia, eximiu-se de fazer as reformas e os investimentos de que o país precisa. Acomodou-se com os bons resultados da economia e mais não quis fazer. Lamentável, porque se um presidente respaldado por 80% de aprovação popular e por uma economia confortavelmente estabilizada não teve os peitos de romper a inércia em que o país está mergulhado, quem mais terá? Lula perdeu uma oportunidade histórica e a gente perdeu junto.

    O argumento de que suas ações assistencialistas serviriam como escudo anti-cíclico tampouco serve de consolo. O mercado interno tem muito mais chance de aguentar as crises externas quando a indústria, o empresariado e as famílias encontram um ambiente fértil para seus negócios. Não é o que acontece, graças à carga tributária, aos juros, à burocracia, à falta de mão-de-obra qualificada, à violência urbana e à precária infraestrutura que temos ao nosso dispor.

    Injetar dinheiro de forma artificial no mercado consumidor por meio desse assistencialismo desenfreado é uma medida paliativa e está longe de sequer resvalar o cerne do problema. Além disso, mais tarde essa conduta paternalista do governo cobrará sua conta. E ela virá amarga, não tenha dúvidas.

  2. Mas os gastos exarcebados do governo não é novidade nem privilégio do governo Lula. É algo quase cultural, pois nada é realmente desperdiçado, alguem esta ganhando em cima de tudo isso.

    Na minha opiniao deveriam fazer uma “limpeza”na politica brasileira, tirando tudo que há de velho e ineficiente e colocando peças novas e funcionais. Chega de políticos que já estão por aí desde muito antes de nascermos. É preciso modernizar a política nacional, e quem sabe assim nos livrarmos do sistema de robalheira atual.

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