Marcelinho, o Opinioso, comenta: Anacronismos

Tenho uma habilidade que, às vezes, vira problema. A partir de coisas cotidianas eu começo a divagar, e divagando eu vou ao longe. Por exemplo, depois dos recentes conflitos ocorridos na Universidade de São Paulo, voltei a reflexões que recentemente tomaram minha mente por algum tempo, na época da invasão da reitorias da Universidade de Brasília.

Tem coisas que são eternas. Elvis Presley, por exemplo. O “Rei do Rock” morreu há mais de 30 anos (ou não morreu, dizem os conspiradores de plantão) e, mesmo assim, não perdeu o reinado. Coisa parecida acontece com Pelé, que ainda não morreu, mas continua o Rei do futebol décadas depois de ter aposentado as chuteiras. Deve ter algo a ver com aquela expressão “quem já foi rei nunca perde a majestade”. De qualquer forma, eles estão um passo além do resto da humanidade: não foram absorvidos pelo tempo após a morte. Nesse caso, por mérito, pelo destaque que tiveram nas carreiras que seguiram.

Outro que aparentemente é eterno é Marx e suas teorias. Qualquer universitário que estudar em um curso de Humanas vai encontrá-lo, mais cedo ou mais tarde, entre referências bibliográficas e discursos de professores. E isso é porque Papai Noel comunista é do século retrasado! Novamente, a mesma coisa acontece com outros famosos da filosofia, como Nietzche, Weber, Kant e adjacentes. Nesses casos, o motivo do salto para a eternidade é atemporalidade das idéias que eles apresentaram ao mundo. O que esses homens pensaram ainda vale hoje, como referências para que analisemos o nosso tempo. Ou seja, idéias, métodos, técnicas, também podem seguir adiante após a morte de seus autores.

Mas, se existem pessoas e idéias que se eternizam, outras simplesmente somem. Ou deveriam sumir. Não estou falando, é claro, de Dados Dolabellas e sub-celebridades instantâneas, porque nesses casos a efemeridade é óbvia. Falo de fatos, pensamentos, que podem ter sido muito efetivos em sua época, mas hoje são completamente anacrônicos. Como, por exemplo, essa oposição que professores e alunos de universidades públicas fazem à presença da polícia nos campi. Por que isso, meu Deus?

Eu entendo a origem dessa birra, que vem lá da ditadura, com seus reitores militares e opressão nos corredores das faculdades. Mas isso foi lá, 40 anos atrás. Hoje vivemos em uma sociedade democrática, com um governo de representação popular legitimamente escolhido e um modelo eleitoral consolidado. Não há motivo para pensar que o objetivo de ter a polícia dentro das instituições de ensino seja impedir o livre pensar ou a liberdade de expressão. A idéia é manter a segurança em um ambiente cada vez mais perigoso e violento. Não sei como é na USP, mas a UnB registrou recentemente um preocupante aumento no número de assaltos, roubos e crimes sexuais.

A maioria desses movimentos que entram em confronto com a polícia (ou com qualquer instituição que aparente ter poder) são ligados a sindicatos e a grupos dentro das faculdades (principalmente de Ciências Humanas) que se dizem mais politizados do que o resto. Não vou discutir o mérito da opção política de ninguém, mas peço uma observação: muitos dos auto-proclamados líderes dos movimentos têm também vínculos partidários ou acabam enveredando para esse caminho depois dos eventos. Invadir reitorias e brigar com a polícia viraram plataforma política para angariar votos.

Temos hoje todos os canais para o protesto político. Se a grande mídia não colabora, está aí a democrática internet, ainda mais forte entre o público jovem. Não devemos descartas as passeatas pacíficas e as manifestações artísticas, mas tudo tem que ser feito sem radicalismos. Não adianta socar a cara de alguém e depois pedir calma para conversar. No ambiente das universidades, com plenas liberdades de pensamento e de expressão, greve com piquete e depredação de patrimônio público são anacronismos puros, e um caminho óbvio para o esquecimento.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: Anacronismos

  1. Vanessa

    Marcelo,

    Quanto tempo!
    Vou levar a sério a parte em que você diz “Não sei como é na USP”. Esperando que você saiba a diferença entre “número de assaltos, roubos e crimes sexuais” e reivindicações dos movimentos estudantis…e também acreditar que você deve estar melhor informado do que aparenta sobre as manifestações que deram início ao confronto com a PM na USP e que começaram exatamente como você sugeriu: pacificamente. Se houveram abusos esses foram cometidos pela própria polícia. Não é uma questão de preciosismo alegar que a PM não entra na Universidade de São Paulo desde 1968, é um fato e é relevante sim no contexto de luta por liberdade e pela autonômia universitária.

    Não é motivo para discussão, mas apenas um comentário lembrando que a verdade é também um ponto de vista.

    Vanessa

  2. É de se reparar também que a maioria das universidades ficam no meio do nada, ou ainda pior, em locais de risco, como a UFRJ lá no Fundão, a UFBA que fica do lado de uma favela também. E a ausencia da polícia (como mantenedora da segurança) torna tudo mais facil para a ação de bandidos.

    Não defendo a presença da policia para bisbilhotar assuntos estudantis ou para dar porrada em quem faz piquete, mas para manter a segurança do local, afinal, Universidade não esta imune a assantos, estupros, assassinatos, etc.

    Pode até ser vantajoso dizer que a PM nao entra na USP desde 68, mas para demonstrar um local de extrema segurança e civilização. Pra dizer: “Ta vendo, aqui todo mundo é civilizado e nao acontecem crimes, quem dera o resto do mundo ser assim como nós…”

    Agora vangloriar-se que a PM não entra na universidade só pra dizer: “Rá, policia para quem precisa, policia para quem precisa de policia…” dando uma de James Dean, eu acho bobeira.

    Eu quero acreditar que a PM é minha aliada, seja na rua, em casa ou na universidade, e por isso poder dizer: “Que bom que tem policia aqui”.

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